Um mundo conservador pede um rock inofensivo – e é o que temos

Cena do filme 'Easy Rider', um marco do cinema underground movido a rock dos melhores: a motocicleta, símbolo da liberdade e da luta contra o sistema, agora é a imagem do status burguês do homem rico bem-sucedido, conservador e que abomina qualquer abalo em seu mundinho limitado (FOTO: REPRODUÇÃO)

O bolsonarismo está na lona, com seu mentor preso e condenado a 27 anos de prisão – mas não está morto. Ainda persiste a sensação de que essa praga continua estigmatizando a sociedade brasileira e empesteando tosos os ambientes., especialmente os culturais.

O avanço da ignorância parece inexorável no mudo e o medo é de que a tendência de burrice conservadora ressurja por aqui como está reaparecendo em diversos lugares do mundo. O emburrecimento progressivo é uma tendência geral ou apenas uma sensação/paranoia?

Diante d quadro tenebroso, é triste constatar que o rock tem um índice muito maior de conservadores e fascistas no Brasil e nos Estados Unidos do que eu gostaria, ou do que gostaríamos.

O rock envelheceu mal em muitas situações, especialmente no Brasil, mas o fato é que parcela expressiva de seus artistas e fãs é formada por conservadores desde sempre, que gostavam da libertinagem e de certa liberdade que o gênero pregava quando eram jovens. Mais velhos e adultos, não pensaram duas vezes em repetir o comportamento dos pais em busca de “conforto e segurança”.

Essa parcela virou o estereótipo do tiozão da moto Harley Davidson, que ama rock, mas o inofensivo, o velho rock clássico que fala da mulherada e das bebidas, e nada mais – e que fica policiando a filha adolescente na escola, na balada e mesmo em casa, louco para impedir a transa dela, quando na mesma idade ele era o “azarador”…

Há algumas diferenças entre os roqueiros conservadores nos países. Nos Estados Unidos, os artistas dessa laia são mais nacionalistas do que liberais. Adoram falar em liberdade, mas acham que imigrantes e negros ameaçam a sua “liberdade” individual, sabe-se lá o motivo da paranoia.

Esses caras cresceram em um mundo mais simples, dividido entre comunistas e “defensores da liberdade”, com os negros e hispânicos “em seus devidos lugares, servindo e fazendo os serviços que ninguém quer fazer”. As mulheres? Servem para parir, limpar a casa e fazer a comida.

Acham que os imigrantes vão degenerar a espécie (qual espécie?) e vão tomar todos os empregos, rebaixando os salários. Acham que os chineses vão dominar tudo e transformar a sociedade americana em um imenso fast food.

Os roqueiros conservadores britânicos sempre o foram, mas tinham um pouco mais de educação e mais vergonha antes de se expor. O Brexit (saída do Reino Unido, pelo voto, da União Europeia) jogou luz sobre essa gente e o que vemos não é bonito: um nacionalismo fora de moda, com medo de imigrantes – que não dão a mínima para os valores ingleses. classes.

O imigrante moderno chega com mais vontade, com mais gana, ganha o dinheiro e se diverte como pode. Por isso gente como Eric Clapton e Van Morrison odeia brasileiros, poloneses, italianos e portugueses, “aqueles imigrantes que querem tomar a Inglaterra graças às leis da União Europeia que acabam com nossa soberania”.

No fundo, esses e os punks de 1977 (ou parte deles) sempre foram conservadores e nacionalistas, e berraram naquela época somente porque estavam desempregados, desiludidos e sem dinheiro no bolso.

Quando as coisas melhoraram um pouco na década seguinte, viraram new wave e yuppies, fazendo som de merda movidos a tecladinhos e sintetizadores escrotos que diluíam toda a raiva e a fúria punk.

Neste aspecto, ponto para os artistas e fãs do heavy metal britânico oitentista, que, em sua maioria, mantiveram a sua essência roqueira com atitude e verdadeira luta pela liberdade de expressão e por mais justiça social.

É só entrevistar gente como Steve Harris (Iron Maiden), Biff Byford (Saxon) e Joe Elliott (Def Leppard), entre outros, para perceber um pensamento um pouco mais progressista.

E no Brasil? Como movimento underground, e de nicho, o rock quase sempre foi um som de classe média. Foi mais progressista nos anos 70 porque havia uma ditadura militar que perseguia cabeludos e estudantes de qualquer coisa.

Quase todos os maiores nomes do rock setentista se tornaram mais ou menos conservadores, sem disfarçar pensamentos elitistas que atribuíam aos cânones da MPB da época. Parecia ser uma forma de se contrapor a um progressismo limitado, mais verborrágico do que outra coisa, de gente como Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Falem o que for desses dois, mas sempre foram coerentes e nunca pularam do barco das forças progressistas e de esquerda, mesmo que tivessem comportamento artístico elitista e de panelinha.

Por ser um tipo de música associado à classe média, mesmo quando ficou mais popular, nos anos 80, o rock atraiu muita gente por seu caráter rebelde de fachada e pela suposta defesa da liberdade de comportamento.

Por algum motivo insondável, o gênero foi associado a uma revolução de costumes que nunca ocorreu por aqui. Quem gostava de rock nacional ficou velho e partiu para o sertanejo, mais inofensivo e afeito aos comportamentos moderados e conservadores.

Os punks continuaram punks, irados e pobres. Sentiram-se traídos por uma certa esquerda mais maleável e conciliadora. Quando a vida melhorou um pouco, nos governos Lula e Dilma Rousseff, sentiram-se em plena contradição: como apoiar aqueles políticos que eram seus ídolos, mas que se “venderam” em acordos com a direita para poder governar?

Alegando uma suposta “independência”, muitos desses punks na verdade nunca deixaram de aspirar a uma vida melhor e nunca gostaram de pobres. Sempre almejaram ser uma classe média que nunca foram. Nunca deram bola para a desigualdade social, sempre “ignoraram os bandidos” e nunca valorizaram a liberdade de expressão.

Caíram de cabeça no bolsonarismo alegando a corrupção desenfreada nos governos do PT, mesmo que não saibam direito a que tipo de corrupção se referem.

Por fim, os roqueiros clássicos que se tornaram pequenos empresários ou profissionais/empresários relativamente bem-sucedidos, ex-progressistas e ex-esquerdistas que nunca tiraram os pés da classe média mais reacionária.

Em sua maioria, esses seres nunca acreditaram de fato nas mensagens das músicas que admiravam. Curtiam o Pink Floyd ou as músicas mais “encrencas” de David Bowie, John Lennon e Peter Gabriel no quarto escuro de dormir e só.

Nunca quiseram saber do que se tratava “Animals”, do Floyd, baseado no livro “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell (1903-1950). Nunca tiveram interesse em saber o contexto de “Heroes”, de Bowie. Nunca se interessaram na história de Steven Biko, o ativista negro retratado em “Biko”, de Gabriel.

Por isso é que causa estranheza que amassem tanto Yes, Genesis, Pink Floyd Iron Maiden, Manowar, Dio e bandas que investiam em contos medievais, letras de cunho históricos e fábulas diversas. Sempre acharam que era só isso – fábulas… Não entenderam e nunca quiseram entender nada.

Essa gente queria um mundo diferente nos anos 80, mas não muito diferente a ponto de colocar os mais pobres na mesma sala de faculdade ou no mesmo barzinho da moda no bairro dos Jardins ou Moema ou Pinheiros, em São Paulo, ou no Leblon, no Rio de Janeiro.

Embora nunca admitissem, odiavam as greves de metalúrgicos e as passeatas dos professores da rede pública em busca de melhores salários e uma educação um pouquinho mais digna.

O roqueiro que virou tiozão e que adora Allman Brothers, ZZ Top e Lynyrd Skynyrd gosta da sua moto cara e de seu uisquinho importado.

É a espécie que odeia Neil Young e sua pesada canção “Ohio”, que fala sobre ativismo e morte de manifestantes; que odeia o U2 que faz proselitismo político mas que tem postura clara em defesa dos direitos humanos.

Também odeia o Paul McCartney mis velho porque se tornou vegano; odeia Madonna e Adele e a Amy Winehouse porque ousaram confrontar os mundo dos tiozões transando adoidado, bebendo todas e ganhando dinheiro demais.

Essa gente nunca foi roqueira por inteiro, se é que dá para falar isso de alguém. Essa gente sempre foi conservadora e de classe média – a diferença é que, a partir de 2013, com aquelas manifestações estapafúrdias e sem nexo, essa gente saiu do armário e ajudou a empestear o mundo com todos os seus preconceitos e ódios.

É gente que fala que gostava de The Clash e Body Count até descobrirem que eram bandas “políticas”, da mesma forma que muito tiozão imbecil ficou chocado com o shows de Roger Waters em São Paulo, em 2018.

Da mesma forma que muita gente fica indignada com a postura política de confronto dos Detonautas Roque Clube contra o bolsonarismo e dos Inocentes contra os ataques à liberdade de expressão. É gente que nunca se ligou contra o que os Ratos de Porão vociferavam desde sempre – e que chamam João Gordo de traidor e esquerdista.

Como é engraçado ver a cara de pânico de imbecis que percebem, finalmente, do que se trata a maioria das letras da Plebe Rude ou de muitas dos Titãs…

A questão é que o rock nunca foi progressista no Brasil, por mais que tenhamos visto e ouvido alguns lampejos aqui e ali. O conservadorismo sempre predominou desde a sua origem por aqui, com o pior das posturas da classe média predominando.

É triste, mas nenhum pouco surpreendente que tenhamos o um rock manso e adestrado em 2025 (há exceções), onde o conservadorismo é quase predominante e com uma parcela expressiva maior do que gostaríamos de fãs que não têm mais vergonha de flertar com autoritarismo de inspiração fascista.

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