A cidade de São Paulo com personagem principal, protagonizando uma obra conceitual que procura valorizar aspectos pouco ressaltados da megalópole incansável e imparável. A ideia não é original, mas foi implementada como poucas vezes se viu na música brasileira.
O velho olhar metálico, pesadão e de cunho industrial sempre associado a São Paulo, com seu ritmo feroz e velos, que surgiu no som voraz dos punks e das bandas de heavy metal, ganha outros contornos na visão da banda Naimaculada, que ainda saboreia os bons resultados do primeiro álbum, “A Cor Mais Próxima do Cinza, que é uma grande homenagem à cidade de São Paulo.
O cinza é uma metáfora que condiz com o ideário de São Paulo, que comporá uma paleta variada de cores”, diz o vocalista Ricardo Paes em conversa exclusiva com o Combate Rock. “Todas as ideias para o álbum convergiam para a metrópole como grande personagem.”
O rock progressivo combinado com uma MPB mais sofisticada e toques infinitos de jazz formaram um retrato sonoro diferente da cidade que nunca dorme e nunca para. Uma melancolia reflexiva emerge das músicas e letras para colorir São Paulo com tintas mais sutis e delicadas.
“É uma tentativa de perceber outras coisas no nosso cotidiano, de ver além do que sempre enxergamos. Sem soar pretensioso, São Paulo sempre será mais do que o nosso olhar alcança, e dá para ver uma cidade diferente todos os dias – a que acolhe e que, ao mesmo tempo, assusta”, comenta Paes.
A combinação de rock progressivo, jazz e MPB tem relação direita com o ambiente cosmopolita que é uma característica marcante da cidade. “De algum jeito conseguimos conciliar influências de Yes, King Crimson, Pink Floyd, Milton Nascimento, Azymuth e mais um monte de coisa. O resultado agradou bastante porque traduziu o que tínhamos na cabeça.”
A banda prepara para breve um EP de quatro músicas que Paes considera uma sequência de A Cor Mais Próxima do Cinza, reunindo músicas que não entraram no álbum e sons que “complementam” o concito do disco, só que de forma mais ampla”, explica Ricardo Paes. “O tema São Paulo é denso e extenso e comporta uma gama maior de interpretações.”
Naimaculada busca oferecer um outro tipo de experiência, navegando nas águas já desbravadas pela banda paraibana Papangu. É uma banda que representa um novo momento na música alternaiva brasileira, mas sem a pretensão de liderar um movimento.
Paes se empolga ao falar de como tem sido interessante colaborar com aristas novos e de outros segmentos, como os integrantes dos Boogarins e Nabru, situações que elevam o nível da arte e abrindo portas para experiências relevantes.
“O dinamismo da arte atual obriga todos a colaborar e, de certa forma, ‘liderar seus movimentos’ para valorizar a cena e atrair mais público. Não tem como ser diferente”, afirma o vocalista.
A postura underground e colaborativa não é contraditória com o fato de Naimaculada ser contratada de uma gravadora como a Dedck? “Não. O suporte que eles dão é importante para impulsionar as ideias e fomentar uma cena artística. São aliados e pareiros.”
Experimentação
Pietro Benedan, baterista e um dos fundadores, ressalta a rica troca de ideias de cinco músicos com gostos aparentemente incompatíveis conseguiram forjar uma sonoridade autoral que captura a essência contemporânea de São Paulo.
“Sem medo e sem preconceitos, combinamos de experimentar e ver o que combinava e o que dava certo. Testamos muito e assim funcionou”, explicou o músico.
Foi assim que resolveram acrescentar um saxofone em canções eu misturavam rock e jazz, lembrando muito o King Crimson dos nos 1971-1972, como no caso da boa canção “Epítome”, que abre o álbum “A Cor Mais Próxima do Cinza”.
O som tem experimentalismo, mas sem vanguardismo. Com um tema central girando em torno da vida moderna em uma metrópole, as canções conseguem transmitir as diferentes sensações de se viver em tamanha pressão e velocidade em um lugar frenético como São Paulo. É o tema central na crítica e pesada “Quatro Quina”, que tem um baixo percussivo que dialoga muito bem com várias flautas.
Com muitas referências à cidade de São Paulo, as músicas remetem a um ambiente em que trabsitaram muito bandas importantes como Rumo, Premeditando o Breque, Kíngua de Trapo, Velhas Virgens e até Voluntários da Pátria e Ira! Naimaculada prova que São Paulo é uma grande personagem.
“A Cor Mais Próxima do Cinza” demonstrao como a diversidade estética pode se transformar em força criativa quando canalizada através de um propósito comum
Com a formação atual composta por Ricardo Paes nos vocais, Samuel Xavier na guitarra, Luiz Viegas no baixo, Pietro Benedan na bateria e Iago Tartaglia no saxofone, a banda exemplifica a riqueza da diversidade musical.
Pietro revelou o segredo da química grupal: “Cada integrante tem um gosto, um tipo de estilo diferente. A gente se encontra em poucas coisas que gostamos juntos”.
As convergências incluem referências como Beatles, Pink Floyd e o argentino Alberto Spinetta, enquanto as divergências criam tensões criativas produtivas. O baterista destacou ainda a substituição temporária do saxofonista original Frodo – que partiu para um intercâmbio na China para estudar novos instrumentos – por Iago Tartaglia, da aclamada Gastação Infinita.
“Luz/Sé”, uma canção emblemática, mostra como a banda consegue equilibrar experimentação sonora com acessibilidade melódica, criando paisagens urbanas que refletem a complexidade de São Paulo contemporânea.
O álbum “A Cor Mais Próxima do Cinza” emergiu como uma declaração de maturidade artística, evidenciando por que a formação representa uma das vozes mais autênticas da nova música brasileira. A entrada de Samuel Xavier como guitarrista – “ele é incrível”, enfatizou Pietro – completou a alquimia que permite à banda transformar suas diferenças individuais em coesão coletiva.
Mais uma vez, o Dharma Sessions, gravado no Dharma Studios de Rodrigo Oliveira, proporcionou uma janela privilegiada para a música brasileira emergente. A Naimaculada reafirma que a diversidade não é obstáculo, mas combustível para a criação autêntica, mantendo viva a tradição paulistana de reinvenção cultural através de gerações que se renovam sem perder suas raízes criativas.