O blues enigmático e progressivo de Hedvig Mollestad

A guitarrista norueguesa Hedvig Mollestad tem mais de 20 anos de carreira no circuito europeu e ainda não se decidiu se faz jazz ou rock. Melhor para todos nós, que ficamos com o melhor dos dois mundos.

“Bitches Blues” é o seu mais novo disco e ela soa ainda mãos genial na guitarra, explorando timbres inusitados e sem medo de cair no rock pesado e no jazz ao mês tempo. Seus fraseados passeiam por influências que vão de Jimi Hendrix a John McLaughlin, de Jeff Beck a John Scofield, de Wes Montgomery a Jose Pass, de Jennifer Batten a Joan Jett.

O som é criativo, engenhoso, estranho e contagiante. Mollestad e seu trio continuam sendo uma das coisas mais intrigantes e bacabas do nosso tempo.

Blues? Talvez, em termos atmosféricos. Mas não no sentido de blues-rock de 12 compassos ou blues do Delta. Ou na maioria dos outros sentidos. O título do álbum é um jogo de palavras com o LP “Bitches Brew, de Miles Davis, do final dos anos 60, que, naquele momento, foi sua referência mais explícita à dinâmica da música rock.

No entanto, “Bitches Blues” não usa obviamente o álbum de 1969 como ponto de partida. Mas a referência estabelece o primeiro álbum de estúdio do Hedvig Mollestad Weejuns – esta última palavra uma gíria que faz referência à identidade norueguesa do trio – como não conformista, forjando sua própria identidade musical; ainda que apenas dentro dos limites das margens do jazz.

Hedvig Mollestad Weejuns é o projeto da guitarrista Hedvig Mollestad Thomassen, cuja outra banda, Hedvig Mollestad Trio, distorce as fronteiras entre o jazz e o hard rock, com o organista e sintetizador Ståle Storløkken, conhecido por trabalhos com Elephant9, Supersilent e Motorpsycho, e o baterista Ole Mofjell, que já tocou com Amoeba, Krokofant e seu próprio trio de free jazz, 3 Days Of Maceration. Hedvig Mollestad Weejuns surgiu pela primeira vez no Kongsberg Jazz Festival. Um álbum duplo ao vivo foi lançado em seguida. Agora, este trio gravou em estúdio. O álbum instrumental Bitches Blues apresenta seis faixas.

Em seus momentos mais pacíficos, em “For a Moment I Thought I Could Hear You” e “Limite”, a guitarra de Mollestad Thomassen é delicada, os teclados de Storløkken são leves, evocando o sueco Bo Hansson, e Mofjell é uma presença discreta e ondulante. Embora claramente jazzístico, esse aspecto do álbum poderia – curiosamente – ser interpretado como uma forma de prog sueco.

Em seus momentos mais tempestuosos e explosivos, na impactante faixa de abertura que dá título ao álbum e na, bem, dinâmica “Dynamax”, o álbum se concentra na interação entre cada músico. Aqui, parece que Bitches Blues busca complementar o trabalho de cada um, impulsionando-os a novas e impactantes alturas.

O álbum termina com a lírica “Recollection of Sorrow”, quase oito minutos de sinuosidade e espacialidade – não muito distante dos exploradores espaciais suecos do final dos anos 60 e início dos 70, Älgarnas Trädgård. —

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