Faz tempo que celebramos a longevidade dos astros máximos do rock, como os octogenários, coo Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, mas devemos também louvar os mestres do blues que estão na ativa, entre eles o guitarrista Buddy Guy e o gaitista e cantor Charlie Musselwhite.
O gaitista, um dos gigantes do blues ainda vivo, reaparece em um disco maravilhoso, “Blues Now’”, da banda americana GA-20Im dos nomes m ascensão no blues atual, o trio comete um álbum delicioso de se ouvir, encharcado de tradicionalismo e de timbres “vintage”, como se os músicos estivessem em uma bodega de Chicago ou em um estúdio de Memphis ou Nashville.
Aos 82 anos, Musselwhite é frequentemente considerado o maior gaitista branco e legítimo representante do blues de Chicago. Também é discípulo de James Cotton e Little Walter, od gigantes da gaita de todos os tempos – ambos colaboraram com nomes como Muddy Waters.
Matthew Stubbs, guitarrista e cofundador do GA-20, ainda levaria duas décadas para nascer quando Charlie Musselwhite lançou seu álbum de estreia em 1968, “Stand Back”.
No entanto, o jovem Stubbs juntou-se à banda do cantor, compositor e mestre da gaita em 2008, viajando pelo mundo durante uma década. Ele então gravou dois discos com seu grupo Antiguas antes de formar o GA-20 em 2017, lançando o primeiro single da banda dois anos depois.
Assim, não é de surpreender que, após o sucesso do grupo no terreno do blues cru ao estilo de Chicago — trilhado anteriormente por seu antigo patrão —, ele tenha se reconectado com seu mentor e veterano consagrado, Musselwhite, para o álbum “Blues Now”.
Aos 82 anos, o ícone veterano permanece não apenas ativo, mas produtivo, tendo lançado recentemente o excelente “Look Out Highway”, em algum momento por volta de seu 40º álbum em uma carreira que já ultrapassa seis décadas.
No início de 2025, Stubbs e Musselwhite se reuniram novamente, reservando seis dias de estúdio. A ideia era aplicar a instrumentação crua e direta do GA-20 — duas guitarras e bateria, praticamente sem baixo — na tentativa de recapturar a magia de *Stand Back*, o álbum impactante que deu início à carreira do gaitista.
Eles fizeram uma busca profunda por dez versões de músicas, a maioria pouco conhecida — duas das quais Musselwhite já havia incluído naquele disco inicial —, gravando-as rapidamente com poucas ou nenhuma sobreposição de instrumentos (overdubs).
O resultado empolgante é uma coleção curta (pouco mais de meia hora), porém poderosa, que replica de forma eficaz e eficiente as qualidades mais marcantes de ambos os artistas em canções que soam frescas, rústicas e vibrantes.
Musselwhite e o vocalista do GA-20, Cody Nilsen, alternam os vocais, equilibrando o timbre mais suave deste último com a aspereza tradicional do primeiro.
Duas faixas instrumentais também mostram o grupo criando uma energia quase tão intensa quanto qualquer coisa que tenham feito separadamente.
Quando tudo se encaixa perfeitamente — como na faixa de atmosfera pantanosa “Stroll Out West”, de Eddie Taylor, com a gaita rústica de Charlie sendo impulsionada pelos vocais “a-HOO HOO” de Stubbs —, o grupo incendeia a música com força total.
Na levada vibrante de “The Blues Never Die”, de Otis Spann, Musselwhite recorre às suas raízes do Mississippi para soltar um lamento com uma autenticidade que ninguém mais consegue reproduzir.
A parceria explode na letra sensual de “I Can’t Hold Out”, de Elmore James; Charlie exclama “Talk trash to me baby… lay it on me baby” enquanto a banda mergulha em um *shuffle* cheio de ginga, com Stubbs emulando as frases de *slide* que eram a marca registrada de James.
É natural que Musselwhite recorresse a uma composição de Muddy Waters, já que Muddy seguiu uma trajetória de carreira semelhante, saindo do Sul profundo rumo a Chicago. O lendário músico de blues é homenageado com a ressurreição de uma de suas faixas menos óbvias, porém contagiantes: “Short Dress Woman”.
A versão é abrasadora, com Musselwhite soltando a voz com tanta potência quanto quando gravou seu primeiro álbum. Selvagem e arrebatadora.