Pânico na cidade. Prestes a subir ao palco, o guerreiro cai e passa mal, surpreendido por um mal súbito. Socorrido imediatamente e padecendo dde um problema cardíaco grave, [e salvo por uma dedicada equipe da Sant casa de Campo Grande (MS), em tratamento conduzido pelo mais do que necessário SUS (Sistema Único de Saúde). A capital do Mato Grosso do Sul teria de esperar mais um pouco para rever a Plebe Rude.
Clemente Nascimento sobreviveu de novo, desta vez a um grave problema cardíaco. É um especialista em sobrevivência e já está de volta aos palcos com Os Inocentes e com a Plebe Rude.
Sobrevive desde cedo como criança negra e pobre da periferia, e também como voz afiada, corrosiva e contundente do punk paulista – infelizmente, voz acostumada a ser perseguida pela sociedade e pelos órgãos de repressão.
São 45 anos de militância musical e politica em um país que insiste em destratar seu povo e manobrar a democracia em favor dos mais ricos. Com o avanço da tecnologia, alarga o fosso social em todo o mundo, reforçando o poder dos oligarcas de sempre – como é bom saber que o sorriso farto e fácil de Clemente profere sentenças arrasadora e simples.
O guitarrista e vocalista dos Inocentes e da Plebe Rude é o convidado especial daedição de número 700 do programa de wweb rádio Combate Rádio, que vai ao ar na rádio Antena Zero às sextas-feiras, à meia-noite, e aos domingos à tarde. São 700 programas desde 2010 com muita música boa, informações relevantes e discussões abrasadoras sobre quase tudo.
“Vivemos tempos difíceis e estranhos e resistir é fundamental”, afirma Clemente com seu habitual bom humor. “Nunca foi fácil ser punk e fazer música alternativa, e atualmente o quadro é o mesmo. A metra sempre é furar a bolha e ultrapassar o underground, por mais que as coisas hoje pareçam mais difíceis.”
Um pouco saudosista, relembra quando as bandas punks surgiam ameaçadoras e com discurso virulento, mesmo contratadas por grandes gravadoras. “Tínhamos contratos e ainda assim falávamos com força e e éramos escutados. Saíamos em capas de revistas, de jornais e piamos nas rádios. Hoje a coisa pulverizou muito, os donos do poder mantém seus impérios e os artistas precisam se virar sozinhos para sobreviver.”
Diante disso, como capturar a atenção de uma audiência ansiosa, jovem e desfocada , que não tem interesse em informação de qualidade e mal conhece o trabalho e a mensagem do artista que diz idolatrar?
“Possivelmente e o maior desafio dos artistas hoje em dia, mesmo os mais veteranos, como eu”, explica o guitarrista. “Há bandas grandes do rock nacional que têm enorme capital artístico, ainda que sofram um pouco com isso. Artistas pequenos e médios lutam contra um sistema que ainda é perverso e que acentua o desinteresse pelo conhecimento e pela cultura. É um obstáculo a mais para as bandas de hoje.”
Como produtor de conteúdo, Clemente se tornou um arguto observador do mercado musical, o que o levou a aceitar produzir o álbum de estreia da banda punk paulista Punho de Mahin com ótimos resultados artísticos.
“A experiência foi muito legal, é bom ver o punk vivo em uma banda negra e de periferia dizendo as suas verdades e com discurso potente. Acho que dei a minha contribuição e eles estão voando.”, comenta Clemente.
Como ativista cultual e político, ajudou a criar e assumiu a presidência da ABMI (Associação Brasileira de Músicos Independentes) para fomentar uma cena adormecida e fornecer ferramentas e informações institucionais para que o mundo underground consiga concorrer e participar de editais públicos e receber verbas de governos estaduais e municipais.
“Artistas independentes têm poucas informações sobre esses trâmites e pouca penetração em poderes públicos. A Prefeitura de São Paulo vetou um projeto de fomento ao rock na cidade com explicações insatisfatória, ao mesmo tempo em que destinou verba pública em cachês para bandas desconhecidas que estão sendo questionadas por causa de shows que ninguém soube. Em 26 de agosto teremos uma audiência pública na Câmara Municipal para discutir o assunto”, finaliza o músico.