Rock de esquerda e de direita: ditaduras nãoi respeitam ideologia artística

Cena de animação do filme 'The Wall', do Pink Floyd, representando a marcha de tropas fascistas (Imagem: reprodução de filme/YouTube)

Com o início oficial da campana eleitoral geral para as eleições de 2026, ressurge uma discussão obsoleta sobre o rock ser de direita ou de esquerda, algo que hoje perde sentido a cada dia. Por definição, origem e postura, o rock sempre foi rebelde, contestador e de oposição, mas com orientação geralmente de esquerda. E s for de direita? E daí? Desde que não penda a para o fascismo…

Renan Santos, um misto dse empresário e influenciador, é um dos membros mais proeminentes do MBL (Movimento Brsil Livre), uma gremiação de extrema-direita que está cada vez mais radical, É o presidente do grupo e candidato a presidente da República pelo Missão, partido novíssimo criado por sua trupe.

Não bastasse isso, ainda é vocalista e guitarrista de uma banda de rock chamada Limão Rosa, de pop rock, bastante fraquinha e que se beneficia do engajamento dos membros do próprio MBL. É uma banda de direita, que professa ideologia corrosiva e perigosa, para não dizer nojenta.

Seguidores de Santos nas redes sociais resolveram resgatar informações antigas sobre a perseguição que regimes totalitários comunistas do Leste Europeu e China empreenderam contra artistas em geral durante mais de 50 anos no século passado.

Até hoje o rock praticamente não existe na China, que segue sendo uma ditadura comunista asquerosa, o que anula os benefícios de qualquer progresso econômico.

O que os mentirosos e canalhas da extrema-direita escondem é que a perseguição indiscriminada contra artistas nas ditaduras comunistas do século passado não tinha ideologia – combatia toda espécie de oposição, à esquerda, à direita e grupos religiosos. Quem bradasse por liberdade, qualquer uma, era preso, processado, condenado e banido.

Ou seja, o mesmo tipo de regime político que os extremistas de direita golpistas, vinculados ao bolsonarismo, querem ver no Brasil, a julgar pela tentativa de golpe de Estado empreendida entre o final de 2022 e o começo de m2023. É esse lixo de gente que quer impor sua ideologia podre e restringir/acabar com a liberdade no Brasil.

 É esse lixo de gente que continua emporcalhando o mundo e espalhando mentiras notícias falsas.

Nova ordem

Qualquer ditadura tem de ser destroçada. Os nazistas alemães perseguiram todos os artistas, até mesmo os que abraçaram com gosto o nazismo assassino e genocida. Um doss maiores inimigos do era o jazz americano, considerado nocivo e degenerado.

As práticas totalitárias fascistas e nazistas foram incorporadas por ditaduras mundo afora após a II Guerra Mundial. Assim como os alemães paranoicos, os comunistas sociéticos e do Leste Europeu empreenderam todos os esforços para controlar narrativas políticas e culturais, tudo sempre alinhado com o regime de plantão – e nada diferente do que os regimes totalitários fascistas e nazistas faziam.

O medo da cultura hegemônica ocidental era imenso e os esforços para criar uma “cultura nacional edificante” envolviam gastos grandes, geralmente sem muito resultado prático a não ser perseguição política, violência e prisão.

Sem liberdade, a arte virou uma atividade clandestina sujeita a punições severas. Mesmo quem aderia ao discurso oficial vivia com medo  e estava sujeito à violência estatal nos países comunistas.

Literatura e teatro eram os alvos mais frequentes, embora cinema mais fácil de controlar, e música fossem acompanhados com punhos de aço.

A disseminação do rock ocorria pelo contrabando de LPs e, eventualmente, pela sintonização de emissoras de rádio de ondas curta da Inglaterra e da Alemanha. Ao contrário do que prega o romantismo esquerdista, as bandas de rock eram poucas e irrelevantes, contribuindo com nada para a corrosão dos regimes autoritários comunistas que desabaram a a partir de 1989.

Os governos comunistas perceberam que a fiscalização e policiamento de músicos era mais eficiente e que as vítimas se intimidavam com facilidade. Os shows clandestinos eram raros nos anos 70, com alguma ousadia a mais na década seguinte, mas com muito receio da prisão.

Se observarmos em detalhes, o rock só existiu mesmo com alguma paz e certo espaço na Hungria a partir de 1965. Ninguém sabe ao certo aos motivos, mas os governos húngaros ficaram mais tolerantes à música ocidental depois que revolução de 1956 foi esmagada em1856.

Os maiores representamtes do rock húngaro são a bandas Omega e Solaris. O Omega teve como figura central o guitarrista e vocalista János K[obor (1943-2021), um músico talentoso também na arte de se relacionar politicamente com autoridades – só isso explica os estádios lotados pela banda nos anos 70 e 80 para tocar o seu hard rock com toques de pop comercial.

O Solaris é uma das bandas de rock progressivo mais importantes do Leste Europeu, com nítidas influências da música britânica e ta,bém de alemã. Por meio da fronteira com a Áustria e com a antiga Checoslováquia – o contrabando de LPs e fitas cassete era intenso.

A repressão foi muito maior na Polônia, onde os músicos eram incessantemente perseguidos. Curiosamente, o contrabando lá er mais intenso com origem na Suécia e Dinamarca, além da Finlândia, o que explica a proliferação de bandas de heavy metal e rock progressivo a partir de 1990, com o fim do comunismo.

República Checa, Eslováquia, Bulgária e Romênia só viram o crescimento do rock a partir dos anos 90. Na antiga Iugoslávia, as intensas trocas nas fronteiras com Áustria e Itália criaram uma cena de rock e de blues forte nos anos 70, especialmente na Croácia.

Havia mais tolerância com a música ocidental na Iugoslávia depois da morte do ditador Josip Broz Tito, em 1980.

A presidência do país passou a ser rotativa, por dois anos, no revezamento entre as seis repúblicas do país, o que gerou intensa disputa política – que desembocou nas guerras de separação entre 1991 e 1996.

Quem se beneficiou mais dessa tolerância foi a banda Laibach, que mistura música eletrônica e rock industrial. Com mais de40 anos de trajetória, fez várias turnês na época pela Alemanha, Suíça, Áustria e França.  É uma das mais criativa e importantes bandas do Leste Europeu desde sempre.

Na União Soviética, a repressão ao rock era fortíssima, mas bandas de hard rock como Autograph e Gorki Park escaparam da ferocidade do governo e até conquistaram um público fiel. A partir de 1987, o governo de Mikhail Gorbachev permitiu a realização de festivais imensos com bandas ocidentais. .

As histórias mais saborosas, no entanto, ocorreram na antiga Alemanha Oriental, a ditadura mais brutal da Cortina de Ferro e o mais policial e vigiado mundo. Foi o local onde a população comprou o totalitarismo e passou a ajudar a Stasi, a polícia política. Irmão vigiava e denunciava irmão, pai denunciava filho, vizinho bisbilhotava vizinho. Era difícil respirar e escapar a essa vigilância. O

Segundo reportagem do jornal alemão Deutsche Welle, o rock amplamente perseguido e reprimido pouco contribuiu para a derrocada do comunismo na Alemanha Oriental, mas a sua resistência se tornou exemplar e inspirou muitos grupos de artistas e admiradores de arte no Leste Europeu.

Foi na Alemanha Oriental que ocorreu uma união improvável entre religião e músicos punks. Mesmo rigorosamente controladas, as igrejas cristãs – católicas, evangélicas, luteranas e ortodoxas – eram toleradas, desde que seguindo as regras impostas pelo gobermo.

Eram nas igrejas que festivais punks amadores ocorriam, seja como forma de protesto, seja como mera diversão.

 Os alemães ocidentais do Die Toteh Hohsen, punks com mais de 45 anos de atuação, atravessaram várias vezes a fronteira para tocar em igrejas de Berlim Oriental, Leipzig, Dresden e Magdebourg. É difícil imaginar padres dançando música punk como form,a de afronta ao regime.

Mesmo na clandestinidade, era importante resistir e mostrar que ouvir música ocidental degenerada era uma forma de exigir liberdade em todos os sentidos. Discos e instrumentos eram confiscados e destruídos, mas o contrabando nunca foi vencido.

Se observarmos pelo ponto de vista da coragem, resistir era a melhor e única forma de combater um regime totalitário repressor e assassino. Exatamente como na década de 30, quando os garotos universitários alemães que frequentavam clubes de jazz – transgressão punida com prisão em campo de concentração e morte (assista a filme “Os Últimos Rebeldes”, com Robert Sean Leonard e Christian Bale).

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