Mulheres que gritam: intimidações aumentam, mas a resistência se tornou um patrimônio inestimável

Fernanda Lira (Foto: Napalm Records/divulgação(

A cassa estava quase vazia naquele doimingo à tarde ensolarado e quente na cidade de São Bernardo do Campo (ABC Paulista). Era um minifestival de metal em uma danceteria improvável, com a presença da banda Necromancia e de outras da região, com fechamento do então trio em ascensão Nervosa.

Havia apenas duas mulheres na plateia, elas não se interessaram pelo show. Os integrantes das bandas que tocaram antes esperaram um pouco e zombaram do fato de três menininh0as bonitinhas dizerem que fariam m metal extremo do demônio. Sobraram termos e palavras chulas e uma série de impropérios contra as garotas.

Elas começaram a tocar e o som devastador tomou conta do ambiente, intimidando e impressionando a rapaziada. Parecendo intimidados, todos os integrantes das bandas anteriores foram embora ao mesmo tempo, em uma demonstração de desrespeito, mas também admitindo que as “menininhas” tinham vencido.0

Faz dez anos que esse show histórico da Nervosa, ainda com sua formação clássica – Prika Amaral (guitarra), Fernanda Lira (baixo e vocais) e Luana Dametto (bateria) ajudou a pavimentar o caminho para a Nervosa subir de patamar.

A Nervosa se tornou uma banda internacional, respeitadíssima no mundo todo, e o mesmo pode-se dizer de Crypta, criada por Fernanda e Luana, que tem o mesmo prestigio no Brasil e no exterior.

Só que, dez anos depois, o que mudou para pior foi a misoginia e o machismo tóxico que perseguem as mulheres que ousam falar, gritar e se posicionar em um mundo retrógrado, ultraconservador e violento. As mulheres do rock e do metal fritam, mas as intimidações, agressões e ódio só aumentam.

Fernanda Lira falou ao site Tenho Mais Discos do que Amigos sobre a atual fase da carreira e da Crypta, e abordou a questão do ódio do qual é vítima nas redes sociais por ser uma mulher independente, de esquerda, engajada, ativista e musicista fazendo metal extremo – e com bastante sucesso.

“É a parte difícil de ser uma figura pública com certa proeminência”, disse a baixista. “Os amigos ea família sofrem muito por não saberem ao certo motivo de tanto ódio, mas eu sempre soube desistir ou não tentar n]ao era uma opção. Eu sou assim e não conseguiria ser de outro jeito.”

Em um momento em que os números de feminicídio e violência doméstica contra a mulher só aumentam, assim como os de estupros, é desesperador saber que uma das artistas mais importantes do rock no Brasil sofre tamanha perseguição a ponto de abalar a sua saúde mental.

Não é um comportamento exclusivo de brasileiros ou contra aristas brasileiras, mas parece que aqui as coisas estão tomando proporções absurdas – dá para suspeitar de campanhas sendo organizadas deliberadamente, funcionando como se fosse ação de crime organizado.

A banda Eskröta, liderada pela guitarrista e vocalista Yasmin Amaral, enfrenta problemas do mesmo tipo há pelo menos tanto tempo quanto a Cryt e a Nervosa.

Não só se engaja no combate à violência contra a mulher mas também atua na defesa do mundo LGBTQIA+. Alvo constante de ódio e ameaças, a banda sabe que não pode esmorecer.

Sem querer provocar, Yasmin sabe que sua voz ecoa longe e com força, ganhando um significado crucial para muita gente. “O silêncio pode ser mortal e não vamos nos calar. A arte incomoda e e sua mensagem penetra fundo nas metes. Assusta e dá poder”, comentou ela em entrevista ao Combate Rock anos atrás.

O ódio se tornou um poderoso motor de mobilização nesta terceira década de século XXI. Movimenta redes, agita grupos que transforma a intimidação em força importante  de engajamento, por mais que demonstre também fragilidade dos inimigos amedrontados com a “modernidade” do mundo.

Fernanda Lira e Yasmin Amaral são alguns dos rostos e nomes que simbolizam as mudanças que causam pavor nos homens conservadores que acham que estão “perdendo o poder” (que poder?).

A idiotice travestida de conservadorismo é só mais um sintoma do emburrecimento geral de todas as sociedades, em uma era em que a ignorância passou a ser valorizada em detrimento do conhecimento e da educação. Hoje é bonito ser ignorante, como fazem, questão de vomitar apoiadores do nefasto ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) hoje preso por tentativa de golpe de Estado. Admiradores de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, também dizem se orgulhar de serem ignorantes.

A mira constante voltada para a mulheres, supostamente um elo fraco da cadeia de relacionamentos desde sempre, dá uma ilusão aos homens ultraconservadores de pensamento medieval de que é possível retroceder aos anos 50. Essa gente têm a ilusão de que ainda é possível calar as pessoas pela violência.

As mulheres que gritam também choram, de raiva, de dor e de desespero, mas permanecem gritando e enfiando os dedos nas caras e chutando canelas. Como desistir nunca foi uma opção,  a guerra parece que será perpétua, mas as chance de vitória é imensa. A superioridade moral nunca foi tão evidente e decisiva contra essa gente conservadora nojenta.

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