Os excessos cobraram a saúde física e os personagens, a metal. A única saída era o exílio, onde pudesse se curar e onde pudesse passar despercebido e incógnito para se reconectar com mundo e consigo mesmo. Mas isso seria possível ao lado do tenso Muro de Berlim, símbolo máximo da polarização ideológica?
Para David Bowie, a então antiga capital alemã era a salvação. Em busca do anonimato, passou dois anos experimentando, testando e expandindo horizontes em uma fase de extrema criatividade. E era só mais uma virada na carreira de um artista que nunca se conformou com qualquer tipo de acomodação.
Os dois anos morando em Berlim Ocidental rederam três álbuns muito importantes e a participação efetiva no lançamento de “The Idiot”, de Iggy Pop, com quem dividiu um apartamento na cidade. Explorou até onde pôde o estúdio Hansa, coladinho no Muro de Berlim.
Na verdade, o exílio não sew tratou de um confinamento voluntário ou internação em monastério. Bowie diminuiu op consumo de drogas, mas aproveitou tudo o que a fervilhante noite berlinense podia oferecer, principalmente a chance de conhecer artistas novos e mergulhar de cabeça na cena eletrônica alemã, tão famosa na Europa à época.
Com a ajuda dos amigos Brian Eno (ex-Roxy Music) e Tony Visconti (célebre produtor americano) gravou os celebrados álbuns “Low” (1977), “Heroes (1977) e “Lodger” (1079), discos totalmente influenciados pelo ambiente berlinense. São discos densos, intensos, hipnóticos, experimentais e com ambientação quase claustrofóbica.

A mdança de ares, 50 anos atrás, revigorou o artista e revitalizou a sua carreira, que parecia empacada depois dos álbuns “Diamond Dogs” e “Young Americans”, ambos de 1975, que seriam o epílogo de sua fase americana. Parecia que sua ascensão batia no teto, encerrando uma sequência que começara com o extraordinário álbum “Ziggy Stardust and Spidrs Fropm Mars”, de 1972.
Assumindo a persona de Ziggy, um extraterrestre que vem à Terra e mergulha na barbárie comportamental, Bowie se jogou em uma realidade paralela que lhe cobrou um preço bem alto.
Na mudança para a Califórnia, nos Estados Unidos, “matou” Ziggy” e criou outro alter ego, Thin White Duke, um hedonista sofisticado e inteligente e manipulador. Era a fase de maior sucesso, mas também de mergulho nas drogas e no álcool.
Há reflexos dessa fase desgovernada nos álbuns “Alladin Sne”, “Pin Ups”, “Diamond Dogs” e Young Americans”. Ele tinha de fugir, mas para onde? Amigos sugeiram a Suíça, mas ele não queriasil^ncio. Pensou em Amsterdam, a Holanda, mas a cidade oferecia “distrações” demais para quem queria estancar os excessos de odos os tipos.
Berlim Ocidental surgiu quase que acidentalmente quando alguém mostrou disco de Kraftwerk, Neu” e Can a Bowie. O estalo veio na hora e os preparativos foram feitos d forma imediata. Em meados de 1978, ele já estava instalado na Hauptstrasse, 155, a poucos mínios do estúdio Hansa e do muro da vergonha.
“Low” é um álbum de descobertas e experimentações, de digestão não muito fácil, mas apontou caminhos interessantes para o futuro do cantor. “Heroes” retoma a verve pop, com canções sofisticadas e temas mais pesados. “Lodger” é um trabalho de transição, que reafirma David Bowie como compositor inovador e inquieto.
Na sequência, em 1980, já de volta à ponte aérea Londres-Los Angeles, e Lançaria “Scary Monsters”, uma prévia d fase ultrapop sintetizada dos ano 80.
A passagem marcante do cantor pela cidade envolve a inspiração para a canção “Heroes”, uma das mais emblemáticas do rock. Uma das janelas do estúdio Gansa dava para uma das faces do Muro de Berlim, a poucos metros. Por uma emana ele observava, no mesmo horário, um jovem casal se encontrar escondido, no lado oriental, de baixo de uma marquise, para cinco minutos de flerte, que terminava com um beiro rápido e furtivo antes de terem de sair às pressas para não serem flagrados pela polícia da Alemanha Oriental, um estado policial qu vigiava todo e todos.
Low (1977).
Experimental e fruto de uma meticulosa exploração de estúdio, apresenta David Bpwie como um músico inteligente e corajoso. O o lado A é formado por canções pequenas e fragmentadas com influências que precediam o electro, o punk rock e a new wave, enquanto o lado B é composto apenas por longas faixas instrumentais – e é neste lado que o dedo mágico de Eno pesa mais forte.
Os vocais de Bowie ainda sentem os abusos cometidos por ele em seu até então recente vício em cocaína, e soam como gelo seco – o que não deixa ofuscar o brilho de canções como “Always Crashing in the Same Car” e “Be My Wife”, dois grandes petardos de sua carreira. “Sound + Vision” e “Breaking Glass” também são pontos altos..
Heroes (1977)
O segundo álbum da trilogia é o que mais tem a cara da cidade, dividida em dois por um opressivo muro. Faixas como “Joe the Lion”, “Beauty and the Beast” e “The Secret Life of Arabia” são, no mínimo, pontos altos de sua carreira.
É mais pop e eclético, embora tenha sido eclipsado pela faixa-título, que ganhou versões de artistas tão díspares como Motorhead, King Crimson, Wallflowers e, agora, de Hollywood Vampires com vocais do ator de cinema Johnny Depp.
O álbum possui algumas faixas instrumentais como “Sense of Doubt” e “Neuköln”, ambas com um clima mais introspectivo e de guerra-fria, mas o restante do álbum projeta uma atitude muito mais positivista e esperançosa do que Low.
Lodger (1979)
O último álbum da trilogia foi gravado parte na Suíça, parte em Nova York e tem uma sonoridade mais acessível dos que os outros dois, sem grandes viagens instrumentais e com uma veia pop bem mais carregada – ainda que sem perder o experimentalismo. Na época foi recebido friamente pela crítica e fez menos sucesso que Low (1977) e “Heroes” (1977), e hoje em dia é considerado um dos álbuns mais injustiçados do músico