A cultura dos ‘fliperamas’ que faz falta na cena rock da atualidade

Capa da coletânea 'The Story of The Who', de 1976, demonstrando a importância que a máquina de pinball teve para a banda e, por tabela, no mundo do rock

Um menino cego, surdo e mudo devido a um trauma fortíssimo, mas que consegue se tornar campeã mundial de fliperama/pinball, uma das modalidades mais populares de jogos eletrônicos nos anos 60 e 70 do século passado. Esse é o argumento de Tommy”, álbum duplo de The Who lançado em 1969 e celebrado até hoje como uma das obras de rock mais importantes de todos os tempos e a primeira de todas as óperas-rock.

É inexplicável como pouca gente valoriza a importância dos aparelhos e máquinas eletrônicas de jogos na relação com a música pop e com o rock.

Se neste século isso paree uma coisa natural pela profusão de músicas de games online m consoles e celulares, também era 50 anos atrás, embora, obviamente, a relação fosse diferente por causa da tecnologia. E os games arcaicos e antigos ganham a devida homenagem ao se tornarem peça central de um álbum d rock conceitual. o que mostra como esses equipamentos ganharam relevância no cotidiano de jovens de pelo menos duas gerações.

As máquinas eletrônicas de jogos e diversão surgiram quase ao mesmo tempo que o rock nos anos 50 nos estados Unidos. Viraram uma febre entre os jovens e nunca deixaram de atrair aficionados desde então, seja qual for a tecnologia ou a modalidade.

As primeiras máquinas eram as de bolinhas impulsionadas, as clássicas chamadas de pinball nos /Estados Unidos e fliperama, no Brasil. Ganharam as ruas de Londres, na Inglaterra, e viraram redutos de roqueiros, alternativos e rebeldes. Ficavam, disponíveis em lojas e recintos especializados, que poderiam ou não vender bebidas – e, é claro, quase sempre havia oferta de drogas.

As primeiras opções em vídeo vieram nos anos 80, o qu ajudou na eternização das máquinas de fliper/bolinhas entre os aficionados. Os brasileiros começaram a desfrutar massivamente dos fliperamas nos anos 70, mas ainda sem uma associação direta com o rock e a cultura das ruas. Foi somente na década seguinte que o rock pesado virou a rilha sonora dos frequentadores dos “locais de fliperama” nos centos das cidades, principalmente em São Pulo e no Rio de Janeiro.

As casas de diversões eletr^pnicas viraram centros underground de contracultura em São Paulo e, curiosamente, sm muita atenção do aparelho de repressão policial do fim d ditadura, então muito mais preocupada com o jgo do bicho e outras contravenções nas duas maiores cidades brasileiras.

O fliperama, de certa forma, era uma forma de contravenção, mas estranhamente tolerado e quase nunca fiscalizado. Ea um paraíso para quem fugia d escola e passava horas se viciando e se tornando um “Tommy” nas regiões centrais das cidades. Havia oferta fara de cigarros e bebida alcoólica para menores – quase sempre cerveja e cigarros varatos e falsificados.

Máquina de fliperama do Aerosmith (Foto: reprodução/Stern Pinball)

Apesar disso tudo, er menos perigosos do que se imaginava na época. Muita gente formou o caráter rock and roll nestes ambientes, ouvindo rock nas caixas e nas trilhas sonoras das máquinas, que começaram a inserir clássicos do metal nos sons – trechos instrumentais, e depois cantados, de músicas do Judas Priest foram os primeiros a embalar as competições de fliperama.

Parte indissociável da cultura rock no Brasil, os fliperamas foram s sofisticando e ganhando espaços nos shopping centers, ao mesmo tempo em que a decadência das regiões centrais de capitais e grandes cidades n entro foram tomadas pelo tráfico de drogas e violência, afastando o público – mais um aspecto devastador d degradação das regiões centrais.

A disseminação de brinquedos e equipamentos portáteis, como as primeiras versões de Atarim, Odissey e Playstation também contribuíram para a decadência dos amados fliperamas, mas não foi preponderante para a vertiginosa decadência.

Alguns estabelecimentos de rua resistiram nos anos 90, mas já dissociados do rock e de uma suposta cultura underground. Eram somente atrativos para uma série de atividades ilícitas que ultrapassavam, e muito, os limites tolerávei de qualquer tipo de contravenção mais leve,

As máquinas de diversão eletrônica não morreram e ganharam novo status. Tornaram-se equipamentos sofisticados de decoração em ambientes de nicho, como eventos e bares temáticos. As versões atuais de pinball são bastante sofisticadas e digitais, sim como as de vídeo ganham versões de simuladores de competições de automobilismo ou simulação e voo, muito presentes em shopping centers.

Nessa reviravolta, muitos artistas aceitaram licenciar seus nomes para empresas utilizarem nas máquinas digitais de pinball em bares temáticos e grandes festiva de músicas. Hoje, em São Paulo, é fácil encontrar bares com máquinas ostentando o nome e as músca de Kiss, Aerosmith e Metallica.

É reconfortante ver que, mesmo no século XXI, a cultura quase underground do fliperama sobrevive associada, inda que marginalmente, ao rock.

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