A maior força da natureza do rock era um “outsider” por excelência e não poderia ter vida longa, pois isso contrariava a própria essência daquele irlandês negro e completamente fascinado por quebrar regras e limites.
Ele cumpriu o seu papel e seguiu a sina predestinada e desapareceu cedo do mundo nem tão encantado do rock, em 4 de janeiro de 1996; Phil Lynott saía de cena há 40 anos com um rebelde dos mais apaixonados pela música que se tem notícia.
Philip Parris Lynott, o herói máximo do rock irlandês, costuma ser lembrado pelos problemas que causaram a sua morte em 4 de janeiro de 198 d, aos 36 anos, em decorrência de falência múltipla de órgãos por conta do abuso mastodôntico de drogas e álcool.
Ninguém ousa contestar, mas Lynott er um símbolo cultural da Irlanda, e isso muda qualquer abordagem que se queira fazer sobre o baixista e cantor do Thin Lizzy.
Para os amigos mais chegados e muitos fãs0, ele era o mais selvagem da fase mais moderna do rock. A seu modo, impôs ao hard rock setentista um peso autêntico e um suingue invejável com a sua banda, a maravilhosa Thin Lizzy, uma usina de riffs e melodias cativantes que a transformaram em um dos gigantes daquela década.
Selvagem sim, mas insano? Só nos abusos fora do palco. No fervilhante cérebro incansável, formulou o tal rock pesado e agressivo, mas cheio de maleabilidade, o que hoje se convencionou a chamar de “groove”.
A importância de Lynott, para a múica irlandesa é tanta que os compatriotas relevaram o fato de ele ter nascido em Birmingham,na Inglaterra. Virou estátua em sua amada Dublin e muitos consideram sua data de nascimento como um quase feriado.
O baixista do Thin Lizzy sempre foi vítima de preconceito desde o nascimento. Sua mãe, a venerável Philomena “Phillys” Lynott,, trabalhava no comércio e fazia bicos em Birmingham quando engravidou, muito jovem, naquele traumático pós-guerra.
Sem saída e com medo do desprezo familiar – e já bem longe do pai do bebê, que desapareceu assim que soube da “novidade” -, optou por dar a luz na Inglaterra e tentar a sorte na metrópole industrial.
A falta de grana e de amparo a obrigou a retornar a Dublin e enfrentar a conservadora e preconceituosa sociedade irlandesa e sua família pouco amigável, naquele ano de 1949.
Lynott reuniu em si uma série de “qualidades” que serviam de preconceitos: filho de mãe solteira, sem ideia de quem era o pai (nem Phillys sabia direito o nome do namorado, que ora seria um negro venezuelano, ora um negro brasileiro, mas imigrante ilegal), mestiço, mas com traços negros pronunciados. Ainda por cima, era irlandês, para desgosto dos arrogantes ingleses e os fanfarrões franceses.
Talentoso, esperto e muito malandro, toureou as dificuldades da infância e da adolescência até decidir que seria um artista. Com uma guitarra nas mãos, a partir dos 15 anos passou por vários combos em Dublin e na não tão distante Belfast, na Irlanda do Norte.
Com amigos como Gary Moore, Brush Shiels e a veneração por Rory Gallagher, que hoje rivaliza com o baixista como o herói máximo do rock local, Phil Lynott logo chama a atenção para compor, tocar e cantar.
Cansado de aturar as chatices das bandas que integrou, meteu as caras e criou o Thin Lizzy, banda seminal que surgiu em 1970 como uma usina de energia prestes a explodir e transformar o hard rock durão do final dos anos 60 em pura arte.
Quem escuta hoje o nome Thin Lizzy, com sua potência e sua história fabulosa, não imagina que o reconhecimento só viria a partir de 1975 – a grana sempre foi curta, mas pelo menos o nome da banda ficou imenso, com o apoio nem sempre amistoso dos comparsas Eric Bell (guitarra), Scott Gorham (guitarra) e Brian Downey (bateria).
O amigo Gary Moore, depois de passar por Skid Row e Colosseum II, volta e meia aparecia para tocar e compor, mas sumia sempre que o clima pesava com o irascível e instável Lynott,. Já tinha sido assim com Eric Bell, o guitarrista solo que suportou as dificuldades na primeira metade dos anos 70.
As coisas pareciam melhorar após 1975, com álbuns fantásticos e hits como “The Boys Are Back in Town”, “Rosalie”, “The Rocker” e muitos outros. Os álbuns venderam aos montes, como foi o caso de “Jailbreak” e “Black Rose”.
Era o auge, mas isso não se traduziu em conforto financeiro. Afundado nas drogas e lidando mal com a própria instabilidade, viu a banda virar referência para o hard rock inglês dos anos 80 e viu a crítica aclamar os discos e os shows.
Beleza, mas o Lizzy estava falido e viu um mundo musical novo atropelar a banda, seja pelo punk rock, pela new wave e pela new wave of british heavy metal (NWOBHM).
Com credibilidade, mas sem dinheiro e sem inspiração, Lynott sucumbiu e viu a banda definhar até que o fim pareceu inevitável em 1983. Os shows ainda eram bons, mas tudo era imprevisível e sem lastro. A turnê final pelo menos rendeu ótimos momentos e um alívio para as contas sempre no vermelho.
Com a carreira solo estagnada – tinha lançado dois discos solo no começo dos anos 80 que tiveram pouca repercussão -, convenceu o parceiro John Sykes (ex-Tygers of Pan tang), o último guitarrista solo do Thin Lizzy, a embarcar em um novo projeto.
Sykes venerava o baixista irlandês e chegou a morar com ele por quase um ano enquanto tentavam fazer decolar o Grand Slam em 1984. Lamentavelmente a banda não virou e o guitarrista, a contragosto, voltou a Londres por conta de uma proposta irrecusável do Whitesnake.
No ano seguinte, com a pouca grana que restava e abalado com o divórcio e a distância das duas filhas, tentou vários projetos, nada conclusivo ou definitivamente sério. Saiu a mansão em que morava e se afundou ainda mais nas drogas pesadas.
O ano só não foi perdido porque foi resgatado pelo velho chapa Gary Moore, que lançou o álbum “Run For Cover”, em que Lynott, participa de três faixas.
A má fase parecia estar ficando para trás por conta de boas perspectivas de projetos em 1986, inclusive com a expectativa de propostas para uma volta do Thin Lizzy, mas o baixista sofreu um colapso geral pouco antes do Natal. Foram 11 dias agonizando até morrer no começo de janeiro.
A comoção foi tão grande que o artista recebeu homenagens de praticamente toda a realiza do rock. Segundo o guitarrista Scott Gorham, o guitarrista e líder do Who, Pete Townshend, amigo que emprestou ao Lizzy o estúdio do qual era o proprietário, teria afirmado que a morte de Lynott o chocou e impactou mais do que a do comparsa Keith Moon, o baterista do Who morto em 1978.
Phil Lynott virou estátua em 2005 numa esquina importante do centro de Dublin e é quase santo para os roqueiros irlandeses, ao lado do estupendo guitarrista Rory Gallagher.
É altamente recomendável assistir a uma grande obra sobre o músico, o documentário “Phil Lynott: Songs For While I’m Away” tem a direção do irlandês Emer Reynolds e traz entrevistas com Eric Bell, Scott Gorham, Darren Wharton, Adam Clayton (U2), Suzi Quatro, Huey Lewis, James Hetfield (Metallica) e Midge Ure (Ultravox).