Ativistas radicais de movimentos negros pelo mundo nunca cansaram de denunciar a apropriação cultural empreendida pelos brancos em relação ao blues e ao rock. A indignação explodiu com aa monumental montanha de dinheiro gerada pelo fenômeno Elvis Presley e aumentou com a explosão dos Beatles.
Nos anos 80, os alvos era David Byrne (Talking Heads), Peter Gabriel (ex-Genesis) e Paul Simon, que ampliavam as pesquisas e a prura por novos e surpreendentes artistas africanos. Não importava a visibilidade que deram a esses artistas ou q qualidade do trabalho que faziam – tudo era uma questão política e de ideologia.
Quando Peter Gabriel lançou “Biko”.em homenagem ao ativista negro sul-africano assassinado em 1977 pelo regime do apartheid , o sucesso serviu aos propósitos dos ativistas, ma não por tempo. Nada parecia ser suficiente.
Paul Simon decidiu passar por cima de tudo isso e enfrentou as pesadas críticas dos moimentos identitárias da época e cometeu uma das obras mais interessantes e importantes da música pop. “Graceland” está celebrando 40 anos de seu lançamento.
Era um trabalho colaborativo com músicos sul-africanos, mas a gravadora exigiu que o disco fosse creditado ao cantor e compositor norte-americano. Co, ótimas músicas e arranjos impecáveis, “Graceland” deu fama a um combo maravilhoso da África do Sul, Ladysmith Black Mambazo, e colocou mais pressão pelo fim do nojento asqueroso regime do apartheid, que segregava brancos e negros em pelo continente africano.
Sem exagerar na pasteurização sonora, Simon teve a delicadeza de deixar espaço pata que os locais brilhassem e revelassem uma sonoridade adormecida, encharcada de negritude, ancestralidade e esperança.
Foi quando a chamada world music ganhou mundo, beneficiando também músicos brasileiros e caribenhos. 9Compositor do mesmo calibre dos principais conterrâneos, Paul Simon não é tão prolífico quando Bob Dylan, Neil Young ou Paul McCartney, mas compensa com trabalhos certeiros e enxutos. Críticos da revista americana Rolling Stone costumam dizer que “Graceland” é um disco pop world music perfeito, revelando o gênio que Simon é como compositor e produtor.
O álbum vendeu muito na época e ajudou na redescoberta de cantores como Fela Kuti e toda uma geração de artistas nigerianos e senegaleses, além de transformar em esrelas a dupla sul-africana Johnny Clegg e Savuka.
Podre e sob intenso boicote mundial, o aprtheid da África do Sul começou a morrer com a libertação do ativista Nelson Mandela em 1990 após 27 anos de prisão. Quatro anos depois, ele foi eleito presidente da África do /sul e enterrou definitivamente a segregação racial oficial. “Graceland” ajudou bastante neste processo.