Criador e criatura juntos em momento raro d colaboração. É assim que está sendo chamada a colaboração entre Genesis e Marillion – ou melhor, entre os guitarristas Steve Hackett e Stebe Rothery, sendo este discípulo do primeiro e também de David Gilmour, do Pink Floyd.
Os dois músicos iniciaram uma colaboração há anos e o resultado é o ótimo “The Roaring Waves”. É uma surpresa. O projeto levou oito anos para ser concebido; a dupla iniciou os trabalhos em sessões de composição conjunta no estúdio Racket Club, do Marillion.
Rothery baseou-se em sua experiência com a banda, enquanto Hackett enfrentou uma curva de aprendizado mais acentuada. Eles desenvolveram o álbum tanto em conjunto quanto separadamente, em seus estúdios particulares.
Tendo o mar como tema unificador, a dupla cria uma mistura cativante de rock progressivo, psicodelia, ambient, música clássica e eletrônica, pontuada por paisagens sonoras cinematográficas e atmosferas enriquecidas por melodias marcantes e crescendos surpreendentes. Não se trata de uma competição de virtuosismo técnico (*shredding*). Os únicos vocais são sem palavras (interpretados pelas esposas e filhos de ambos). Em vez disso, a obra aposta fortemente na melodia, na harmonia estruturada e no contraste de texturas.
A faixa de abertura, “Storm”, traz o tecladista Riccardo Romano simulando cordas na introdução; Hackett executa frases dramáticas antes da entrada dos power chords e da bateria de Daniele Pomo, como em uma procissão.
A base rítmica é estendida ao máximo, mas mantém a firmeza. A melodia vocal flerta com o metal progressivo; os guitarristas alternam frases em estilo “pergunta e resposta” e solos breves. A melodia principal de “Sandsend” é comovente, porém fácil de cantarolar.
As guitarras são sustentadas por riffs potentes, bateria dinâmica e teclados eufóricos, tornando a faixa quase transcendental.
O single “Red Dragon” apresenta um drone de teclado modal com sonoridade oriental que, gradualmente, incorpora os baixos e guitarras que surgem. Uma guitarra slide reforça o groove antes que ares neo-psicodélicos permeiem a base, acompanhando solos flutuantes em estilo “pergunta e resposta”.
A faixa-título destaca uma guitarra de cordas de nylon que evoca cordas orquestrais e uma melodia de guitarra solitária e ascendente, evoluindo para um solo arrebatador. A seção final apresenta um dueto de guitarras refinado antes de encerrar com uma coda acústica acompanhada por piano.
“K-129” leva o nome de um submarino da era soviética que afundou no Pacífico Norte, resultando na morte de toda a tripulação. A música começa com uma base em *loop*, simbolizando o movimento repetitivo da embarcação.
Os guitarristas acabam improvisando sobre essa base. A forma de tocar de Rothery, como sempre, é mais melódica, enquanto Hackett explora distorções experimentais e ruídos. O som fantasmagórico de sonar na mixagem reintroduz os guitarristas, que retornam com solos individualmente criativos.
No single “The Black Sea”, percebe-se a influência do lendário guitarrista dos Shadows, Hank Marvin, com atmosferas suaves e melodias sussurradas que, em harmonias duplas, abrem as portas sonoras para o mistério.
A faixa de encerramento, “Pacific Coast Highway”, difere de tudo o mais no álbum. Hackett assume a gaita e solta notas intensas enquanto o baterista Leon Parr, Rothery e Romano imprimem um ritmo pulsante e contagiante, evocando a sensação de dirigir em alta velocidade.
Um coro sem palavras eleva-se sobre o som incisivo da guitarra com slide, a gaita blues e a bateria em tempo acelerado. Juntos, os guitarristas conduzem a música a um terreno de improvisação vibrante e magnífica.
“The Roaring Waves” é, ao mesmo tempo, um álbum que foge do estereótipo do “guitar hero” e, paradoxalmente, um dos melhores exemplos do gênero, graças ao intenso foco individual voltado para a execução conjunta e a inventividade melódica.
Líder do movimento neoprogressivo
O Marillion é uma banda subestimada em relação aua importância na história do rock. Dos escombros do movimento punk, que devastou os dinossauros do rock progressivo no fim da década anterior, o quinteto recriou os princípios estéticos que nortearam bandas como Yes, King Crimson e o Gesesis, principal influência.
Com “Script of a Jester’s Tears”, de de 1983, o primeiro álbum, o quinteto explodiu tendo Rothery como referência sonora e o vocalista Derek Fish” Dick na linha de frente.
O guitarrista emulou à perfeição os timbres de guitarra ouvidos em trabalhos de Hackett e Gilmour, e abriu as portas para bandas como IQ, Pallas, Pendragon e mais uma série de artistas semelhantes.
As comparações foram inevitáveis e o Marillion foi rotulado de cópias do Genesis, basicamente por conta das performance teatrais de Fish, que se maquiava como Peter Gabriel, vocalista da banda inspiradora. Foi assim nos cinco primeiros álbuns, antes da saída d Fish, em 1088.
Steve Rothery, por sua vez, nunca pensou em sair da banda Marillion, mesmo mantendo carreira solo em paralelo. Tornou-se ele mesmo referência em guitarra progressiva e atingiu o status de estilista, algo que é notável mesmo em tempos em que o rock deixou de ser reçevante no mundo.