As primeiras gravações de David Bowie são lançadas nas plataformas digitais



David Jones era só mais ovem comum que andava pelo centro de Londres querendo chamar a atenção e mostrar o potencial de cantor e artista antenado. Vestia-se de forma excêntrica aos 17 anos, mas não o suficiente para que alguém o notasse.

Demorou um ano para que o “Midas” da época, o produtor norte-americano Shel Talmy, acreditasse no potencial daquele garoto desengonçado, mas com evidente potencial. O produtor, que lançou as primeiras gravações de Who e Kinks, colocou o moleque no estúdio e lapidou gravações que ficaram escondidas nas gavetas por 60 anos. Nem quando Davy Jones virou David Bowie alguém se interessou.

“Shel Talmy Recordings” é o álbum que o espólio de Bowie lançou com 22 gravações guardada pelo produtor americano radicado em Londres. O encantamento entre o cantor e o Talmy não foi imediato, mas mesmo assim Bowie entrou em estúdio antes mesmo que o Who em 1965.

Havia um potencial a ser explorado, mas não deu certo e Bowie teve de ficar mais alguns anos camelando para que tivesse oportunidades melhores e chegasse agravar e ter apoio de uma gravadora. Seu primeiro álbum surgiu em 1967, autointitulado, pela Decca.

Como se pode imaginar, é um trabalho imaturo e incipiente, registrado por um garoto inseguro de 18 anos sob a batuta de um produtor autoritário e com fama de não perguntar e de executar suas ideias coo se fosse uma linha de montagem.

Os empresários do Who caíram na armadilha de assinar iu contrato muito ruino para a gravação de alguns LPs e sofreram para se livrar dele com um acordo muito pior. Os Kinks escaparam deste destino e Bowie, ao qe parecepor desinteresse, também.

Ante de morrer, Talmy disse várias vezes que ele e Bowie estavam à frente de seu tempo, embora as gravações deste álbum a er lançado não demonstrem isso. David Boiwie canta d forma claudicante e hesitante um repertórui calcado em sons tipo beatlemania, algo que estava ficando foram de moda até para os Beatles em 1965. Não admira que Talmy achasse quase impossível enfrentar a concorrência com o material daquele jovem cantor.

A experiência foi válida e o ensinou a evitar os caminhos mais tortuosos e o direcionou para o importante primeiro LP, que não fez sucesso, mas norteou a sua carreira em seguida. O material é importante como curiosidade e registro histórico.

Apenas quatro dessas faixas foram lançadas como singles na época, enquanto outras sete versões alternativas e sobras de estúdio apareceram em coletâneas ao longo dos anos; isso significa, naturalmente, que 10 faixas fazem sua estreia neste pacote — incluindo a música de destaque “I Want Your Love”.

Faltava ainda um ano para ele mudar seu nome artístico para “Bowie” — o nome “Davy Jones”, é claro, já estava sendo usado pelo integrante britânico dos The Monkees em 1966, e esse membro do grupo — um jovem britânico de mesmo nome — já havia aparecido na Broadway, apresentado-se no “The Ed Sullivan Show” e recebido uma indicação ao prêmio Tony por “Oliver!”.

A compilação das gravações de Talmy concentra-se nas tentativas do cantor de se encaixar em uma indústria musical britânica profundamente transformada pelos Beatles e por uma onda de influências do blues e R&B americanos. (Um single com o grupo The King Bees, “Liza Jane”, já havia sido lançado e passado despercebido pelo selo Vocalion em 1964.)

Talmy, vindo de trabalhos com os The Kinks e prestes a colaborar com uma banda iniciante chamada The Who, assinou contrato com os The Manish Boys — um grupo de soul com pegada blues, tendo Bowie nos vocais principais e no saxofone — em 1965, mas a versão deles para “I Pity the Fool”, de Bobby “Blue” Bland, não fez sucesso.

A faixa também não foi gravada pela banda completa: Talmy, trabalhando com o engenheiro de som Glyn Johns, convocou músicos de estúdio — incluindo o virtuoso da guitarra e futuro ícone do Led Zeppelin, Jimmy Page — para acompanhar o futuro Bowie.

A sessão seguinte de Talmy com David contou com outro grupo novo, o The Lower Third; desta vez, o cantor arriscou-se com material autoral, incluindo as canções “You’ve Got a Habit of Leaving” e “Baby Loves That Way”. Esse single também não obteve muito sucesso, embora a sessão de gravação contasse com um time de músicos de estúdio de primeira linha, incluindo o tecladista Nicky Hopkins.

Bowie mudou de nome no início do ano seguinte e começou a gravar composições próprias para os selos Pye e Deram, lançando finalmente, em 1967, um álbum de estreia autointitulado que lançou as bases para uma carreira inventiva e transformadora — iniciada nos anos 70 e que perdurou até seu falecimento trágico em 2016.

As faixas produzidas por Talmy acabaram integrando algumas coletâneas, e os fãs mais ardorosos lembram-se de “Habit of Leaving” e “Baby Loves That Way” como duas músicas que Bowie havia reservado para *Toy*, um álbum do início dos anos 2000 que acabou sendo engavetado e que revisitava os primórdios de sua carreira.

O disco foi lançado postumamente em 2021.) Algumas das composições originais desse período foram reunidas, juntamente com outros materiais da fase anterior à fama, na coletânea “Early On (1964-1966)”, de 1991; no entanto, este lançamento representa o primeiro panorama abrangente e detalhado daquelas sessões com Talmy, contando com uma nova remasterização de John Webber e textos explicativos completos do historiador musical Alec Palao.

Compartilhe...