Com delicadeza, Van Morrison mergulha no jazz e conquista a redenção

Quando a banda Them foi chamada de Rolling Stones de Belfast” em 1965, o vocalista ironizou para demonstrar seu desagrado. Sou mais bonito que Mick Jagger”. Van Morrison já tinha atitude e era “casca-grossa”, fazendo questão de dizer que sua banda tinha personalidade.

O Them não durou muito, mesmo com o megahit “Gloria”, e o cantor de voz rouca e apaixonado por jazz decidiu ficar na Irlanda do Norte convulsionada por terrorismo e violência para se tornar um astro folk depois de lançar “Astral Weeks” em 1968, seu melhor trabalho.

Quase 60 amos depois, Van Morrison se tornou idoso ranzinza e negacionista, um ferrenho adversário de medidas sanitárias para conter pandemias, ou seja, um, arauto do atraso. Como ainda consegue se respeitado?

Pela beleza e qualidade de suas obras, como a trilha sonora do filme Belfast”, do cineasta irlandês Kenneth Branagh. Com muito talento e delicadeza suficiente para compor e interpretar canções dramáticas e singelas, Van Morrison voltou a ser uma das grandes vozes do nosso tempo,

“Somebody Tried to Sell Me a Bridge”, recém-lançado, é seu 51º álbum solo e é um álbum delicioso de puro jazz repleto de alto astral e de bom humor. Cantando e tocando saxofone, Morrison esbanja elegância em 20 canções que passeiam também pelo blues e pelo folk britânico.

Ele é frequentemente elogiado por sua composição enigmática e introduziu muitos estilos diferentes em sua música, mas é muito provável que seu estilo preferido seja o blues, considerando quantos de seus álbuns mais recentes incorporam elementos do gênero. E ele tem a voz perfeita para o blues, embora não consiga replicar a profundidade estrondosa dos mestres originais do blues.

Personalidade forte

Considerando seu evidente amor por esse gênero, é talvez surpreendente que, em toda a sua obra, apenas um álbum anterior a este novo lançamento de 2026 tenha se aprofundado nesses antigos mestres e os reinterpretado: o excelente álbum de 2017, “Roll with the Punches”, que contém 10 covers de blues e 5 composições originais de Morrison que se encaixam perfeitamente no tom do álbum, como a faixa-título.

Seu talento inato para o timing transformou músicas como a mistura de “Stormy Monday” e “Lonely Avenue” em uma interpretação moderna excepcional e ajudou a manter vivas as antigas tradições do blues diante dos novos estilistas do gênero.

Ele repete a mesma fórmula, com sua voz (aos 80 anos) ainda intacta e sua capacidade de atrair grandes nomes para tocar com ele, além de selecionar músicos de apoio excepcionais para o projeto. Desta vez, ele contou com os talentos de Elvin Bishop, Taj Mahal e Buddy Guy em um álbum de 20 faixas, das quais apenas 4 são composições originais de Morrison. Como de costume nos álbuns de Morrison, a duração é longa, neste caso, ultrapassando os 80 minutos.

Ouvir o álbum de uma só vez exige certa resistência auditiva, e um artista que se aventura por esse caminho precisa ter muita certeza da paciência de seus fãs devotos e garantir que haja pouco ou nenhum conteúdo dispensável.

Esse é um tema recorrente, já que seus álbuns frequentemente ultrapassam os 60/70 minutos, incluindo aqueles que exploraram gêneros específicos, como por exemplo… country (“Three Chords and the Truth”), skiffle (“Moving on Skiffle”), instrumentais (“Beyond Words”) ou história do rock’n’roll (“Accentuate the Positive”).

O álbum começa com algumas músicas de Eddie “Cleanhead” Vinson, introduzidas pelos excelentes riffs de sax de Morrison, e logo se percebe o quão bons esses músicos são. Após mais alguns clássicos do blues, surge o primeiro exemplo das verdadeiras habilidades interpretativas de Morrison, quando ele desacelera “Ain’t That a Shame”, de Fat Domino (de uma forma que ele fez no álbum “Punches” com “Bring it on Home to Me”, de Sam Cooke).

Em seguida, ele arrasa em “Madame Butterfly Blues”, de Dave Lewis, e depois permite que Taj Mahal divida os vocais em “Can’t Help Myself”, de Sonny Terry e Brownie McGhee; a mesma divisão de vocais acontece na tradicional “Betty and Dupree”, onde Allair realmente brilha.

trajetória sólida

A carreira musical de Morrison começou no final dos anos 50, quando ele aprendeu a tocar guitarra e saxofone na adolescência e participou de várias bandas antes de formar o Them em 1963, um grupo quase de R&B que lançou uma série de singles, incluindo clássicos do rock como “Gloria” e “Baby Please Don’t Go”.

Ele saiu para seguir carreira solo em 1967 após disputas financeiras decorrentes da urnê pelos EUA, entre outros assuntos. Em meados de 1967, ele lançou o single que catapultou sua carreira: “Brown-Eyed Girl” foi um grande sucesso e figurou em diversas listas de melhores canções pop ou rock.

A música fazia parte de um álbum de estreia lançado sem a aprovação de Morrison devido a um mal-entendido contratual.

Em seguida, vieram os dois álbuns que figuram entre os melhores da história da música popular moderna: a luminosa obra-prima folk “Astral Weeks” e o triunfo eclético “Moondance”, que consolidaram o status de Morrison no mundo do rock. “Moondance”, em particular, incorporou muitos dos estilos musicais que permeariam sua música dali em diante (folk, rock, jazz, R&B, pop, folk irlandês e celta)..

* Com informações do site AmericnaUK

Compartilhe...