De concorrido centro comercial a templo do comércio musical; de instituto cultural a importante ponto turístico de São Paulo; de uma das maiores concentrações d e lojas de CDs e LPs do mundo a “personagem” de novela da TV Globo.
A história da Galeria do Rock é riquíssima, assim como a sua importância da cidade de São Paulo, mas é inevitável uma constatação: a perda de relevância por conta das mudanças no mercado fonográfico e comercial de música e do perfil dos frequentadores do local. O consumo de mídia física caiu e o avanço de outros tipos de comércio alterou a dinâmica local.
Quase 50 anos depois da chegada da ´ primeira loja de música, consumidores antigos e especialistas em turismo especulam: qual é o futuro de um centro comercial icônico que é um dos símbolos da cultura paulistana e do centro da maior cidade do país?
“As questões do entorno melhoraram, como a segurança nas imediações e as condições de infraestrutura melhoraram nos últimos anos, mas viram tarde demais”, comenta um comerciante de música que prefere o anonimato. “O consumo de música caiu, o mercado mudou e seria interessante os lojistas de música se reunirem para discutir soluções, mas está difícil, já que a administração do condomínio nunca ligou para isso. Nunca nos apoiou e, com isso, entendo que o perfil de frequentador muda e poda cavar com a Galeria do Rock como ela era.”
Ele foi preciso no diagnóstico do dilema que o local vive, e faz coro às reclamações de que o índico Antonio dos Santos, que está no cargo há 30 anos, tem outras ideias administrativas que não incluem uma preocupação com os comerciantes d música. O Combate Rock não conseguiu contato com Santos, que é lojista do ramo de roupas no local.
No auge do comércio físico de CDs e LPs, eram 140 lojas, que transformaram o cenro comercial em um dos principais centros d convivência da capital paulista por muitos anos. Roqueiros de todos os tipos faziam questão de ir todo sábado para encontrar amigos e fanáticos por rock para debater a qualidade dos trabalhos lançados na semana ou clássicos do gênero.
A fama se espalhou no final dos anos 80 e artistas de todos os calibres passaram a frequentar a Galeria do Rock para achar raridades produtos que somente ali eram encontrados. Foi o pontapé para a transformação do prédio da avenida São João, nº 439, em ponto turístico mundial.
“Não canso de vir aqui três vezes por semana”, diz o programador de computador Einar Andersen, norueguês que morou por cinco anos no Brasil na década passada. “Aqui é mais barato e encontrei dois CDs de uma banda de meu país chamada Magic Pie. Tenho amigos na Noruega que procuram esses CDs e LPs e CDs há anos e não encontram na Europa.”
Frequentador da Galeria, o publicitário Renato Gomes, consultor d pesquisa, percebe que a frequência no local ainda [e muito frequentado, principalmente às sextas e sábados, mas esse público diferente consome menos.
“Com o predomínio das lojas de roupas e brinquedinhos diversos, o valor das vendas cai, porque são produtos d menor valor agregado. Cada frequentador gasta bem menos, quando gasta. Quem gostava de música sempre comprava alguma coisa, mais cara e mais valorosa”, diz o profissional.
Esse cenário representa uma mudança significativa no perfil comercial e pode até mesmo comprometer a a continuidade da Galeria do Rock como a conhecemos.
O número de eventos culturais caiu drasticamente e muitos comerciantes detectam uma diminuição ainda m maior na frequência de quem gosta e compra música. Está deixando de ser até mesmo um centro de convivência. Nem mesmo a inauguração de um restaurante temático no local parece ser suficiente para reverter a situação.
“Houve um abandono do público tradicional”, constata o publicitário Renato Gomes. “A galeria deixou ser um lugar aprazível para convivência de roqueiros e conversar sobrr realizar eventos ali. A mudança do perfil dos frequentadores afastou esse público, que não migrou para nenhum lugar.”
É possível que essas mudanças fossem inevitáveis pela própria natureza do negócio e pelas mudanças na indústria musical. Entretanto, é difícil não constatar um certo descaso em relação ao negócio da música por conta dos próprios comerciantes da Galeria e d administração do local.