A madame entrou no palco e o silêncio se fez de imediato. Ela rugiu. O local estremeceu, a banda deu o suporte necessário para um show vigoroso, pesado e intrépido. E o Pará surpreendia de novo com a banda Madame Saatan e sua vocalista, a intensa Sammliz.
A descrição pertinente e dava conta do bom trabalho que a banda fazia para divulgar seus trabalhos na segunda década deste século. Os percalços dede então impuseram novos desafios e a trajetórias mudaram de tal forma que só agora houve a possibilidade de uma retomada.
Sammliz buscou a luz e o recomeço no interior, perto da natureza, e ressurge revigorada para reclassificar a sua música em formato mais moderno.
O peso e a afressividade do madame Saatan deram lugar a um rock com arranjos mais atuais e uma visão de mundo mais madura e reflexiva. Quem ouviu “Mamba” “Quando o Amanhã Chega”, lançada apo longo dos anos, entendeu o que esyava acpntecendo.
Uma pandemia de covid-19 e uma vida depois, Sammliz está pronta para ve além d escuridão, como ela canta em “Daqui, em 1976, Acenei para Você”, seu novo singl e que vai nomear o próximo EP, que chega em outubro.
É uma retomada em grande estilo, em ma canção com forte influência do rhythm and blues com pitada de rock moderno. Canção forte, apesar de curta, com uma letra metafórica a respeito de como vemos a vida passar atualmente.
A canção também é um tributo à arte urbana. “Nasci em 1978 e por muito tempo eu vi em uma instalação artística, na parede perto do mercado Ver-o-Peso, em Belém, a frase 1De 1976 Eu Acenei para Você’. Ficou na minha cabeça e consegui só agora encaixar em uma canção”.
Sammliz é uma interprete que baseia seu método em blues, como observamos na antiga canção “Quando Chega o Ananhã”; Está em busca de mais diversidade que ela já reivindicava quando integrava o Madame Saatan. A madame queria mais.
Seu rock urbano misturado com uma MPB sofisticada abusa sem parcimônia das figuras de linguagem que lapidou em seis anos de afastamento voluntário do mundo artístico, Mais perto da natureza, no interior do Pará, se reconectou consigo mesma e recuperou a verve musical.
O novo EP, previsto para outubro, é o começo de uma retomada que pretende colocar o rock como protagonista de uma história rica dentro da música paraense. Seu trabalho é diferente, por mais que os elementos regionais não estejam tão presentes.
“Às vezes eu fico perplexa com alguns adjetivos, como de fazr uma MPB de certa forma sofisticada. Nunca foi essa a intenção”, diz a cantora. “Continuo focada em compor de acordo com o que o momento pede e creio que tenho o rock o sangue. Mas aprendi na minha carreira que minha arte ganha quando eu agrego elementos diferentes, mas sem teorizar se são inusitados ou não.”
“Daqui, em 1976, Acenei Para Você”, faixa que dá nome ao seu próximo EP, sai pelo selo Suave City. O trabalho inaugura uma nova etapa criativa da artista, marcada por um período de introspecção, imersão em processos espirituais, entre deslocamentos e redescoberta do próprio processo de composição.
O título nasceu de uma frase da intervenção urbana Psicografia (2010), da artista visual paraense Valéria Coelho, pintada na parede do Solar da Beira, prédio histórico localizado no complexo do Ver-o-Peso, em Belém.
A inscrição – hoje apagada – sempre provocou na cantora uma sensação ambígua entre nostalgia, estranhamento e reconhecimento. “Eu não sabia se sentia saudade, agonia ou alívio. Era como uma memória que parecia ao mesmo tempo vivida e imaginada”, relembra.
Melodias e trechos da letra de “Daqui, em 1976, Acenei Para Você”, assim como as canções que fazem parte do EP e outras ainda inéditas, foram registrados em temporadas longas no interior do Pará, pegando estradas, rios, vendo casas isoladas passando na paisagem pela janela. em período imersivo longe do capital
Produzida por João Lemos, da banda Molho Negro e colaborador de longa data de Sammliz, a faixa transforma essa experiência de deslocamento em atmosfera sonora: guitarras, sintetizadores e camadas de ruído constroem sonoridade nostálgica e contemplativa.
“Eu tinha como pano de fundo ao escrever as músicas que compõe esse ep os sons distantes ecoando através do vento, pelo mato, vindos de festas, bares e aparelhagens de cidades e comunidades do interior, aquelas músicas nostálgicas, os mid back dos anos 80 e 90. Uma sensação que me remete às lembranças da infância e adolescência”, relembra.
Na canção, a memória surge como um território instável entre passado, presente e imaginação. O reencontro com um amor distante se revela, aos poucos, como um encontro com a própria identidade.
Sammliz iniciou sua trajetória na cena musical de Belém ainda na adolescência. Aos 16 anos integrou a banda Morganas, formada em 1992 e pioneira em se tratando de grupos femininos de rock do Pará.
Em 2003 fundou o Madame Saatan, projeto que ganhou projeção nacional ao misturar metal, hardcore e referências sonoras amazônicas, circulando por festivais e consolidando seu nome na cena independente brasileira.
Após o encerramento da banda, lançou em 2016 o álbum solo Mamba, trabalho que reuniu rock, música eletrônica e sonoridades latino-americanas. Nos anos seguintes, apresentou os singles “Deusa da Lua (Mulher Perigosa)”, com participação de Dona Onete, “Leviatã Lux” e “Irmã”.
A estreia de “Daqui, em 1976, Acenei Para Você” anuncia em seguida o lançamento de um videoclipe dirigido por Thiago Pelaes, que também assina a direção de fotografia. A direção do clipe e roteiro, direção criativa e o figurino são de Laboyoung, artista visual radicado em Icoaraci, distrito de Belém, cujo trabalho investiga a potência estética e simbólica da cultura amazônica.
O vídeo parte do encontro entre duas figuras ligadas ao imaginário da região: uma entidade encantada e uma bruxa amazônica. A narrativa visual articula arquétipos de força feminina associados ao mistério, à sabedoria ancestral e à relação espiritual com a natureza.
As gravações aconteceram no Bosque Rodrigues Alves, área de preservação ambiental localizada em Belém que abriga uma grande diversidade de espécies da fauna e da flora amazônicas. Durante as filmagens, a chuva recorrente na cidade acabou incorporada espontaneamente a algumas cenas e passou a integrar a atmosfera do clipe.