Transformar a própria morte em obra de arte. Só um artista de altíssimo quilate possui tamanha ousadia e coragem para encarar a tarefa na esteira de um diagnóstico desalentador. Quem mais poderia fazer tal coisa senão David Bowe, o mestre da versatilidade e do experimentalismo?
Dez anos após a sua morte, o cantor inglês continua influente e referência de vanguarda artística. Bowie estabeleceu padrões tão altos no rock que é um dos poucos astros que têm a deferência de ser confundido com o próprio gênero, ao lado de ícones como Elvis Presley, John Lennon, Mick Jagger, Freddie Mercury. E poucos mais.
Ao ser desenganado por conta de um agressivo câncer de fígado, David Bowie inovou e ensinou pela última vez. Seu álbum jazzístico melancólico “Blackstar”, o último, lançado dois dias depois de seu aniversário e um após a morte, é muito mais do que um testamento musical – é a comprovação de que seu legado era imenso.
Ziggy, Thin White Duke, Young American, o herói d “Heroes”, o amante moderno, o cantor rocker máquina, o astro sereno e realizado do novo século… Escolha o seu personagem e terá Bowie completo e, ao mesmo tempo, multifacetado. Qual é o seu Bowie favorito?
Não dá para escolher apenas um. E aqueles que estiveram nas telas? Tem o vampiro em busca da eternidade, o alienígena em busca da redenção. O soldado britânico cativo ansioso por uma redenção, o amante sofisticado dos videoclipes…
O autêntico camaleão pop era, em sua essência, um grande cantor de rock e um mestre d cerimônias formidável. Por isso, sua melhor persona não poderia ser outra senão a do vocalista de banda de rock pesado encarnado em 1989 na banda Tin Machine, ao lado de Reeves Gabrels (guitarra) e os irmãos Hunt (bateria e vocais) e Tony Sales (baixo).
Descendo do pedestal, Bowie quis passar a imagem de um integrante de banda igual aos outros, ao mesmo tempo em que recuperava a energia roqueira do início da carreira, ainda nos anos 60. Machine foi a sua melhor performance de palco e o som mais pesado e diversificado que fez em estúdio;

Genialidade e mudança de hábitos
David Bowie adotou a reclusão no século XXI depois de quase 35 anos de carreira onde a ousadia, a audácia e a inovação predominaram, assim como o espalhafato de suas várias personas. Contrariando – e surpreendendo – a própria trajetória, mas coerente com os últimos anos, partiu de forma discreta.
Assim como Lemmy Kilmister, do Motorhead, no finalzinho de 2015, a morte de David Bowie poucos dias depois de completar 69 anos e de lançar seu mais recente álbum, “Blackstar”, chocou bastante.
No entanto, ao contrário de Lemmy, que soube de um câncer devastador no cérebro quatro dias antes da morte, Bowie manteve em segredo o tratamento de 18 meses de um câncer. O diretor de cinema Duncan Jones, filho do cantor, anunciou a morte na redes sociais, assim como a página oficial do cantor no Facebook .
Em 2003, durante a turnê do disco “Reality”, Bowie sofreu problemas do coração e teve de interromper a excursão. Foi o início de um longo período distante da mídia e dos estúdios.
O silêncio – ao menos musical, já que Bowie há anos não concedia uma entrevista – foi quebrado em 2013, com o lançamento surpresa da canção “Where Are We Now?”, no dia de seu aniversário de 66 anos.
Nascido David Robert Jones em 8 de janeiro de 1947, no bairro de Brixton, em Londres, Bowie formou a primeira banda aos 15 anos, The Konrads. Ele adotou o sobrenome Bowie em meados dos anos 1960, já que seu sobrenome de registro gerava confusão com Davy Jones, do grupo The Monkees. O Bowie ser referia à marca de uma faca de sucesso nos primórdios do século XX.
O primeiro single, “Liza Jane”, saiu sob o nome Davie Jones with the King Bees, em 1964, sem sucesso. A carreira do artista, que também se engajava no teatro, começou a tomar forma com o lançamento do álbum de estreia, “David Bowie”, em 1967.
O cantor penou bastante no rock até 1971, quando o álbum “Hunky Dory” foi lançado e finalmente rendeu alguma notoriedade. “Space Oddity”, de 1969, hoje cultuado segundo álbum, surpreendentemente recebeu menos atenção do que devia.
Com “Ziggy Stardust and The Spiders From Mars” a carreira decolou, tornando-o um dos artistas mais festejados do rock e do pop. Frequentou os palcos de teatro e foi um cobiçado ator de cinema, elogiado por atuações em filmes como “O Homem que Caiu na Terra”, “Labirinto” e “Fome de Viver”.
É desnecessário repetir as qualidades que fizeram de Bowie um gênio pop. Desnecessário citar a falta que ele fará. “Blackstar” é um epitáfio sombrio e meio lacônico de uma grande carreira.
No entanto, reúne as principais características de seus trabalhos musicais – ousadia, inovação, surpresa e inteligência. Não é uma audição fácil, mas acaba por se tornar necessária neste 2016, e infelizmente por conta de sua morte.