Em meio a críticas políticas, U2 simplifica o som em busca de novo rumo

Quando Bono e The Edge, vocalista e guitarrista do U2, se arriscaram a gravar clipes e tocar com músicos ucranianos nos escombros do metrô de Kiev, imaginava-se que a banda estava pronta para retornar após um hiato incômodo com o fato de demonstrarem que eram artistas exaustos, exauridos e enfastiados do sucesso.

Mesmo tocando na bombardeada capital da Ucrânia, ´país invadido covardemente pelos vizinhos russos asquerosos, o U2 dava o recado de que poderia retomar a veia política e de protesto que tanto fez a fama dos irlandeses nos anos 80 – mesmo que dissesse o contrário em shows, “Sunday Bloody Sunday”, seu maior sucesso,é uma canção política e d rebeldia,.

Quase três anos depois, o grupo irlandês rompe um silêncio de quase dez anos em relação a lançamento de músicas inéditas e reaparece com um EP, “Days of Ash”, com seis músicas e um tom político esperado e contundente, ainda que falte a inspiração musical de outras eras.

Sem os incômodos excessos eletrônicos e abusando de violões e sonoridades semiacústicas, o U2 de 2026 [e uma banda com uma sonoridade mais simples e acessível, por mais que nenhuma das seis canções seja memorável. Sessentões, os músicos estão mais reflexivos, embora não economizem nas críticas á política anti-imigração covarde e violenta dos Estados Unidos e à violência russa na guerra contra a Ucrânia.

O que ouvimos em “Days of Ash” é uma banda pop com aspirações de folk rock fazendo música competente e contundente, mas muito longe de repetir os hinos que marcaram duas gerações a partir dos anos 80. Como cronista deste século, Bono protesta e brada contra a destrutiva política internacional destrutiva e imperialista, mas parece que faltou fôlego e interesse para ir mais além.

Onde o U2 se encaixa no cenário musical atual? A banda não consegue responder a essa questão e ainda parece perdida neste século, vagando entre um passado glorioso, mas distante, e um som moderno e relevante, mas sem a criatividade esperada e a contundência que ostentou por muito tempo.

A falta de ideias claras fez os integrantes cogitarem uma colaboração não efetivada com o DJ David Guerra, francês, que já foi acusado de usar pen drives em algumas de sus apresentações – o que seria um ponto muito baixo nos 50 nos de exitência do U2.

Embalada por um canção boa, mas sem grandes ambições Song of the Future” – chegamos a”Days of Ash”, não uma prévia do próximo álbum, mas, assim como o recente “Streets of Minnesota” ,de Bruce Springsteen, uma tentativa de reanimar o espírito de protesto como resposta imediata do single “Ohio” de Crosby, Stills, Nash & Young, de 1970.

A canção exala um otimismo crítico – ou um pessimismo esperançoso, se é que dá para usar esse tipo de expressão. É uma ideia que se esperaria que tivesse ocorrido a mais pessoas ultimamente.

Se o Crosby, Stills, Nash & Young conseguiram emplacar “Ohio” nas paradas americanas poucas semanas após o massacre de Kent State, que a música homenageava – em 1970, quando colocar um single nas paradas envolvia prensar discos, distribuí-los para lojas e atender às estações de rádio – então não parece haver razão para que os artistas não possam usar os processos mais rápidos da era do streaming dessa forma,

Três das cinco músicas do EP – há também um breve interlúdio instrumental com poesia e ambientação – homenageiam mortes recentes em conflitos e protestos: as do ativista palestino não violento Awad Hathaleen, da manifestante iraniana de 16 anos Sarina Esmailzadeh e, mais recentemente, o assassinato de Renee Nicole Good em 7 de janeiro.

Este último tema permeia a faixa principal do EP, “American Obituary”, na qual o U2 soa mais indignado do que em anos, tanto na letra, que tem um tom confrontador e incisivo raramente ouvido nos trabalhos do U2 desde a época de “War”, o forte disco de 1983.

Nas faixas seguintes, a música assume um tom menos agressivo – mais guitarras acústicas, menos The Edge em plena forma, uma atmosfera visivelmente mais nebulosa – e as letras assumem uma nota mais familiar de consolo e otimismo: imagens bíblicas, aforismos tipicamente Bono (“o futuro, como todos sabem, é onde vamos passar o resto da vida”).

Entretanto, há uma urgência genuína que permanece, sem dúvida ligada à produção relativamente rápida do EP. Isso contrasta fortemente com a profusão de dúvidas, regravações e projetos abandonados que marcaram as últimas duas décadas do U2,

Nem tudo funciona. A colaboração com Ed Sheeran, “Yours Eternally”, é menos dissonante do que algumas das tentativas de modernidade no catálogo do U2 do século XXI, mas o problema é que o som da voz e do violão de Sheeran se tornou imediatamente reconhecível graças à sua onipresença nos últimos 15 anos, o que significa que sua participação especial ofusca a música, como observaram ao menos três críticos musicais ingleses.

Na tentativa de buscar um rumo, o U tenta recuperar a relevância artística. A tentativa atual faz parte desse processo e merece ser apreciada com atenção, principalmente pelas mensagens políticas, mas “Days of Ash” será lembrado como apenas mais um item sem brilho na longa e importante discografia do conjunto irlandês.

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