Era uma vez na América, em meio a sonhos despedaçados

Manifestantes apoiadores de Jair Bolsonaro estendem bandeira americana na avenida Paulista (Foto> reprodução de TV)

“Era para ser uma celebração à vida, mas se tornou um tributo, como se eles estivessem mortos. Metade da banda não apareceu, e eu tive de tocar no improviso, em nome da amizade e da liberdade.” A guerra contra o preconceito e o ódio nos Estados Unidos é suja e está sendo travada nos subterrâneos, longe da imprensa e do grande público. Os imigrantes, legais oi ilegais, estão sendo caçados pelo ICE, a polícia americana de imigração, de forma indiscriminada e criminosa, aterrorizando até mesmo cidadãos americanos.

“O baterista estava consertando a cerca e foi capturado de surpresa, sem aviso, na gente do filho pequeno. É chileno e estava em vias de conseguir a autorização de trabalho. É revoltante pela crueldade. Ninguém está seguro.” O depoimento é de um músico brasileiro eu toca blues e jazz em uma grande cidade americana há pelo menos dez anos. Toca em uma banda prestigiada, já ganhou prêmios e tem documentação regularizada para trabalhar com música e entretenimento. E inda assim está morrendo de medo de ser deportado. A polícia de Donald Triump não tem limites e não respeita a lei.

“O concerto em questão reunia músicos que queriam celebrar a vida em um evento beneficente em prol de gente americana que não tem como encarar o frio abaixo de zero. Em latino-americanos atuando em prol de seres humanos, mas foram capturados como ratos.”

“O show atrasou e ninguém sabia o motivo. De repente, uma das organizadoras, americana, subiu ao palco e, chorando, explicou o que acontecera na véspera. Assim que ela terminou, instantaneamente, umas 15 pessoas se levantaram e foram ao palco. Quando vi, eu já estava com o baixo nas mãos, chorando, e me aquecendo. Não sabia o que iríamos tocar, mas nem importava. Um baterista muito famoso acertava a atura dos pratos e olhava para mim com uma cara selvagem e disse: ‘A música alva. Vamos tocar como nunc e salvá-los’. O sangue subiu e o show beneficente se tornou o ato político mais importante do ano contra a barbárie

Atemorizado, e evitando sair de casa, ainda assim subiu ao palco e tocou com nunca. Sabe o que está em jogo; “Reconstruí minha música e minha vida nos Estados Unidos e não vou deixar tudo para trás por causa de uma política imigratória ensandecida e uma paranoia extremista ditada por um lunático no poder. Latino estão se sentindo como judeus na Alemanha nazista da década 1930. Como isso pode estar acontecendo nos Estados Unidos do século XXI?” 

Naturalmente otimista, o brasileiro percebe que, em vários círculos eu frequenta, as pessoas perderam o brilho nos olhos e a alegria deu lugar ao receio e apreensão. “Os americanos estão pessimistas e não tem a menor ideia do que futuro reserva. Nunca tinha acontecido isso na sociedade americana, pelo que amigos m disseram. Os sonhos estão desmoronando, e nãp só os nossos.”

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