Eram punks antes de existirem os punks, ou mesmo sem saberem que eram punks. Bandas rebeldes explodiram nos Estados Unidos no final dos anos 60 galvanizando o sentimento d revolta e impotência diante de um mundo desmoronando – apesar de o movimento hippie ainda pregar amor e paz enquanto milhões morriam na Guerra do Vietnã.
Não era um movimento, mas a cidade Detroit parecia ser um epicentro daquela explosão d rock raivoso capitaneada por MC5 e The Stooges.
as ligações políticas “perigosas do MC5 com os Panteras Negras e organizações de esquerda colocaram a banda na mira do FBI, a polícia federal americana – músicos chegaram a ser presos.
Os Stooges estavam longe do radicalismo político e social, mas não do musical. Iggy Pop, o vocalista, queria ser radical, e impressionava a plateia com suas loucuras nos palcos e, de certa forma, fora dele.
Iggy e a banda precisavam ser diferentes nos shows e no estúdio, e conseguiram apostando no extremismo e nas abordagens sombrias das músicas, como fica evidente no primeiro álbum, de 1969, autointitulado e que acaba de ser reeditado em versão simples, se material adicional.
Inteligente e bem infirmado, James Osterberg tinha liderado grupos de garagem e de escola antes de virar Iggy oop dos Stooges.
Ao lado dos irmãos Asheton, continuou fazendo som cru e sujo, comportando-se como um delinquente e, sem saber, inaugurando posturas punks artísticas que seriam repetida e copiadas seis anos depois nos dois lados do Oceano Atlântico.
Embora os Stooges tivessem algumas influências óbvias — a arrogância dos primeiros Rolling Stones, a batida sensual dos Troggs, o desdém distorcido de milhares de bandas de garagem adolescentes e a vontade experimental do Velvet Underground de se lançar no vazio — eles realmente não soavam como ninguém mais na época em que seu primeiro álbum chegou às lojas em 1969.
É difícil dizer se Ron Asheton, Scott Asheton, Dave Alexander e o homem então conhecido como Iggy Stooge eram capazes de fazer algo mais sofisticado do que isso, mas se eram, não demonstravam.
Os melhores momentos do disco de estreia representam a raiva e a fúria de jovens apocalípticos dispostos a romper com a pasmaceira de uma vida monótona de uma cidade industrial decadente.
Os solos de guitarra de Ron Asheton (reforçados com o uso vigoroso de fuzz e wah-wah) são tão brutais e concisos que alcançam uma genialidade ingênua, enquanto a bateria proto-Bo Diddley de Scott Asheton e o baixo sólido de Dave Alexander subjugam essas músicas com uma força que inspira admiração.
E os vocais vividamente inexpressivos de Iggy preenchem o encolher de ombros indiferente de milhares de adolescentes com uma riqueza de arrogância palpável e maravilhosa confusão.
Hoje podemosdizer que o álbum é seminal e fundamental para entender um lado mais obscuro do rock americano, mas na época as canções soavam agressivas demais – como a banda queria que soasse. As músicas se tornariam clássicos anos depois, como “1969”, “I Wanna Be Your Dog”, “Real Cool Time”, “No Fun” e outras.
Gravado a partir das fitas master originais e relançado para celebrar os 75 anos da Elektra, o SACD híbrido da Mobile Fidelity reproduz com definição e presença reveladoras.
As características sonoras que ajudam a tornar os Stooges únicos — os fuzz encorpados; o grave profundo e impactante; a reverberação e o wah-wah cavernosos; a distorção no limite; as palmas vibrantes; o timbre quase distante do desdém vocal de Pop.
A aspereza, a sujeira e a intensidade dos ritmos sobrepostos são transmitidas com clareza envolvente, vivacidade, detalhes e dimensionalidade.
Prestes a completar 80 anos de idade, Iggy Pop sorri quando ouve que era punk antes de existirem os punks. Com uma vitalidade de fazer inveja a Mick Jagger, dos Rolling Stones, três anos mais velho, o ex-cantor dos Stooges se tornou uma instituição da música pop.
Isso é algo com que ele jamais sonhou. Nunca lutou contra isso, mas a postura que manteve enquanto a banda existiu de fato, lá no começo dos anos 70, indicava justamente o que muita gente imagina: um rebelde punk disposto a romper com tudo.
“The Stooges é um bom retrato de como a música mais radical surgiu na improvável Detroit e de como o som mais pesado e furioso era necessário em temos de guerra e “flower power”. E nos lembra como o som pesado e furioso continua sendo necessário quase 60 anos depois.