Inocentes, 40 anos depois, ainda atual e necessário

Em algum momento de 1986, um adolescente pegou um ônibus em São Bernardo, desceu no bairro do Ipiranga, depois pegou outro ônibus até o metrô Santa Cruz e, dali, seguiu para o Centro Cultural São Paulo.

Naquela tarde, aconteceu um festival reunindo diversas bandas da cena underground paulistana: Akira S & As Garotas que Erraram, Voluntários da Pátria, Ness, Muzak, Ira! (com o recém-lançado “Vivendo e Não Aprendendo”. À medida que a noite ia se aproximando, vários punks, com seus moicanos e jaquetas de couro começaram a chegar, para o show que encerraria a programação: os Inocentes, que ainda não haviam lançado seu primeiro EP “Pânico em SP”.

Corta para o ano de 2026 e os Inocentes estavam novamente no mesmo palco, para um show/celebração. São quarenta anos de “Pânico em SP”, 30 anos da formação atual e, mais importante que isso, Clemente Tadeu estava no palco, depois de ter sofrido um grave acidente cardíaco no fim do ano passado, em Campo Grande (MS).

Em um horário (19h) bem favorável para quem está saindo do trabalho, em um local de fácil acesso pelo metrô, o auditório Adoniran Barbosa estava cheio de velhos e novos punks, amigos e fãs da banda, pra assistir uma banda que esbanja entrosamento e amplo domínio do palco. Apesar do alto volume das guitarras de Clemente e Ronaldo Passos, se ouvia a plateia gritando a plenos pulmões os versos de músicas como “Miséria e Fome”, “Garotos do Subúrbio” e “São Paulo” (cover do 365, mas como bem disse Clemente: “muita gente pensa que essa música é nossa”. As letras das músicas, mesmo quarenta anos depois, mostram que os problemas estruturais do Brasil continuam aí, à vista de todos:

“Pátria Amada, de quem você é afinal
É do povo nas ruas ? Ou do Congresso Nacional
Pátria Amada, idolatrada, salve,salve-se quem puder!”

Ariel O Invasor, velho companheiro desde os tempos do Restos de Nada, considerada a primeira banda punk do Brasil, subiu ao palco em duas ocasiões, pegando emprestado o lugar de mestre de cerimônias da noite e comandou o pogo em “Restos de Nada” e “Miséria e Fome”.

Pouco antes do início da parte do show dedicada ao EP “Pânico em SP”, Clemente, o homem que em 1982 escreveu que “estamos […] aqui para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”, cantou, acompanhado somente por sua guitarra, os versos de “Sujeito de Sorte”, de Belchior: “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”.

Ainda bem, Clemente. Ainda bem.

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