Jazz Sabbath, ao vivo, fica anda melhor

Riffs de guitarra que pesam uma tonelada transformados em fraseados e solos de piano no mais legítimo jazz – e sob imnsos e intensos aplausos em casas de concerto por toa a Europa. Ninguém imaginava que o Black Sabbath se tornaria cult de uma maneira inusitada.

O projeto Jazz Sabbath, que nasceu de forma despretensiosa em 2018, cresceu e chega ao quarto trabalho, o primeiro ao vivo, reverenciado como uma das ideias mais bacanas envolvendo uma banda clássica de rock. “Live” é simples, direto e maravilhoso, unindo dois mundos aparentemente incompatíveis.

No palco, executadas por um trio de jazz – piano, baixo e bateria -, as músicas do Black Sabbath ganham contornos inusitados de sofisticação e de excelência, sendo praticamente reinventadas.

Quem inventou a situação foi o tecladista Adam Wakeman, que foi músico de estúdio e turnês de Black Sabbath e Ozzy Osbourne neste século. É o filho mais novo do também tecladista Rick Wakeman, ex-Yes. Que se tornou grande amigo dos quatro músicos do Black Sabbath no começo dos anos 70.

De forma despretensiosa, Adam começou a brincar com as canções do Black Sabbath no formato jazz ragtime, criando arranjos inusitados e engraçados para coisas pesadíssimas como “War Pigs” e “Fairies War Boots”. O pai, Rick, logo percebeu o potencial e incentivou o filho a prosseguir, assim como amigos produtores do garoto.

Tudo no projeto é despretensioso e divertido, mas encarado com bastante seriedade da a excelência das “criações”. Dá até mesmo para rir da fictícia história de fundo do Jazz Sabbath.

A lenda “oficial” afirma que o icônico catálogo inicial do Black Sabbath foi originalmente roubado de um trio de jazz underground de curta duração da década de 1960, que ressurgiu tardiamente na década de 2010 para apresentar a música da maneira como ela sempre deveria soar.

“Live” é uma delícia e incrementa canções icônicas com arranjos de extremo bom gosto e com alto grau de complexidade. Deixando de lado as guitarras e os metais que adornaram suas gravações de estúdio, este show ao vivo apresenta o trio simplesmente adaptando tudo sem firulas.

Eles não perdem tempo e vão direto às raízes mais antigas da música — a apresentação começa com o próprio “Black Sabbath”, irrompendo com toda a intensidade e ímpeto que tornaram o álbum de estreia da banda tão perturbador em 1970, antes de transformá-lo em um blues suave para o fim da noite. Inevitavelmente, o ambiente ao vivo os impulsiona a voos em direções cada vez mais fantasiosas.

“Behind the Wall of Sleep” beira brevemente um devaneio tranquilo antes de retornar ao sombrio; “Paranoid” alterna sua batida lasciva com um ar de mistério; “Rat Salad” se torna uma epopeia alucinante que ultrapassa vários quase-finalizações porque, aparentemente, ninguém quer que ela termine.

Em meio a uma dose de drama articulado, o tom mais insistente aqui é de alegria e diversão. De uma versão elegante e sofisticada de “Fairies Wear Boots” a um “Iron Man” com um swing inédito, os ritmos são irresistíveis e todos estão claramente se divertindo muito. O espírito das músicas permanece intacto mesmo quando suas formas se tornam quase irreconhecíveis. Se o espírito do falecido Ozzy Osbourne estivesse presente em toda essa turnê, ninguém sabe ao certo se ele estaria gargalhando como um louco ou simplesmente rindo de alegria. Além de Wakeman formam o trio o baterista Arthur Nwewll e o baixista Jack Tustin.

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