No começo era uma coisa genérica, com a aplicação de rótulos para tentar entender enquadrar aquela música instigante e insinuante. Era rock instrumental de qualidade, mas os guitarristas americanos Link Weay (1929-2005) e Dick Dale (1937-2019) foram marcados como “surf music”. Tentaram fazer o mesmo com os britânicos da banda The Shadows.
Como classificar então músicos brasileiros qe fazem uma salada bem bolada com rock, jazz, reggae e muito tempo regional nordestino em pleno século XXI? Essa é a última preocupação da banda potiguar Camarones Orquestra Guitarrística, uma das coisas mais vibrantes da música nacional deste século. O som da banda é daqueles impossíveis de ficar indiferente. N]aop para ficar parado.
“Samburá é o mais recente trabalho de estúdio e tem uma característica inerente a artistas como Bixiga 70 e Metá Metá: a música que coloca imediatamente um sorriso no rosto quando se escuta.
Esse trabalho continua mostrando música ensolarada e positiva, mas é mais pesado e menos “surf rock”, digamos assim. Os timbres estão mais próximos de melodias roqueiras, como se o Clube da Esquina incorporasse um pouco do espírito dos Novos Baianos.
“Adoro ouvir que a nossa música provoca sorrisos”, diz a baixista Ana Morena. “Qualquer dificuldade some quando conseguimos alegria e alto astral a um público receptivo e ansioso por ouvir coisas diferentes.”
Com quase 20 anos de trajetória e inúmeras turnês nacionais e internacionais, ainda existem nichos que consideram a música da banda exótica”, mas isso é algo há muito superado. “As tentativas de rotulagem soam precipitadas e imprecisas. Fazemos música instrumental com várias influências e isso basta”, explica a baixista.
Sambuirá” é diferente na discografia da Camarones porque aposta em uma sonoridade mais rock, com timbres mais pesados e riffs mais diretos. Tem muita coisa de reggae e música brasileira, mas o acento jazzístico predomina em praticamente todas as músicas. A música não perdeu a urgência e a concisão, mas está mais sofisticada, o que é um tremendo ganho ao ótimo trabalho que sempre realizou.
Ana acredita que o tempo pode ser uma ilusão, mas que ajudou a calibrar o desempenho nos palcos e as composições. “Deixo para o público a percepção de que mudamos e melhoramos. Evolução talvez seja o termo mais preciso. O som cresceu e houve expansão de limites e horizontes. É maravilhoso constatar isso.”
O lançamento de “Samburá”” chega acompanhado de uma turnê por oito estados brasileiros, passando por festivais como DemoSul, SPIM, Bananada, Natal Instrumental, Alumiô e DoSol, além de casas que integram o circuito da música independente.
O título do álbum faz referência ao tradicional cesto utilizado por pescadores para guardar os peixes. Em Samburá, a imagem funciona como metáfora para as experiências reunidas pela banda ao longo de quase duas décadas de circulação.
Gravado entre Natal, Brasília e São Paulo, o disco apresenta nove faixas instrumentais que transitam entre rock, guitarrada, cumbia, rocksteady, dub e diferentes referências da música latino-americana e brasileira.
“A gente já está em ritmo de comemoração dos 20 anos do Camarones, e Samburá abre esse novo ciclo da banda. Chegamos a essa fase com uma nova formação, um disco inédito e já preparando um projeto especial para 2027. Seguimos fazendo o que a gente mais gosta: tocar, circular e continuar em movimento. Ainda temos muita história para contar e muita coisa para fazer.” comenta Ana Morena
No palco, o repertório do novo trabalho se mistura a músicas de diferentes momentos da trajetória da Camarones. Os shows mantêm a característica que acompanha a banda desde o início: apresentações marcadas pela intensidade, pelo diálogo entre estilos e pela liberdade para explorar diferentes caminhos dentro da música instrumental.
Criada em Natal (RN), no fim de 2007, a Camarones Orquestra Guitarrística construiu uma trajetória marcada pela circulação constante e pela produção autoral. Antes de Samburá, lançou oito discos de inéditas e realizou turnês pelo Brasil e por países como Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Suíça, Argentina, Uruguai e Chile. Também participou de festivais como Primavera Sound (Barcelona), Liverpool Sound City, Rock in Rio, Bananada e Se Rasgum.
Nos últimos anos, a banda ampliou seu diálogo com diferentes cenas musicais. E
m 2022, lançou Oh Sorte, álbum gravado em parceria com Manoel Cordeiro. Em seguida, foi contemplada pelo edital Pixinguinha, da Funarte, com o projeto Camarones Convida e Toca Junto, que promoveu encontros com artistas de diferentes regiões do país e resultou em um EP e um documentário lançados em 2025.
“É um disco potente, feito devagar e pesando pra ser tocado ao vivo. Estamos muito satisfeitos com o resultado e ansiosos pela tour.” complementa o guitarrista Anderson Foca.