O ano que marca os 40 anos da rápida passagem do vocalista americano Ray Gillen pelo Black Sabbath ensejou mais uma redescoberta da ótima banda de hard rock Badlands, crida pelo guitarrista Jake E. Lee, ex-integrante da banda solo de Ozzy Osbourne.
Nome subestimado do hard rock oitentista, a Badlands era americana, mas em nada se parecia com os grupos da Califórnia, espalhafatosos e exagerados, som sonoridade excessiva e explosiva.
A referência eram as bandas dos anos 70, como Led Zeppelin e Deep Purple, com guitarras bem timbradas e vigorosas, mas sem compressão excessiva. Hard rock puro, festivo, positivo, mas também crítico e pesado.
Os três álbuns da Badlands estão sendo relançados novamente nas plataformas digitais, primeiro no Japão e depois na Europa. São pérolas de rock em estado puro, sem firulas e com produção enxuta, mas muito eficiente.
Está revista a reedição em CD em versões limitadas, mas sem, material extra, especialmente a de “Dusk”, o terceiro álbum, que anos atrás saiu em CD em edição caprichada, com material de primeira tanto na mídia como na parte gráfica, além de a masterização em si ser a de qualidade japonesa – ainda a melhor do mundo para CDs.
Mas o que chama a atenção mesmo é o investimento em Badlands quase 40 anos depois – uma banda efêmera e até obscura, dependendo do ponto de vista.
Criado para ser um supergrupo de hard rock – supergrupo no conceito de reunir músicos já famosos e conhecidos por trabalhos anteriores -, teve bons resultados com o primeiro trabalho, “Badlands”, de 1989. As principas músicas eram “Winter’s Call”, “Hardwire” e “Street Cry Freedom”
O segundo, “Voodoo Highway”, de 1991, excelente, foi ignorado pelo público, apesar de boas vendas de ingressos na turnê norte-americana daquele ano.
“Dusk”, o projeto abortado, foi gravado em 1992, mas foi engavetado devido ao fim litigioso da banda no começo de 1993.
O grupo foi fundada por Jake E. Lee (guitarra, ex-Ozzy Osbourne), Ray Gillen (vocal, ex-Black Sabbath) e Eric Singer (ex-Black Sabbath, Alice Cooper e Kiss, entre outros) em Los Angeles.
Gillen vinha de uma experiência frustrante com o Black Sabbath. Chamado às pressas no final de 1986 para substituir Glenn Hughes – afundado nas drogas e com a garganta lesionada por conta de uma briga com o empresário da banda na época -, acabou sendo convidado para gravar o álbum que viria a ser “Eternal Idol”.
Fez todo o trabalho e até ajudou nos arranjos de algumas músicas, mas acabou se desentendendo com Tony Iommi e abandonou o projeto, que foi finalizado pelo inglês Tony Martin, que gravaria outros quatro álbuns com o Sabbath. “Eternal Idol” saiu em 1987.
Depois de colaborar com o projeto Phenomena, de Tom e Mel Galley, juntou-se a Eric Singer, outro descontente com o trabalho com o Black Sabbath, e juntos contataram Jake E. Lee, que ainda curtia a fama de ter tocado com Ozzy Osbourne.
“Badlands”, o primeiro álbum, vendeu bem e teve ótimos momentos, como “Dreams in the Dark” e a já mencionada “Winter’s Call”, esta uma pancada hard com o que de melhor o subgênero produziu.
“High Wire” também foi um bom momento, com Lee inspirado. O baixo ficou a cargo de Greg Chaisson, bastante conhecido na cena hard californiana.
Apesar do sucesso, a química entre os músicos não era perfeita, ao mesmo tempo em que Singer revelava insatisfação com o relativo pouco dinh99eiro e repercussão. Tudo desmoronou muito rápido.
Apesar do sucesso, a química entre os músicos não era perfeita, ao mesmo tempo em que Singer revelava insatisfação com o relativo pouco dinheiro que o grupo fazia então. Não teve dúvidas: arrumou as malas e aceitou o convite de Gene Simmons para substituir Eric Carr, que morreu em novembro de 1991.
A solução foi convidar o amigo de todos Jeff Martin, vocalista do Racer X, banda que teve em sua formação, entre outros, o guitarrista Paul Gilbert e o baterista Scott Travis (atual Judas Priest). Martin também era ótimo baterista, tanto que ajudou diversos músicos como músico de estúdio.
“Voodoo Highway” é ótimo, com músicas bem feitas e puxando mais para o blues. As críticas não foram boas e vendeu muito pouco, o que gerou brigas intermináveis entre Lee e Gillen. No meio da turnê decidiram acabaram com o grupo, mas somente ao final dos compromissos.
Ray Gillen embarcou rapidamente em novo projeto, o Sun Red Sun, banda criada pelo guitarrista Al Romano e que tinha ainda o baixista Mike Starr (Alice in Chains) e o baterista Bobby Rondinelli (ex-Rainbow e Black Sabbath, entre outros). Só que não chegou a curtir o trabalho, pois morreu no final de 1993, em decorrência de complicações com a aids.
Jake E. Lee acabou sumindo de cena, trabalhando com produção musical. Desde então gravou com vários artistas, como convidado, e dois álbuns solo, o mais recente deles “Retraced”, que reúne releituras de vários clássicos de bandas dos anos 70.
Eric Singer tocou ativamente com o Kiss até 1996, quando a formação original do quarteto decidiu se reunir após a gravação do “MTV Unplugged”.
Mesmo irritado, não perdeu o contato com Gene Simmons e Paul Stanley, os chefes do Kiss, mas procurou seu próprio caminho. Formou o Union, com o o guitarrista Bruce Kulick (outro demitido do Kiss em 1996) e com vocalista e guitarrista John Corabi (ex-Motley Crue). Gravaram dois CDs de estúdio e um ao vivo.
Ao mesmo tempo, a mesma formação-base, com alguns convidados, tocava no Eric Singer Project, que era um Union menos sério, que tocava versões de clássicos do rock, tendo lançado um álbum de estúdio e outro ao vivo.
Por fim, Jeff Martin voltou ao Racer X após sair do Badlands, que gravava de forma esporádica nos anos 90. Também cantou com Paul Gilbert, Pat Travers (guitarrista de blues), The Plot (projeto que incluía Pete Way e Michael Schenker, do UFO) e com a banda norte-americana de blues Blindside Blues Band, do guitarrista Mike Onesko.
“Dusk”, o álbum abortado do Badlands, foi editado pela primeira vez, com a anuência dos ex-integrantes, em 1998 no Japão. Virou uma febre entre fãs de hard rock naquele país e motivou a reedição no ano seguinte e o lançamento na Europa. Lamentavelmente, nunca foi editado no Brasil.