As primeiras notas denunciaram que muita coisa tinha mudando, chocando a maioria dos ouvintes. Nem mesmo o maior hit do álbum, que viria a ser o maior da banda, agradou no momento inicial. Por qu tanto tecado? Onde estava a maravilhosa e inovadora guitarra?
As declarações no começo do ano indicavam que o Van Halen prometia mudanças para o sexto disco, e cumpriu o prometido: “1984” incorporava novos conceitos e agregava teclados e sintetizadores, além de refinar o humor e deixar as letras menos óbvias.
Uma nova versão do disco está no mercado agora, remasterizada e remixada, reforçando a sua importância dentro d discografia do Van Halen.
Não há faixas bônus e o som não tem grandes alterações, sendo que as canções originais ganharam mais força e alguns arranjos e instrumentos secundários ficaram maios nítidos. Com isso, é possível perceber a qualidade das linhas de teclado que permeiam todo o álbum – os quatro eram músicos acima da média, mas o guitarrista Eddie Van Halen era o motor e o gênio do grupo.
Com performances inovadoras, química contagiante e quatro singles de sucesso, 1984 testemunha a banda incorporando elementos de sintetizador que o guitarrista Eddie Van Halen vinha defendendo — além de unir perfeitamente as sensibilidades do pop e do metal em um todo melódico coeso.
Um marco que nunca envelheceu, 1984 soa tão fresco, divertido e inovador quanto na Era Reagan. Produzido a partir das fitas analógicas originais e acondicionado em embalagem gatefold no estilo mini-LP, a edição numerada da Mobile Fidelity SACD híbrido apresenta o último álbum do grupo com o vocalista David Lee Roth por quase quatro décadas com som definitivo. Você nunca ouviu 1984 tão claro e direto em disco.
As características marcantes do Van Halen — o estrondo dinâmico, as tonalidades distintas, os detalhes vívidos, a imediaticidade que revigora os sentidos, a irreverência divertida, o impacto nos médios, a intensidade avassaladora — emergem com uma presença e vivacidade envolventes.
Desde as primeiras notas da atmosférica faixa-título, precursora do monumental hino sintetizado (“Jump”) que se segue, David Lee Roth, Eddie Van Halen, Michael Anthony e Alex Van Halen estão em plena forma até o álbum encerrar com a tempestuosa “House of Pain”.
A faixa final, repleta de energia, é mais uma prova de que não há uma nota desperdiçada ou um momento tedioso sequer — um fato que a crítica e o público aparentemente já sabiam desde o lançamento do álbum em janeiro de 1984, quando as resenhas e as vendas confirmaram o status do Van Halen como o principal grupo de hard rock da época.
“Jump” por si só demonstra o brilho, o talento e a finesse do Van Halen através de linhas de teclado cintilantes, refrões marcantes, vocais coloquiais e uma seção rítmica incrivelmente poderosa. Uma vez que a música te conquista, o grupo se recusa a te soltar por mais de 28 minutos.
A energia eletrizante de “Panama” avança com solos ágeis, duplos sentidos picantes e uma estrutura sonora vibrante que entra em overdrive.
De fato, apesar de sua merecida associação com a incursão do grupo pelos sons de teclado (o sucesso “I’ll Wait”, que chegou ao Top 20, se junta a “Jump” nesse quesito), 1984 te deixa de queixo caído com uma combinação vibrante de energia, vivacidade, sensualidade e surpresas.
Para comprovar isso, basta ouvir “Drop Dead Legs”. Considerada acertadamente por Roth como a música mais funk que o Van Halen já criou, ela hipnotiza com os harmônicos pirotécnicos de Eddie Van Halen, riffs blueseiros, pratos percutidos que evocam palmas e um refrão leve de surf rock, fiel às origens californianas do grupo.
Van Halen também “Hot for Teacher”. Iniciada com um dos solos de bateria mais famosos da história — uma blitz de 30 segundos marcada pelos rolos de bumbo duplo superpotentes de Alex Van Halen, que bebem de influências huffle, boogie e metal — que desemboca em outro segmento com efeitos de sala de aula e improvisos de Roth, o clássico estrondoso personifica tudo o que há de inimitável e grandioso em Van Halen, “1984” e no rock ‘n’ roll solto, exuberante, vivo e incendiário. Que reine para sempre.