Papangu e o desafio de ser vanguarda e mergukar nas raízes regionais

O novo arromba as portas do rock brasileiro sema menor cerimônia e o Nordeste está na vanguarda. Papangu e Jurema Juice se juntam a Naimaculada e Black Pantera, bandas do Sudeste, como os artistas da linha de frente na inovação e na busca por sons provocadores 9e diferentes.  

Em “Celestial”, os paraibanos do Papangu reinventaran uma forma de fazer rock progressivo emaranhado em detalhes regionais e brasileiros que que spam diferentes de tudo o que é produzido no Brasil atualmente. 

Não é som de vanguarda no sentido mais amplo, termo que os integrantes eviram, mas é experimental o suficiente para encaixar vocais de heavy metal em bases sonoras que variam do jazz ao baião. Tudo é bem encaixado e equilibrado, imprimindo uma sensação de viagem cósmica.

As referências musicais são tantas que compõem um mosaico enorme, contemplando muitos públicos cenários. A riqueza e a versatilidade são evidentes sem que necessariamente a guitarra seja o principal condutor.

“Mau Olhado” é a canção emblemática”, encharcada de nordestinidade e regionalismos embalada por uma base psicodélica que tanto fez a famas do rock nordestino dos anos 70 e 80. Os destaques são um destaque à parte, com bases muito bem construídas, coisa que se repete em “Colosso” e “Celeste”.

Nesta última, o clima de baianidade dá um molho extra em cima de guitarras urgentes onde riffs e solos quase se confundem – quer coisa mais progressiva do que isso?

Há muitas pérolas em “Celestial”, que merece um aprofundamento e uma imersão para que todos os detalhes sejam apreciados sem moderação. Assim como o Black Pantera, é a grande novidade do rock nacional dos últimos dez anos

Em seu terceiro álbum a Papangu abre um universo de possibilidades ao dispensar atalhos digitais em favor de um trabalho artesanal analógico arrebatador.

Papangu (Foto: divulgação)

Dando sequência ao seu impactante álbum de estreia de 2021, “Holoceno”, e às fábulas percussivas de “Lampião Rei”, lançado três anos depois, “Celestia” exibe as técnicas exploratórias do grupo — incorporando jazz de atmosfera espacial e instrumentos folk ricos em texturas —, remetendo ao rock progressivo experimental das décadas de 1960 e 1970 sem cair na dependência excessiva da nostalgia retrô.

Sua música traz, sem dúvida, traços de King Crimson e a aura cósmica do Magma; contudo, a banda — originária de João Pessoa — alinha-se, em última análise, ao cânone psicodélico do Nordeste brasileiro, estabelecendo uma ponte entre a tradição acústica e a inovação eletrônica construída por pioneiros como Lula Côrtes e Zé Ramalho.

Nesse sentido, ao longo de “Celestial”, ritmos regionais como o forró e a ciranda ganham tanto — ou até mais — destaque do que o rock progressivo europeu e o “zeuhl” com os quais a banda pode ser comparada.

Assim como em trabalhos anteriores, os vocais guturais de Hector Ruslan oferecem um contraponto em staccato à interpretação melódica de Rodolfo Salgueiro; a bateria de influência grindcore e os solos de guitarra intensos contrastam com órgãos Hammond, o som metálico do triângulo e até mesmo o guincho agonizante de uma galinha de borracha.

Logo de início, a Papangu traça uma rota em direção ao coração do Sol com “Mau-Olhado” — uma explosão maximalista de sequenciadores vibrantes, batidas de bateria frenéticas e um violão leve e arejado que, muito provavelmente, é a viola caipira de 12 cordas, instrumento comum na MPB.

Em seguida, surge “Colosso”, um poema cheio de groove sobre como canções vindas de além-mar corroeram a imponente maravilha da antiguidade até que ela fosse, por fim, “castrada e desmontada”.

A mensagem central é um alerta contra o abandono dos próprios costumes em favor de novidades importadas — uma armadilha na qual a América Latina, região há muito assolada pela desigualdade de renda e pelo desejo de emular o “Primeiro Mundo”, frequentemente cai. Esse sentimento é mais explícito em “Taxidermia”, uma crítica contundente a demagogos políticos e oligarcas da tecnologia.

Mais adiante, ele reflete sobre como os retratos separam o homem da vida (“verniz e formaldeído com tinta e pincel”), sugerindo o vazio de um mundo digital e vertical.

A revolta da Papangu contra a máquina é bastante literal; a banda excluiu totalmente os computadores da criação de “Celestial” como um manifesto artístico contra ferramentas de IA e a otimização que esvazia a alma.

Ao optar por instrumentos vintage, gravar ao vivo em fita magnética e realizar a masterização de forma totalmente analógica, o grupo oferece um lembrete poderoso de que a arte é — e deve ser — um processo desafiador.

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