Polarização política: os caminhos distintos dos fundadores do metal nacional

Dorsal Atlântica (foto: divulgação)


A concepção inicial tinha muito a ver com o que os punks pregavam: liberdade, autonomia e justiça social, entre a principais bandeiras. Há 45 anos, não havia sofisticação e erudição nos jovens que se movimentavam para combater, driblar ou mesmo se defender de uma brutal ditadura militar, ainda que que caindo aos pedações.
Quando os punks dominavam o discurso e o rock nacional inda não existia antes da explosão da Blitz, o heavy metal brasileiro foi criado quase à força em dois lugares tão diferentes e distantes em 1981: o Stress surgia na improvável Belém, no Pará, e a Dorsal Atlântica começava a se formar no Rio de Janeiro. Dois lados da mesma moeda, e tão diferente e opostas como poderiam ser.

O tom era de protesto, com o Stress manifestando uma consciência ambiental e ecológica de cedo, mas jamais abandonando um viés nacionalista que desembocaria anos mais tarde no centro do extremismo político de direita.

No caos da Dorsal, com seus integrantes imersos nos devaneios da política nacional em pleno Rio de Janeiro, a repulsa à ditadura e ao regime militar sempre estiveram presentes, além d forte consciência social por conta da profunda desigualdade e dos abismos econômicos existentes no país. Para seu líder e fundador, o guitarrista Carlo Lopes, era inevitável que o tom das letras e dos temas tivesse um viés progressista.

As origens são distintas e a distância é quase interplanetária, mas os fundamentos iniciais revelam algumas conexões que unem todas as tribos de metal pelo mundo, então o que explica o fosso musical e sociopolítico entre as duas bandas – uma é radicalmente progressista e a outra aderiu de cabeça ao bolsonarismo golpista e criminoso.

Para muita gente é inconcebível rock de direita, muito menos metal e punk de direita, ainda mais com viés fascista. Mas isso existe, e é mais disseminado do que se imagina.

O baixista e vocalista Roosevelt Bala, que segura o Stress desde a fundação, é um explícito e ferrenho defensor dos ideais liberais em termos econômicos e do empreendedorismo. Tem ódio mortal da esquerda e do PT e não teve pudor em aderir ao bolsonarismo, por mais que não se manifeste sobre as tentativas de golpe de Estado empreendida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso.

Sua posições são claras em suas posições sociopolíticas, embora haja a contradição de ser um defensor da Amazônia e da ecologia e, ao mesmo tempo, ter simpatia com o agro e com as posturas e política depredatórias do meio ambiente da extrema-direita, como o bolsonarismo prega.

Carlos Lopes vivenciou o pesadíssimo clima politico da ditadura no Rio de Janeiro e criou a Dorsal Atlântica em 1981 como meio de extravasar a frustração de vida sem liberdade política, de violência e medo, por mais que se soubesse que o regime militar estava desmoronando.

Foto: divulgação

Era natural, portanto, que a agressividade e a violência sonora do heavy metal carioca tendesse para a esquerda e para o progressismo, fato que se consolidaram ao longo dos últimos 45 anos. Dorsal Atlântica é uma das bandas de rock mais engajadas e ativistas do Brasil e seu discurso é impactante ao denunciar atentados aos direitos humanos e a profunda desigualdade social que permanece no Brasil.

Roosevlt Bala parece não se importar com a vinculação do nome do Stress a ideologias autoritárias e gente que despreza a democracia, defendo crimes como golpe de Estado – contrariando os ideai que sustentam o rock na luta contra o sistema. Bala tem noções peculiares do que seja o “sistema” e a liberdade de expressão.

A Dorsal Atlântica é mais coerente com seu passado e com a atitude roqueira desde sempre. Band de protesto e com letras e temas contundente, sempre se perfilou no campo progressista, com discurso pró-democracia e direitos humanos, com valorização dos discursos das minorias. Natural que seja considerada uma banda identificada com a esquerda.

Não houve um fator determinante para que as duas primeiras bandas de heavy metal brasileiras, criadas praticamente no mesmo ano, se desviassem fortemente uma da outra em termos ideológicos, mas chama a atenção a radical divergência entre os grupos que supostamente, em algum momento, compartilharam ideais musicai e estéticos em termos de arte.

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