Um deles teve de conviver com o rótulo de “punk de butique” e suportar cuspes e xingamentos ao abrir um show dos Ramones em São Paulo. O outro precisou superar desconfianças eternas de que era apenas um rostinho bonito, mas de poucos hits, depois que sua banda acabou precocemente pela primeira vez depois de um imenso sucesso.
Por isso, nada mais apropriado do que “Nada Foi em Vão”, o título do mais recente trabalho autoral de Supla, que completa 60 anos, sendo 42 dedicados ao rock and roll, e também a Paulo Ricardo, um pouco mais velho, esbarrando nos 45 anos de carreira. São os outros lados da resistência roqueira dos anos 80 ainda nativa.
São dois artistas que simbolizam a resiliência mais do que as grandes bandas que mantém público grande e fiel capaz de lotar estádios. Atuam há mais de 20 anos no underground nem tão underground, mas que estão e estiveram longe dos holofotes mais brilhantes. São exemplo em todos os sentidos para artistas novos que nem sonham em viver o que já viveram.
O punk de butique Supla conviveu com o preconceito às avessas por ser filho de políticos e de ter crescido na classe média altapaulistana. Como pode um punk morar no jardim América, em São Paulo, e querer fazer música de protesto?
Supla foi em frente e abraçou o pop rock mais acessível, oscilando entre canções estritamente comerciais e um rock mais pesado e visceral, com resultados acima da média. Nenhum preconceito foi capaz de avariar uma carreira respeitável e digna.
O preconceito por ser um músico fazendo punk rock atingiu um auge quando abriu para os Ramones em São Paulo, em 1996. Liderando a banda americana Psycho 69, foi xingado e alvo de cusparadas o show inteiro, mas se manteve firme e foi até o fim. Depois olhou para frente e seguiu, garantindo que nada foi em vão.
Paulo Ricardo cometeu o pecado mortal de fazer sucesso de uma forma nunca visto neste país, algo que foi considerado intolerável no Brasil – até hoje é assim.
Com o RPM, o baixista e vocalista viveu dias de beatlemania entre 1984 e 1987, com shows lotados e vendas que ultrapassaram um milhão de c[opias nos dois primeiros discos.
Tamanho sucesso não poderia ser aceito e muita gente torceu e atuou contra. Somando-se os excessos típicos de novos astros, a queda veio rápido e a banda nunca mais se recuperou.
Como artista solo, Paulo Ricardo jamais repetiu a performance e o bom momento do RPM, mas se manteve produtivo e atuante.
Mesmo longe da excelência artística, tratou de reverenciar o seu legado e fez o que pôde para lembrar ao público que o RPM foi tão grande quanto os nomes que ainda hoje resistem ao tempo enchendo estádios.
Ao enveredar para o campo da música romântica, conseguiu manter a classe e a dignidade com repertórios sofisticados cercado por músicos de alto calibre. Não erra quem o considera um estilista dentro do rock nacional.
Ao gravar um audiovisual neste mês de julho, em São Paulo, o ex-integrante do RPM sinaliza que s celebrações de seus 45 anos de carreira são mais do que isso – reforça qie nãop só nada foi em vão como deixa claro que seu kegado vai bem além da resistência do outro lado do pop rock nacional.
