Encerrar uma carreira musical no auge n]ao costuma ser uma opção e os casos bem-sucedidos são raríssimos. E a situação não melhhora quando bate a saudade e uma volta, forçada ou não, ocorre anos depois jogando todo mundo no mesmo clichê batido que vemos desse os anos 70.
O Sepultura surpreendeu quando anunciou o encerramento das atividades para 2026 mesmo estando em plena forma e fazendo música boa. Seu último álbum, de 2020, o ótimo “Quadra”, era o melhor da fase om o vocalista Derrick Green e não teve a devida divulgação por causa da pandemia e covid-19, que devastou o mundo entre 2020 e 2022.
“Clouds of Unknowing|”, o EP e despedida com quatro músicas recém-lançado, é um grande epitáfio para a maior de todas as bandas brasileiras e um dos nomes mais cintilantes do heavy metal mundial dos últimos 40 anos. É um trabalho inspirado, de alta qualidade e que faz os fãs colocarem em dúvida se o grupo realmente precisa parar de vez.
Ainda que o guitarrista Andreas Kisser tenha colocado em dúvida a possibilidade de shows esparsos após o fim definitivo – rem presentar uma volta a banda -, a simples chance de não termos mais o Sepultura depois de quatro músicas tão boas provoca rações diversas de que vão da melancolia à indignação.
“The Place”, a primeira a ser divulgada, tinha a força e a contundência para estar em “Quadrs”
E demostrou que o caminho que a banda tomou com a chegada de Green foi o correto, partindo para o metal extremo mesclado com pegadas fortes de metal progressivo e agregando muitos elementos pouco usuais n o heavy metal.
“Beyond the Dream”, surpreendente, é uma balada como o Metallica, por exemplo, nunca fez e tem a colaboração dos Titãs. Quer mais diversidade e diversificação do que isso? Com arranjos interessantes e uma interpretação soberba do vocalista, torna-se um dos pontos altos da longa trajetória do Sepultura.
“All Souls Rising” também surpreende por ser violenta e extrema, mas com a adição de piano, o que torna a situação bem diferente em todos os sentidos. [E o auge do flerte com, o rock progressivo em uma atitude tão simples e e, ao mesmo tempo, visionária.
O piano volta em “Sacred Banks”, que tem também arranjos com metais, que não amenizam a violência sonora. Essa faixa também evidencia um minucioso trabalho de pesquisa musical que tem caracterizado o Sepultura nos últimos anos.
Desde o álbum “Machine Messiah o grupo se esforça para mostrar que a diversidade é fundamental para que o som da banda se modernizasse e avançasse além do heavy metal.
A banda escolheu o lendário Criteria Studios, em Miami, um espaço histórico que já recebeu inúmeras gravações icônicas de diversos gêneros, como cenário para este capítulo final. Produzido pelo amigo e colaborador de longa data Stanley Soares, o EP tomou forma de maneira orgânica ao longo de dez dias no estúdio.
“Nós arranjamos tudo diretamente no estúdio”, lembra Andreas, guitarrista da banda. “Não havia pressão! Nenhuma data de lançamento, nenhum título de álbum, nenhum nome de música. Nós simplesmente compusemos e tocamos. Em uma faixa, nos inspiramos nas influências jazzísticas de Greyson, o que trouxe uma nova dimensão ao nosso som. Foi uma experiência incrível, e estou orgulhoso de que, em nosso último ano, possamos lançar algo tão espontâneo e honesto — e tocá-lo ao vivo em turnê também”, explica Kisser.
O resultado é “The Cloud of Unknowing”, um dos projetos mais diversificados e comoventes do Sepultura. “O nome faz referência a um termo usado em um movimento cristão que aconteceu pouco depois de 1390, e que questiona toda essa parafernalha de livros, imagens e locais sagrados usados para conexão espiritual, dizendo que isso é completamente desnecessário para ter uma conexão direta com a natureza ou com as sensações que criamos e desenvolvemos dentro de nós. É como se a gente estivesse lendo o menu para matar a fome”, explica Andreas.
https://www.youtube.com/watch?v=B2e9kKAV3zU&list=RDB2e9kKAV3zU&start_radio=1
Canções relevantes
Ao longo de quatro faixas, o EP serve como uma despedida agridoce, mostrando todo o espectro da criatividade da banda. Sobre o formato escolhido para o projeto, Andreas Da força direta e impulsionadora de “All Souls Rising”, que explode em momentos de grandiosidade orquestral, até a balada introspectiva “Beyond the Dream”, com seus vocais limpos, o EP reflete tanto a ferocidade quanto a profundidade que definiram o legado do Sepultura.
O vocalista Derrick Green explica os temas por trás de “All Souls Rising”: “A ideia central foi inspirada por um livro de Madison Smartt Bell sobre a rebelião de escravos no Haiti da década de 1780. Em um nível mais amplo, ela aborda o que está acontecendo na sociedade hoje — o quanto pode ser mudado quando nos unimos além de raça, religião e política. Trata-se também das mudanças que podemos fazer dentro de nós mesmos.”
Um sentimento semelhante de reflexão social sustenta a faixa “The Place”, que se desenvolve lentamente. “Essa música trata de imigrantes que chegaram a um lugar em busca de refúgio e para começar uma nova vida. Uma vez assimilados por uma falsa sensação de segurança e por uma propaganda implacável, eles começaram a agir contra o que odeiam em si mesmos. A transição começa com a fuga do ódio a si mesmo e com o ataque às pessoas que acreditavam nas mesmas ideias. Sinto que a letra acompanha verdadeiramente as transições da música. Começando com decepção e chegando à raiva”, esclarece o vocalista Derrick Green
“Beyond the Dream”, segunda música do EP, se destacou entre os fãs por trazer o formato de balada, diferente do estilo clássico da banda. “Era um desejo antigo da banda explorar esse formato, desde que o Derrick entrou trazendo sua capacidade vocal. A gente tinha tentado, mas nunca saiu do jeito que imaginávamos, sempre ia pra um lado mais pesado”, explica Andreas. O guitarrista também comenta a escolha pelo formato EP para o projeto: “É muito comum dentro do thrash metal. Eu tenho vários EPs favoritos com baladas, como “Creeping Death”, onde o Metallica faz a versão da ‘Am I Evil?’; EP ‘Armed and Dangerous’ do Anthrax, que também introduziu uma nova formação da banda; o ‘Haunting the Chapel’ do Slayer, que tem a “Chemical Warfare”.
Dessa vez, a música contou com a colaboração de Tony Bellotto e Sérgio Britto, membros dos Titãs, músicos que possuem uma história compartilhada com a banda e são reconhecidos como especialistas no gênero e compositores de clássicos como “Polícia”: “Eles são da família, compositores espetaculares, escreveram baladas lindas na história dos Titãs. A gente se juntou e o processo foi maravilhoso. É uma honra ter os dois num projeto do Sepultura, de uma forma tão íntima nesse formato, com uma música que saiu maravilhosamente bem. A gente conseguiu realizar esse último desejo antes de acabar”, finaliza Andreas.
“The Cloud of Unknowing” surge como uma declaração final. Sem filtros, destemida e profundamente humana. É o SEPULTURA no seu momento mais reflexivo e livre, oferecendo um último testemunho poderoso antes que a cortina caia.