Ninguém sabe ao certo quem inaugurou a série de convites a veteranos do cinema para cantar ou narrar textos em discos de rock e heavy metal. O tecladista inglês Rick Wakeman convidou nos anos 90 o conterrâneo Patrick Stewart (“Jornada nas Estrelas: Nova Geração” e “ X-Men”) para fazer a narração em uma releitura de “Viagem ao Centro da Terra” nos anos 90.
Quase ao mesmo tempo, George Martin, ex-produtor dos Beatles, chamou o ator escocês Sean Connery (007”, “Os Imperdoáveis”) para declamar os versos de “in My Life” para um tributo à banda e ao próprio produtor. Ficou bem esquisito.
Ao mesmo tempo, produtores de Los Angeçes acharam uma boa ideia chamar omestre inflês dos filmes de terror Christopher Lee para fazer narrações medievais dentro do projeto de heavy metal “Charlemagne – e não é queficou bom?
Quem adorou a ideia de brincar de heavy metal foi William Shatner, também de “Jornada nas Estrelas”, mas da série original. Fez narrações e até arriscou cantar sobre bases pesada de metal, embora tenha se destacado mesmo declamando letras pouco inspiradas.
Shatner, de 95 anos, acaba de lançar “Love and Other Mysyeries”, possivelmente o seu melhpr trabalho nessa área. Fez corretamente o se trabalho, mas claramente cantar não é algo que faça com a mesma competência com que encarno o capitão James Kirk no seriado de TV.
Quem se envolveu mais recentemente com música e gostou foi o venerável ator negro Morgan Freeman (Os Imperdoáveis”, “Operação Lioness”), de 88 anos. Como produtor, reuniu um time estrelado do blues para integrar uma excelente coletânea focada nas raízes do gênero, com prioridade para canções das décadas de 1920 e 1930.
“Morgan Freeman’s Symphonic Blues Experience” tem a mesma importância que a trilha sonora do filme “Sinners”, que retrata a vida americana pós-escravidão nos Estados Unidos. É um resgate importante de músicas que fazem parte da história da humanidade. É um conjunto comovente e emocionante.
Antes de cofundar o hoje icônico Ground Zero Blues Club em Clarksdale, Mississippi, em 2001, Freeman já era um defensor declarado desse gênero musical.
O clube também abriga a Ground Zero Arts Foundation, que auxilia artistas locais de blues com assistência médica e outros tipos de apoio econômico.
Freeman liderou essa iniciativa, combinando o blues cru e visceral que ele promove com um acompanhamento orquestral completo. Embora não pareça haver muitos pontos em comum entre a adesão rigorosa de uma orquestra clássica à partitura e as tendências mais orgânicas e de forma livre do blues, o conceito é único e desafiador.
Alguns talvez se lembrem de quando a Siegel-Schwall Band se uniu à Orquestra Sinfônica de São Francisco para a obra de 1973 “Three Pieces for Blues Band and Symphony Orchestra” — um álbum que rompeu barreiras, mas gerou opiniões divididas devido à sua execução experimental.
“Morgan Freeman’s Symphonic Blues Experience” adota uma metodologia diferente e mais bem-sucedida. Clássicos do blues como “Crossroads” e “Traveling Riverside Blues” (de Robert Johnson), a versão de sucesso de B.B. King para “The Thrill is Gone”, “Dust My Broom” (de Elmore James), “Cadillac Assembly Line” (de Albert King), entre outras, são interpretadas por artistas consagrados do blues.
Alguns nomes menos conhecidos também comparecem e todos fora a um estúdio de Memphis, enquanto a Chineke! Orchestra (o ponto de exclamação faz parte do nome) grava suas partes nos estúdios Abbey Road, em Londres.
Essa abordagem é aprimorada por técnicas de engenharia de som contemporâneas para criar uma integração perfeita, resultando em uma combinação bem-sucedida de duas vertentes musicais distintas.
Freeman e seus parceiros levaram essa proposta para a estrada, realizando 18 apresentações em 2025 e encontrando públicos extremamente entusiasmados.
No entanto, em vez de simplesmente reproduzir essas apresentações em CD, eles recriaram o conceito utilizando o processo de estúdio, mais estruturado e com o uso de overdubs (sobreposição de gravações).