O que costuma fazer um astro de cinema entediado? Cai de cabeça na música, por mais que seu talento seja bem limitado.
Nos últimos anos, porém, gente que ganhou o Oscar (principal prêmio do cinema mundial, concedido pelo mercado norte-americano do setor) ou que ao menos foi indicado tem se dado bem ao deixar temporariamente as telas para encarar os palcos, principalmente no rock.
Jared Leto, norte-americano, guitarrista, vocalista e líder do superestimado 30 Seconds to Mars, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo filme “Clube de Compras Dallas” e já esteve cinco vezes com sua banda no Brasil, em festivais como SWU e Rock in Rio.
Seu pop rock inofensivo agradou ao público brasileiro, mas apenas como curiosidade. Ele tinha ficado cinco anos longe dos filmes, e cogitava seriamente dedicar-se exclusivamente ao rock. Mudou de ideia no final de 2012 e se deu bem – até porque, como guitarrista e vocalista, é apenas mediano.
Quem se deu bem por um tempo na música foi o ator inglês Hugh Laurie, o grande astro da boa série “Dr. House”, que encantou plateias no mundo todo.
No seriado, como o médico instável e genial House, ele demonstrou bastante inspiração em solos de guitarra que fazia no consultório para desestressar, sempre buscando o inspiração no rock clássico e no blues.
E foi o blues que escolheu para começar tardiamente a carreira musical, já no final da série de TV. Gravou dois bons álbuns e faz turnês pelo mundo, tocando mais piano do que guitarra – e não se mostrando tão inspirado assim.
Premiado com dois Globo de Ouro (prêmio concedido por jornalistas estrangeiros, entre outros, que cobrem cinema nos Estados Unidos) e milionário com o sucesso de “House”, Laurie começou a aprender a tocar piano aos seis anos, e aos 10 já estava apaixonado pelo blues, ouvindo muito Muddy Waters e Willie Dixon.
Seu estilo está mais para um jazzista dos anos 40 – aliás, a maior parte do seu repertório e de seus dois álbuns bebe na fonte dos clássicos do blues e do jazz da primeira metade do século XX.
Não compromete, mas também está longe de ser um destaque na cena musical atual, embora seja respeitado por músicos importantes, como Taj Mahal, que participou de seu segundo álbum, “Didn’t It Rain”.

Aqui vai uma pequena lista de astros do cinema que se aventuram pela música e pelo rock, com variados graus de sucesso:
Jack Black – O mais roqueiro de todos os atores de cinema em todos os tempos é Jack Black, astro de “Escola do Rock” (filme no qual se empenhou pessoalmente para viabilizar, produzir e filmar), “King Kong” e de mais de 20 filmes de boa bilheteria. Seu amor pela música é tão grande que mantém uma banda, Tenacious D. Já são três álbuns gravados e uma coleção de videoclipes. O problema é que Black fica se equilibrando nas duas atividades. Ser ator é mais lucrativo, mas ser guitarrista e cantor é mais prazeroso. O Tenacious D, uma banda que mistura folk, punk e heavy metal, teve agenda cheia em diversos festivais de verão nos Estados Unidos nos últimos anos, mas Black nem cogita deixar o cinema.
– John Belushi e Dan Aykroyd – The Blues Brothers – Uma dupla de comediantes que atuava e cantava no programa “Saturday Night Live” e que amava o blues. Nos intervalos de filmagens e participações no programa, inventaram uma banda de brincadeira para se divertir. Só que chamaram alguns amigos da pesada para tocar, e o que era brincadeira virou longa-metragem de muito sucesso e rendeu ao menos dois álbuns, um deles ao vivo. A morte de Belushi em 1982, por abuso de drogas, abortou o criativo grupo, que ensaiou voltas e até um segundo filme em 2000, mas sem o mesmo sucesso.
– Steven Seagal – O astro zen budista que estrela filmes ruins de artes marciais e pancadaria é um razoável guitarrista de blues. Ao lado de uma banda afiada, gravou três CDs, sendo o último “Mojo Priest”, tendo como convidados especiais Bo Diddley e Ruth Brown. Songs from the Crystal Cave”, uma coleção de blues e folk, de 2005, teve a participação de Stevie Wonder.
Keanu Reeves – Dogstar – O astro de “Matrix” é um baixista competente, mas pouco virtuoso. Sua banda, o Dogstar, em hibernação, apostava em um pop rock, com quedinha para o alternativo grunge. Reeves chegou a abrir shows para o Bon Jovi na Austrália. Nada de espetacular.

Johnny Depp – P – O superastro da série “Piratas do Caribe” é um roqueiro fanático e pela guitarra. Começou a tocar aos 10 anos e passou por inúmeras bandas de pop-rock na adolescência. Já como ator, formou a banda P como hobby nos anos 90, com a qual gravou apenas um CD. Também compôs e cantou duas músicas do filme “Chocolate”, que estrelou. Atualmente toca por diversão. Convenceu o amigo Jeff Beck (1944-2923) a gravar um disco em parceria – o último trabalho do guitarrista – e hoje integra como guitarrista e vocalista o Hollywood Vampires ao lado de Alice Cooper e Joe Perry (Aerosmith).
– Kiefer Sutherland – O mundialmente famoso agente Jack Bauer, de “24 Horas”, é um conceituado guitarrista de bar, segundo músicos de clubes de Los Angeles. Entretanto, assim como Depp, trata a música apenas como hobby enquanto toca – é um colecionador de guitarras, tendo mais de 40 em sua casa. Paralelamente à carreira de ator, é empresário de uma obscura banda de rock, Rocco de Luca and The Burden. Sua coleção de guitarras é impressionante e usou parte dela para gravar seu disco mais recente, “Grey, deste ano.
– Steve Martin – O comediante é um fanático por country music e mantém há anos um projeto musical com uma enorme banda. Acaba de lançar um álbum ao vivo com a Step Canyon Rangers, a sua grande banda, ainda mais com a presença da diva country/blues Edie Brickell, que dá um show aqui em uma apresentação em um teatro antigo, com uma sonoridade semiacústica. Brickell quebra bem o galho de Martin, que está longe de ser um bom cantor, mas é um competente violonista e toca banjo de forma satisfatória. A colaboração entre o ator e a musa country é antiga, e teve bons resultados no álbum de Martin, “Love Has Come for You”, do ano passado.
– Juliette Lewis – Estrela de “Cabo do Medo”, “Assassinos por Natureza” e outros sucessos, abandonou quase que totalmente o cinema para ser cantora de rock. Com a banda The Licks gravou três bons álbuns de rock básico, tendendo para o hard rock. “Four On The Floor” é o seu melhor trabalho e teve participação de Dave Grohl (Nirvana e Foo Fighters). Já lançou três álbuns, dois deles com a banda The Licks. Seu hard pop até que é passável, com algumas boas sacadas, mas carece de vigor e de canções de melhor qualidade. Ouça “Get Up”, sua melhor música. Atualmente voltou a fazer filmes, mas sem o mesmo prestígio de antes..

– Scarlett Johansson – Preferida do diretor Woody Allen, com o qual já fez quatro filmes, lançou-se como cantora com a ajuda de amigos músicos da época em que não era atriz. Canta bem e escolhe o repertório com inteligência, soando pop sem ser comercial ao extremo. “Anywhere I Lay My Head”, de 2008, traz dez versões para músicas de Tom Waits, além de uma composição original de Johansson, “Song For Jo”. Em meio a filmagens, encontrou tempo para lançar em 2009 “Break Up”, álbum ao lado do músico Pete Yorn. Anunciou neste ano que pretende lançar novo álbum até meados do ano que vem.
– Bruce Willis – Superastro de filmes de ação, é um entusiasta do blues e do country. Como cantor é apenas passável, e sabe disso, tanto que gravou álbuns onde nitidamente não se levava a sério, mas não faz feito na gaita. Fez dois CDs ao lado da banda The Accelerators, “The Return of Bruno” e “If It Don’t Kill You, It Just Makes You Stronger”. Já fez shows para soldados americanos em bases no Iraque e no Afeganistão, mas já faz algum tempo que tem se mantido longe dos palcos, embora ainda toque em botecos de Los Angeles de vez em quando.
– Kevin Costner – Outro entusiasta do country/blues, o astro de “Dança com Lobos” e de outros sucessos no cinema toca violão, um pouco de guitarra e canta (mal) com a banda Modern West. As apresentações são bem esporádicas e gravaram um CD, “Untold Truth”, de 2008.
– Dennis Quaid – É um dos mais assíduo dos atores roqueiros no palco. Guitarrista e vocalista da banda The Sharks, faz seu repertório baseado no rockabilly e em clássicos dos anos 50. Toca frequentemente em clubes de Los Angeles. Para um amador, até que manda bem no palco. Não tem registro de gravações comerciais.
– Billy Bob Thornton – Ex-marido de Angelina Jolie e considerado um dos melhores atores de sua geração, esteve muito próximo de se tornar músico profissional. Toca bateria e guitarra e passou por várias bandas na adolescência, inclusive uma que fazia covers do ZZ Top, onde era o baterista. Grande amigo de estrelas do rock, montou sua Billy Bob Thornton Band e gravou o CD “Private Radio” (2001), uma mistura de rock sulista com pop radiofônico. Faz apresentações esporádicas e lançou o segundo trabalho em 2003, “The Edge of the World”. Canta melhor do que Steven Seagal, Kevin Costner e Bruce.
– Russell Crowe – 30 Odd Foot of Grunts – Único ganhador de Oscar que ainda toca na atualidade, ao lado de Jared Leto. Astro de “Uma Mente Brilhante” e “Gladiator”, brincou de ser vocalista da banda 30 Odd Foot of Grunts na Nova Zelândia, onde nasceu, e na Austrália, para onde mudou e ficou famoso como ator. Cantor sofrível, mesmo assim cometeu cinco álbuns: “Gaslight” (ao vivo, de 1998), “Bastard Life or Clarity” (2001), “Texas” (2002) e “Other Ways of Speaking” (2003), com a banda, e “My Hand and My Heart” (2005), como artista solo.
– Kevin Bacon – Bacon Brothers – Ator brilhante e versátil, compõe um duo folk/country com o irmão Michael. Juntos desde a adolescência, tocam esporadicamente ao vivo, nas folgas de Kevin no cinema. O trabalho deles merece respeito, é muito bem feito, mas é bem chatinho. Álbuns: “Forosoco” (1997) “Getting There (1999), “Can’t Complain” (2001),”Live: The No Food Jokes Tour” (2003) e “White Nuckles” (2005).

– Peter Stormare – Blonde From Fargo – O ator sueco, que canta e toca guitarra e baixo, tem uma trajetória parecida com a de Billy Bob Thornton. Envolvido com música desde a adolescência, participou de diversas formações que faziam rock clássico, especialmente covers dos Beatles. O sucesso no cinema europeu o levou a Los Angeles em 2000, onde, como coadjuvante, participou, entre outros, de “Fargo”, “Minority Report” e “O Hotel de Um Milhão de Dólares”. Foi nas gravações do filme da trilha sonora que conheceu o U2 e Bono, autores da trilha sonora. Encorajado pelo cantor, Stormare formou a banda Blonde From Fargo com músicos veteranos da cena roqueira da Califórnia. Ainda se apresenta com regularidade em clubes e tem nove músicas registradas no iTunes..
– – Harry Dean Stanton – Harry Dean Stanton Band – Talvez seja o mais profissional de todos os atores que lidam com música na atualidade. Sua banda transita pelo jazz e pelo blues há mais de 15 anos e tem fãs como Ringo Starr e Bono, do U2. Sua voz pode ser ouvida na trilha sonora de “Paris, Texas”, de Wim Wenders, que estrela com Nastassia Kinski, lançado em 1984. Apesar do jeito soturno ao cantar, lembrando Johnny Cash, faz um bom trabalho música.
– Zooey Deschanel – Moça bonita com voz delicada, mas pequena e limitada. Estrelou o filme recente “500 Dias com Ela”, uma comédia romântica tolinha, mas curte mesmo é a música. Já lançou dois CDs em companhia do guitarrista M. Ward na dupla She and Him na linha folk-pop. Foram dois trabalhos bem feitos, mas nada demais.
– Bill Nighy – É o melhor ator-cantor da atualidade, melhor até mesmo do que aqueles que abraçaram a música para valer, como Juliette Lewis e Jared Leto. E o mais legal: não se lançou como cantor, preferindo focar como ator que eventualmente canta. O fato é que o ator inglês de 64 anos surpreendeu a todos como Ray Simms, o vocalista do Strange Fruit, a fictícia banda decadente dos anos 70 retratada no filme “Still Crazy”, de 1998 – “Ainda Muito Loucos” no Brasil. Nighy cantou mesmo as músicas que interpreta no filme e que estão na ótima trilha sonora. Já era muito requisitado, mas o o filme o alçou à condição de celebridade – foi um dos destaques de “Operação Valquíria”, estrelado por Tom Cruise. Em 2004, interpretando Billy Mack, foi um dos principais atores de “Simplesmente Amor” – que teve Rodrigo Santoro – novamente uma decadente estrela do rock inglês. Ele também gravou músicas para a a trilha do filme e um clipe para a canção “Christmas Is All Around Us”.
– David Duchovny – O principal ator da série “Arquivo X” canta razoavelmente bem dentro de uma linha que mistura country e folk urbano, mas sem grandes ambições. Acaba de lançar o álbum “Prince of Pieces”. É mais um que faz da música um hobby

– Vera Farmiga – Estrela da série de terror “Invocação do Mal”, resolveu dar uma forcinha para a banda de metal progressivo do marido e se tornou, meio sem querer, a vocalista da banda The Yagas, que lançou um disco autointitulado. Agradou tanto que não sabe mais de volta às telas ou se fica m tempo integral na banda, Canta vem e ainda compõe parte das letras existencialistas.
– William Shatner – Aos 95 anos de idade, o astro da série de TV “Jornada nas Estrelas” gostou da experiência de declamar letras em cima d bases musicais, entre elas heavy metal. Gravou ao menos cinco discos dessa forma, o último deles recém-lançado, “Love and Other Mysteries”. Não canta nada, apenas declama – às vezes funciona, muitas vezes não.
– Christopher Lee – Nome mais famoso dos filmes de terror na Inglaterra, ao lado de Peter Cusbing, foi surpreendido no anos 90 com a proposta de fazer a narração de textos em cima de bases de heavy metal para uma série de CD batizada de “Charlemagne”, inspirada nos tempos medievais do imperador Carlos Magno, da França. Lee morreu em 2015, aos 93 anos.