Quando formou a banda The Nice, o tecladista inglês Keith Emerson tinha a mesma pretensão que Eric Clapton, o guitarrista esplêndido, teve ao formar o Cream (creme, em inglês). The Nice (no caso, traduzido como “a nata”) :juntar os melhores na melhor banda.
The Nice durou pouco, com apenas três bns álbuns, e terminou como um trio em 1969 – grande grupo, com pretensões progressivas e conexões com a música erudita. Sem guitarra, o trio inspirou a verdadeira “nata” no ano seguinte: Emerson, Lake and Palmer.
A heresia era imensa: rock sem guitarra? Dá para dizer que o trio progressivo representou uma revolução na música pop há 56 anos – aprofundar a conexão com a música erudita com arranjos orquestrais e sinfônicos. Emerson, Laje and Palmer era rock, mas nem tanto. E foi uma grande ideia.
Aspirante a astro, Emerson era espalhafatoso e ambicioso. Sua parede de teclados era portentosa e criava sons e ambientes que preenchiam tudo. Sua sólida formação musical foi o que precisavam Greg Lake e Carl Palmer para desenvolver uma nova ideia a ponto de definir, ao lado do Yes e do King Crimson, o rock progressivo em seu formato mais conhecido.
Greg Lake era um baixista fabuloso e um cantor estupendo que se sentia subestimado e tolhido no King Crimson, Fez um bom trabalho nos dois primeiros discos d banda, mas estava insatisfeito com a rigidez d condução do guitarrista Robert Fripp, o líder. Não precisou de muito apelo para aceitar o convite de Emerson para um novo projeto.
Toda a pretensão do trio pode ser resunido em “Brain Salad Surgery”, de 1972, o quarto disco do trio e aquele que mostra que nunca foi pouca a ambição erudita dos músicos. É um dos pilares do rock progressivo tradicional. O álbum acaba de ser relançado em versão remixada e remasterizada, em tratamento sonoro de luxo.
“Bem-vindos de volta, meus amigos, ao show que nunca termina.” Proferidas pelo baixista e guitarrista Greg Lake, essas palavras sintetizam a teatralidade, a emoção, a grandiosidade e o fascínio que cercam “Brain Salad Surgery”.
Lançado originalmente no final de 1973, o disco mostra o trio assumindo total controle do processo criativo e incorporando diversas inovações em estúdio.
A obra, que alcançou o status de disco de platina, também se destaca como um dos maiores feitos da história do rock progressivo. Sua combinação coesa de musicalidade, composição e produção estabeleceu um padrão que, décadas depois, continua sendo reverenciado tanto por fãs quanto por críticos.
Masterizada no estúdio da Mobile Fidelity Sound Lab na Califórnia, a edição numerada em SACD híbrido de *Brain Salad Surgery* — lançada por esse selo especializado em reedições — apresenta o álbum que Carl Palmer, integrante do ELP, considerava o seu favorito em termos de qualidade sonora para audiófilos.
Nítida, dinâmica e equilibrada, esta versão de colecionador honra a abordagem meticulosa que norteou a execução e a gravação do disco. Ela revela a grandiosidade épica, a profundidade tonal e o elevado grau de virtuosismo presentes na obra.
Características fundamentais — texturas, nuances, efeitos, melodias e mudanças de andamento —, que caminham lado a lado com as composições e a interação musical do trio, são reproduzidas em um palco sonoro amplo e com detalhes precisos.
Escolhida por seu visual inquietante — uma estética que Keith Emerson sentia transmitir a atmosfera da música de sua banda —, a capa “biomecânica” de H.R. Giger é apenas um dos muitos aspectos de “Brain Salad Surgery” que o Emerson, Lake & Palmer garantiu que estivessem alinhados aos seus rigorosos padrões.
Para otimizar o processo de criação do álbum do início ao fim, o grupo fundou seu próprio selo, a Manticore Records. O Emerson, Lake & Palmer também investiu pesado em suas instalações de ensaio.