O Samson foi uma banda daquelas que deveriam ter estourado e influenciado milhões de seguidores. Na onda do renascimento do heavy metal britânico, estava destinada a brilhar e a liderar aquele novo movimento, mas acabou sucumbindo ao maior radicalismo e peso do Iron Maiden. Como punição maior, perderia para os rivais até mesmo o seu segundo maior trunfo, o vocalista.
Liderada por um ótimo guitarrista, Paul Samson, mas não carismático, a banda estava mais próxima, em termos sonoros e estéticos, do Judas Priest.
Samson resistiu a chamar um segundo guitarrista e assistiu atordoado o atropelamento do próprio Priest, do Maiden e do Def Leppard, todos com duas guitarras, gêmeas ou não.
É essa banda controversa que teve, mais uma vez, seus três primeiros CDs lançados. Há alguns anos, a Hellion Records, selo paulistano que já foi uma importante loja de CDs na Galeria do Rock. Os reeditou em CD no Brasil.
“Survivors”, “Head On” e “Shock Tactics” mostram um grupo vigoroso em seu hard’n’heavy temperado por solos furiosos e bons riffs baseados no blues e no classic rock, lembrando levemente alguns momentos do Whitesnake daquela época.
Paul Samson já chamava a atenção no circuito mais pesado de Londres, mas era muito mais cultuado pelos músicos do que propriamente pelo público em si, tanto que “Survivors”, o primeiro álbum, de 1979, não chamou a atenção, embora já trouxesse, em algumas músicas , um novato de voz poderosa, Bruce Dickinson. A versão brasileira, remasterizada, terá nove faixas bônus.
Um vocalista bom de garganta e de palco era o que faltava para a banda, diziam amigos e jornalistas ao guitarrista que se sentia desconfortável como líder e dono.
Dickinson caiu perfeitamente no cargo e a banda deu um salto de qualidade. As letras melhoraram um pouco e o som ficou mais pesado.
“Head On”, o segundo álbum, de 1980, apresenta algumas canções importantes e colocam o Samson entre as principais bandas novas da Inglaterra.
Observando hoje, 40 anos depois, fica claro que faltava alguma coisa para o quarteto, que demorou a descobrir o que faltava, mesmo com um cantor ótimo. A demora foi fatal, e contribuiu para isso a relutância de Samson de entender o momento e abraçar o tal do heavy metal. Ficou para trás.
O segundo álbum era melhor do que o primeiro, mas oscilava na indecisão entre o hard rock setentista e os timbres mais pesados necessários que a concorrência impunha.
Quando a NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal), a nova onda do metal britânico, chegou de forma avassaladora, o Samson ainda estava indeciso, mesmo com o bom “Head On” para divulgar.
Indecisão que não ocorreu com o Saxon, que fazia sucesso no norte do país com seu primeiro álbum e com um som mais encorpado e pesado, com duas guitarras rugindo. Era uma banda de hard, assim como o Def Leppard, e as duas não hesitaram em mergulhar no heavy.
Quando entraram no estúdio para gravar “Shock Tactics”, em 1981, havia tensão no ar e insatisfação artística. O Iron Maiden, desprezado pelos integrantes do grupo, e o Saxon já estavam voando, carregando consigo gente como Tygers of Pan Tang, Angel Witch e Raven. Precisariam ralar para a aproveitar a onda.
O terceiro álbum é o melhor e mais consistente dos três, mas já era tarde para mergulhar na nova onda. Samson ainda relutava em adicionar peso e mais guitarras e a falta de canções memoráveis, coisa que nunca faltou ao Judas Priest, ajudaram a pregar o rótulo de cult ao Samson.
O som quase punk do Iron Maiden desagradava a muitos músicos das “antigas” na cena e não encantava Bruce Dickinson, mas o vocalista não pestanejou quando, surpreendentemente, foi abordado por Steve Harris, o baixista do Iron Maiden, e o empresário Rod Smallwood ao final de um festival com o convite para assumir s vocais do Iron.
Semanas depois, o Samson, com a perda irreparável, quase implodiu e entrou em um período sabático. Prosseguiu por alguns anos, meio cambaleante, mas conseguindo se segurar com a aura cult, mas nunca explodiu, infelizmente. O guitarrista morreu em agosto de 2002, aos 49 anos, em consequência de um câncer.
Em um ano pavoroso para o mea em arcado musical, em todos os sentidos, é uma boa notícia a chegada em CD, pela primeira vez no Brasil, dos mais importantes trabalhos do Samson.