Alabama Shakes e Bywater Call revitaliza o rock temperado com soul music

O som é vigoroso e envolvente, trazendo uma nova abordagem para o rock baseado na souk music americana – ok, o som nem é novidade e inovador, mas soa fresco e jovial nos trabalhos de Alabama Shakes e Bywater Call, duas forças da música da América do Norte na atualidade.

Os americanos do Alabama Shakes são veteranos e estenderam hiato criativo em busca de novas inspirações, dando a oportunidade para a vocalista e guitarrista Brittany Howard lançar discos solo melhores do que alguns trabalhos os da banda.

O novo álbum, “I Must Be Dreaming”, é um mergulho profundo na melancolia e n dores românticas de amores frustrados e impossíveis, É quase todo formado por baladas introspectivas que mudaram a forma de Brittany interpretas canções. Muita coisa é semiacústica e delicada, colocando a cantora no papel de diva.

Quando o Alabama Shakes surgiu com o groove sulista de “Hold On” no início de 2012, os integrantes mal eram mais velhos do que os rapazes e moças que deram nome ao seu álbum de estreia.

É verdade que o guitarrista Heath Fogg estava chegando aos 30, mas Brittany Howard cantava sobre a surpresa de ter sobrevivido até os 22 anos sob a perspectiva madura de quem tinha apenas 23.

Eles evoluíram rapidamente, passando, em apenas três anos, de um início de soul rock essencial e ágil para o psicodélico e grandioso “Sound & Color”.

Um álbum nascido de uma visão audaciosa e de uma execução confiante, que remetia às fusões musicais alegres há muito originárias de sua região, especialmente um pouco mais ao norte, em Muscle Shoals e Memphis.

Howard deu continuidade a essa busca com dois álbuns solo marcados pela colaboração intensa nos quais o spiritual jazz e um pop peculiar preenchiam as lacunas deixadas pela banda.

Em seu primeiro álbum em 11 anos, o Shakes não tenta retomar exatamente de onde parou, mas sim começar de onde estão agora — chegando ou ultrapassando a marca dos 40 anos em meio à atmosfera sombria da segunda “América” ​​de Trump.

Transitando de um soul caseiro e melancólico sobre amores perdidos para um rock inquieto, impulsionado por batidas de disco music e guitarras pós-punk, e indo de baladas doces a hinos geracionais, estas 11 canções lidam com as exigências da vida adulta.

Howard ora protege, ora entrega o coração em uma sequência notável de faixas (“Friends” e “Easy”) e confronta as primeiras noções de moralidade.

O testemunho mais notável dessa evolução é um trio de canções sociopolíticas, espalhadas por esses 48 minutos como pilares de sustentação.

A faixa de abertura, “Tea Time”, é uma prece; sua batida boom-bap serve de pedestal para a visão de paz e felicidade de Howard. Perto do final, “American Dream” é uma crítica contundente que cresce em intensidade; Howard brada uma série de mazelas nacionais — como salários irrisórios e a abundância de armas — ao som de uma bateria que parece tentar afastar uma desgraça iminente.

Mas a peça-chave é “I Feel Hope Coming”, uma rara canção de protesto que soa natural e espontânea, ao mesmo tempo em que cumpre seu papel de motivar. Howard defende o ar limpo, descarta “bichos-papões” fictícios e resgata mantras da era Obama sobre esperança e amor em um refrão cativante, trazendo uma mensagem essencial de incentivo.

Bywater Call (Foto: divulgação)

Exaltação da esperança

O canadense Bywater Call, um grupo de sete integrantes que é uma verdadeira potência do roots-rock, reafirma sua posição com “Broken Souvenirs”, seu quarto álbum de estúdio.

É um disco que mistura com segurança rock, southern soul, blues, funk e a sensibilidade de compositores e intérpretes. No centro de tudo está a vocalista Meghan Parnell, uma das melhores vozes da atualidade. Ela possui uma voz impressionante — lembrando Susan Tedeschi, mas com uma pegada mais incisiva.

Sua interpretação é carregada de alma e potência, mas ela sabe dosar a intensidade quando necessário. Com um senso de *timing* inato que remete a Aretha Franklin, seu fraseado é impecável. Ou você nasce com uma voz como a de Parnell, ou passa a vida inteira tentando alcançá-la.

Formado em Toronto em 2017 pelo guitarrista Dave Barnes e por Parnell, o Bywater Call conta também com Bruce McCarthy (bateria), Mike Meusel (baixo), Andrew Moljgun (teclados), Stephen Dyte (trompete) e Julian Nalli (sax tenor).

Juntos, eles formam um grupo extremamente entrosado, sentindo-se tão à vontade para mergulhar em grooves profundos de southern soul quanto para explorar narrativas inspiradas no folk e hinos de rock.

“Broken Souvenirs” é, em sua essência, uma exploração da experiência humana. A banda transita com naturalidade entre faixas eletrizantes e cheias de groove e baladas introspectivas, sem perder sua identidade.

A reputação crescente da banda é mais do que merecida. O Bywater Call conquistou indicações consecutivas ao prêmio “UK Blues Award” de 2025 na categoria Artista Internacional de Blues do Ano, além de várias indicações aos prêmios “Independent Blues” e “Canadian Maple Blues”, incluindo Artista do Ano e Melhor Vocalista Feminina. “Broken Souvenirs” sucede o álbum “Shepherd”, lançado em 2024 e aclamado pela crítica.

A faixa de abertura, “Hold Me Down”, demonstra imediatamente o que torna esta banda especial. Construída sobre uma base de *soul* retrô, a música apresenta uma seção rítmica dinâmica, metais impactantes, vocais de apoio ricos e uma conexão inegável entre Parnell e o “groove”. É a introdução perfeita para o talento musical presente no álbum.

Um clima completamente diferente surge com “Is This Thing On?” Uma balada intimista construída em torno do violão e de arranjos de cordas, a música captura a vulnerabilidade de lançar sua arte ao mundo e torcer para que ela crie conexões.

Parnell entrega uma de suas interpretações mais comoventes ao cantar: “Se não conseguirmos manter tudo unido, será que algum dia sairemos daqui?” A canção remete aos grandes cantores e compositores da década de 1970.

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