O padrão estabelecido pelo guitarrista Joe Bonamassa neste éculo para o blues rock neste século – guitarras onipresentes e pesadas – domina o mercado há pelo menos 20 anos, contaminando até mesmo o amigo e veterano Eric Gales, també, americano. Ou tem guitarra demais ou solos blueseiros em excesso.
O grupo Ghost Hounds e o veterano guitarrista Albert Castiglia procuraram fugir do estereótipo em seus mais recentes lançamentod e quase conseguiram inovar em um subgênero fossilizado e com pouca margem de manobra. Entretanto, seus discos de 2026 são muito bons.
O Ghost Hounds lançou recentemente um novo álbum que deve agradar aos fãs desse estilo musical. O disco inclui até uma versão avassaladora do clássico de Jagger e Richards, “Gimme Shelter”.
Vivemos uma era de domínio feminino na música, na qual artistas como Taylor Swift, Beyoncé, Sabrina Carpenter, Phoebe Bridgers, Charli XCX e Chappell Roan reinam absolutas.
“Justified” atua como um elemento de preservação de um subgênero tradicional que opera em um ambiente pop higienizado. O álbum proclama com orgulho suas raízes de virilidade em músicas como “Going Down”, de Freddie King, e em composições originais como “Something Wicked” e “Sinner’s Prayer”.
Essas faixas não são machistas em termos de gênero ou perspectiva. Como Ellen Willis apontou décadas atrás, as canções provocativas dos Rolling Stones, como “Under My Thumb”, apresentavam uma visão de mundo muito mais igualitária do que a de um compositor sensível como Cat Stevens.
Neste caso, a música “Wild World” aconselhava as mulheres a não correrem riscos. Willis acreditava que a honestidade crua e direta dos Stones sobre tensões sexuais e dinâmicas de poder era mais libertadora do que a postura paternalista e protetora, que servia como uma máscara, presente no folk-pop de Cat Stevens.
O estilo hard rock do Ghost Hounds expressa orgulho de gênero. Ninguém no álbum menospreza as mulheres; pelo contrário, elas tocam e cantam na obra.
A voz do vocalista SAVNT é o elemento mais marcante da sonoridade do Ghost Hounds. Ele canta com paixão e exuberância, mesmo quando segura a intensidade em faixas como “Pale Horse” e “After You”, antes de soltar a voz nos refrãos.
O compositor, produtor e guitarrista Thomas Tull mantém a energia pulsante na base instrumental, com o auxílio do guitarrista Tyler Chiarelli, da violinista Kristin Weber, do tecladista Joe Munroe, do baixista Bennett Miller e da baterista Sydney Driver. A música traz um *groove* marcante, ao estilo do sul dos EUA.
Duas canções evidenciam as raízes folk e country do Ghost Hounds. A delicada “Chasing Yesterday” transmite a importância de não guardar arrependimentos — um sentimento que Jagger e Richards certamente aprovariam. SAVNT interpreta a letra com uma carga emocional na voz que transparece compaixão e bondade.
O álbum “Justified” encerra-se com uma versão acústica de “Amazing Grace” influenciada pelo gospel, contando com a participação de um coral de igreja. A premissa parece ser a de que todos nós precisamos de redenção. Aleluia e amém. O Ghost Hounds pode ter uma sonoridade visceral e terrena, mas também possui um lado espiritual.
Tradição
Albert Castiglia procuro uma abordagem diferente com sua guitarra na busca do melhor dos dois mundos. Sem abusar do virtuosismo, tem um estilo sereno e até discreto, e aproveita essa concisão para realçar seu lado de construtor-compositor.
Em “Grits & Glory”, ele também é um compositor que não pede desculpas por suas opiniões e está em sintonia com os nossos tempos caóticos. É, de longe, seu álbum mais abrangente, vindo de um dos poucos artistas de *roots-blues* que faz releituras de Beatles e John Coltrane no mesmo disco.
Há várias vertentes aqui. Ele gravou ao vivo no Abbey Road Studios, trabalhando no mesmo espaço onde os Beatles gravaram seu “White Album” e o Pink Floyd registrou “Dark Side of the Moon” e “Wish You Were Here. Pela primeira vez, Castiglia demonstra afinidade com o jazz em uma versão intensa de uma música de Mongo Santamaria“Afro-Blue”,.
É influenciada pela versão de John Coltrane no álbum “Live at Birdland” (Impulse!). Além disso, ele compôs “Sack the Juggler”, faixa com influência de jazz. No entanto, é a sua composição ousada e voltada para temas atuais que ganha destaque.
De alguma forma, o blues une esses elementos, seja o blues britânico, o rock sulista ou o blues de Chicago. Tudo está aqui — o tradicional e o contemporâneo —, apresentado com força e sem filtros.
Os colaboradores de Castiglia são os músicos de seu trio, veteranos de estrada: o baterista Ray Hangen e o baixista Cliff Moore, com os teclados divididos entre Lewis Stephens, Bruce Bears e o produtor Dave Gross. Deborah Michels contribui com os vocais de apoio.
Castiglia, também conhecido como “The Big Dog”, abre o álbum com “In America”, um comentário sobre a nossa realidade marcada por divisões, encerrando com a mensagem de que ainda acredita que superaremos este regime cada vez mais autoritário do presidente Donald Trump.
Ele executa a faixa com um timbre de guitarra distorcido e a sonoridade potente de seu power trio. Aqui e ao longo de todo o disco, como os fãs já sabem, Castiglia canta com um estilo vocal áspero e cru. O que importa, acima de tudo, é a emoção.
Ssegue a linha tradicional do *slow-blues* em “Slumlord Billionaire”, um manifesto sobre imigração e discriminação. Pprossegue com seu desabafo, mas traz uma nota de tranquilidade na contagiante “The Milk Is Still Good”, faixa impulsionada por um riff marcante.
O trio surfa em um *groove* profundo e na temática de “polícia e ladrão” em “Michigan Avenue”. Dadas as questões atuais abordadas nas faixas anteriores, é fácil interpretar a expulsão dos “invasores de corpos” como uma referência a cidades como Chicago e Minneapolis, derrotando o ICE (agência de imigração dos EUA).
Sua versão de “I’m Afraid to Fall Asleep”, do também músico de Miami Graham Wood Drout, é daquelas que ficam na cabeça por dias. Ele ataca com força o slide sobre uma batida pulsante e um piano estilo barrelhouse, em um relato visceral sobre mortalidade e paranoia, com imagens que fazem você querer tapar os ouvidos.
Há uma referência ao estilo reconfortante de slide de George Harrison na introdução da canção sobre separação “Uncertainty”. No entanto, ele mais tarde exagera no uso de pedais wah-wah e efeitos para acentuar a dor emocional, retornando ao estilo de Harrison no encerramento da música. A faixa funky “When the Coin Came Calling” acrescenta um Fender Rhodes à mistura, em um apelo pela sobrevivência voltado à classe trabalhadora. Castiglia exala, em seus vocais roucos e intensos, um desafio que combina com sua pirotecnia explosiva na guitarra — tudo parte de sua intensidade característica