Grace Potter e Janiva Magness apostam no blues sofisticado e elegante

O mundo pop encontra o blues em vertentes diferentes envolvendo duas veteranas cantoras americanas de altíssimo calibre – Grace Potter e Janiva Magness, que alcançaram a condição de divas do underground por conta da elegância e da sofisticação de seus repertórios e composições. Seus novos trabalhos, recém-lançados, apontam para novas direções sem perder a essência de suas carreiras.

Grace Potter criou uma banda de hard rock nos anos 2000, Grace Potter and the Nocturnals, e gravou bons discos. A migração para o blues mais pop se deu com a colaboração com a banda Gov’t Mule e, depois, com o guitarrista e vocalista daquela banda, Warren Haynes.

Em 2015, ficou nacionalmente conhecida nos Estados Unidos para além do blues quando foi convidada  cantar com os Rolling Stones na cidade de Minneapolis, fazendo um dueto com Mick Jagger na canção “Gimme Shelter”.

Com seu novo álbum, “Trespasser”, Grace Potter apresenta um elenco de personagens maravilhosamente indomáveis ​​que invadem espaços proibidos com total entrega.

Sendo a sequência espiritual de “Mother Road” (2023), o sétimo álbum de estúdio da artista — quatro vezes indicada ao Grammy — dá continuidade à narrativa caleidoscópica moldada por suas inúmeras viagens de carro entre sua casa em Topanga Canyon e sua residência de meio período em Vermont, sua terra natal (um trajeto que ela percorreu oito vezes nos últimos cinco anos, geralmente sozinha).

Mas, enquanto “Mother Road” nasceu de uma necessidade desesperada de consolo em meio a um colapso emocional, “Trespasser” revela uma artista firmemente ancorada em sua visão singular.

Produzido por seu marido e colaborador frequente Eric Valentine (Queens of the Stone Age, Weezer, Slash) e gravado em uma jornada que atravessou o país — começando em sua casa em Topanga com Benmont Tench, passando por Nashville com músicos que participaram das sessões de “Mother Road” (integrantes de Cage the Elephant, Kings of Leon e Train) e sendo finalizado em Vermont com membros de sua banda de longa data,

O álbum ecoa suas origens com uma sonoridade livre e ousada. Ela transita do soul em sua forma mais crua ao *cosmic country* e ao rock & roll explosivo, tudo isso orbitando a voz poderosa — uma verdadeira força da natureza — de Potter e sua imaginação exuberante.

Purismo e elegância

Janiva Magness — vocalista, compositora, intérprete e vencedora de múltiplos prêmios BMA (Blues Music Awards, o principal prêmio do blues nos Estados Unidos) — lançou seu primeiro álbum ao vivo abrangente, “Truth in the Room: The Clearmountain Sessions”, após uma carreira consagrada que já conta com 18 álbuns.

O uso da palavra “Sessions” (Sessões) no título sugere que esta não é uma apresentação ao vivo comum. Pode-se dizer que Magness é perfeccionista; ela queria garantir a presença de um engenheiro de som de excelência e, para isso, convocou o lendário Bob Clearmountain.

A gravação ocorreu no Berkeley Street Studios (antigo Apogee Studios) para uma plateia intimista de 150 pessoas, entre amigos e convidados da indústria musical.

Magness lançou um álbum ao vivo de estreia, “More Than Live”, por seu próprio selo independente em 1991, contando com o renomado engenheiro Ed Cherney e as unidades móveis de gravação do Record Plant. A fita cassete esgotou imediatamente e saiu de catálogo.

Mais tarde, ela foi disponibilizada como parte de uma caixa de edição limitada em 2014, que acompanhava seu lançamento independente, “Original”. Naturalmente, conhecemos os inúmeros lançamentos e prêmios que se seguiram ao longo das últimas décadas.

Magness é acompanhada por colaboradores frequentes: o guitarrista Zach Zunis, o tecladista Jim Alfredson, o baixista Gary Davenport, o baterista W.F. Quinn Smith e a vocalista de apoio Bernie Barlow. Alfredson e Davenport também contribuem com vocais de apoio. Seu repertório é composto inteiramente por músicas que apareceram em álbuns anteriores, incluindo seis faixas do disco “Love Wins Again”, de 2018.

A animada “My Bad Luck Soul”, de B.B. King, abre a sessão — uma maneira perfeita de começar a festa, já que possui uma atmosfera semelhante à clássica música de abertura de King, “Let the Good Times Roll”.

O público demonstra entusiasmo e engajamento desde o início. “Slipped, Tripped and Fell In Love”, do compositor de soul George Jackson, ganha vida com os vocais de apoio de estilo gospel, as linhas de guitarra vibrantes de Zunis e as intervenções de órgão de Alfredson, enquanto o ritmo marcado por palmas impulsiona a música rumo a um desfecho explosivo.

“Make It Rain”, de Waits e Kathleen Brennan, avança com seu ritmo de arranca-e-para e a voz potente e visceral de Magness. A seção intermediária, com Zunis disparando frases musicais incisivas, assume uma sonoridade profundamente orgânica e funky. Esta é uma das duas faixas presentes no álbum *Stronger For It*, de 2012.

Em seguida, vem uma das melhores baladas de Delbert McClinton. Magness faz jus — e muito mais — a “You Were Never Mine”, extraindo cada gota de emoção desta faixa de destaque, composta em parceria por Gary Nicholson e Benmont Tench. O trabalho de teclado de Alfredson é particularmente exemplar.

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