Próximo dos 50 anos , U2 carece de contundência para recuperar a relevância

U2 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O cinquentenário chegou e o principal objetivo agora é recuperar a relevância artística. Sem grandes trabalhos neste século, o U2 continua problemas para se manter gigante em um mundo pop em constante transformação. Entre o comodismo do rock clássico e o inconformismo seletivo e melancólico, a banda irlandesa busca um caminho. Está difícil, mas é louvável o esforço dos quatro sessentões;

Depois de quase uma década de silêncio em relação a canções inéditas, o U2 ressurge com dois EPs e 11 músicas no primeiro trimestre, “Dys of Ash” e “ Easter Lily”..

Em meio a preocupações geopolíticas e protestos contra guerras e devastação ambiental, s irlandeses recitaram lamúrias e lamentações e deixaram a contundência de lado. `Preferiu reflexões e melancolia em vez de cir de cabeça no rock vigoroso. O U2 parece cansado e resignado enquanto chafurda na mesmice da melancolia.

Surpresa no começo do ano

Quando Bono e The Edge, vocalista e guitarrista do U2, se arriscaram a gravar clipes e tocar com músicos ucranianos nos escombros do metrô de Kiev, imaginava-se que a banda estava pronta para retornar após um hiato incômodo com o fato de demonstrarem que eram artistas exaustos, exauridos e enfastiados do sucesso.

Mesmo tocando na bombardeada capital da Ucrânia, ´país invadido covardemente pelos vizinhos russos asquerosos, o U2 dava o recado de que poderia retomar a veia política e de protesto que tanto fez a fama dos irlandeses nos anos 80 – mesmo que dissesse o contrário em shows, “Sunday Bloody Sunday”, seu maior sucesso,é uma canção política e d rebeldia,.

Quase três anos depois, o grupo irlandês rompe um silêncio de quase dez anos em relação a lançamento de músicas inéditas e reaparece com um EP, “Days of Ash”, com seis músicas e um tom político esperado e contundente, ainda que falte a inspiração musical de outras eras.

Sem os incômodos excessos eletrônicos e abusando de violões e sonoridades semiacústicas, o U2 de 2026 [e uma banda com uma sonoridade mais simples e acessível, por mais que nenhuma das seis canções seja memorável. Sessentões, os músicos estão mais reflexivos, embora não economizem nas críticas á política anti-imigração covarde e violenta dos Estados Unidos e à violência russa na guerra contra a Ucrânia.

O que ouvimos em “Days of Ash” é uma banda pop com aspirações de folk rock fazendo música competente e contundente, mas muito longe de repetir os hinos que marcaram duas gerações a partir dos anos 80. Como cronista deste século, Bono protesta e brada contra a destrutiva política internacional destrutiva e imperialista, mas parece que faltou fôlego e interesse para ir mais além.



Onde o U2 se encaixa no cenário musical atual? A banda não consegue responder a essa questão e ainda parece perdida neste século, vagando entre um passado glorioso, mas distante, e um som moderno e relevante, mas sem a criatividade esperada e a contundência que ostentou por muito tempo.

A falta de ideias claras fez os integrantes cogitarem uma colaboração não efetivada com o DJ David Guerra, francês, que já foi acusado de usar pen drives em algumas de sus apresentações – o que seria um ponto muito baixo nos 50 nos de exitência do U2.

Embalada por um canção boa, mas sem grandes ambições Song of the Future” – chegamos a”Days of Ash”, não uma prévia do próximo álbum, mas, assim como o recente “Streets of Minnesota” ,de Bruce Springsteen, uma tentativa de reanimar o espírito de protesto como resposta imediata do single “Ohio” de Crosby, Stills, Nash & Young, de 1970.

A canção exala um otimismo crítico – ou um pessimismo esperançoso, se é que dá para usar esse tipo de expressão. É uma ideia que se esperaria que tivesse ocorrido a mais pessoas ultimamente.

Outra surpresa na Páscoa

Da crítica política pouco esperançosa e melancólica a um otimismo moderado com alguma luz no final do túnel. OU2 não tem medo da gangorra emocional neste começo de 2026 ao soltar o seu segundo EP, “Easter Lily”, especialmente para o período da Páscoa.

Na busca por uma som que demonstre a sua maturidade, o U2 tenta não olhar para o seu passado, mas evita pisar em terreno minado para avança para algo mais instigante. “Days of Ah”, o EP anterior, mergulhou na crítica política, mas carecia de inspiração e de músicas ativantes. Este segundo EP tem o mesmo problema, com agravante de ser menos contundente e mais reflexivo.

Sem se bombástico como nos anos 80 ou dançante e pop como a década seguinte, o U2 soa comum, como se fosse uma imitação de si mesmo, ou pior, como uma emulação do Cooldplay, que um dia se inspirou totalmente no próprio U2 dos anos 90 e 2000. Não que o quarteto irlandês esteja totalmente irrelevante, mas sua música hoje soa inofensiva;

O segundo EP surpresa de seis faixas do U2 em 2026, chega seis semanas após os Dias de Cinzas – o período do calendário eclesiástico conhecido como Quaresma. Para os fãs do U2, é um caso de festa em vez de jejum, com ambos os lançamentos independentes e distintos do novo álbum de estúdio da banda, cujas sessões de gravação ainda estão em andamento.

É uma sequência do que a banda já tinha fio nos álbuns “Songs Of Innocence/Songs Of Experience” da década passada. Enquanto o material de “Days Of Ash” chegava como boletins informativos das múltiplas zonas de conflito do mundo – citando nomes, tomando partido – este EP mais recente é um relato da linha de frente interna, testando se os laços de fé e amizade serão suficientes nestes tempos sombrios. “Eu me sinto sozinho, preciso que saibam disso”, canta Bono na faixa-chave In A Life, “Eu nunca conquistei nada sozinho”.

Musicalmente, este material se consolida em torno daquilo que muitos considerariam os elementos fundamentais do U2 – repetidamente, a guitarra inconfundível de The Edge se une de forma emocionante e perpétua à seção rítmica menos ostentosa, porém mais sólida, da era pós-punk. Escolha sua música favorita de qualquer álbum do U2 dos anos 80, e “Scars” representa a banda em seu auge despreocupado e ainda mais, seus laços fraternos imutavelmente marcados por anos de trabalho árduo e glória, os acidentes felizes, os erros.

Assim como em “Days Of Ash”, este disco é um testemunho do impacto catalisador restaurado de Larry Mullen Jr., com “Resurrection Song” sendo um excelente exemplo de como sua beligerância austera intensifica o que poderia ter sido apenas mais uma dose rotineira de positivismo do U2.

Bono aceita o desafio tirando sarro de si mesmo de forma preventiva: “Se eu soar ridículo, ainda não terminei”. A correnteza sintética da música dá lugar aos pulsos eletrônicos à la Vangelis de “Easter Parade”, que Adam Clayton complementa de forma irreverente com uma versão da linha de baixo de “I Am Resurrection”, do The Stone.

Assim, seu antecessor foi lançado na Quarta-feira de Cinzas, e agora “Easter Lily” chega na Sexta-feira Santa, o dia seguinte à Última Ceia – caso você não saiba, o U2 realmente se dedica a Deus, e este EP é a trilha sonora de seu renascimento.

 A grande incógnita para os verdadeiros crentes neste momento é como esses EPs se relacionam com o iminente evento principal: são esses trabalhos isolados de um caminho mais seguro, ou o 15º álbum de estúdio do U2 será talhado em um tecido igualmente exultante? Independentemente do que aconteça, qualquer pessoa que tenha entrado na vasta igreja desta banda, seja para relaxar no fundo, descansar um pouco em um banco ou se prostrar no altar, encontrará um motivo renovado para crer em meio à abundante energia criativa aqui exposta. Canções de ressurreição, de fato – um milagre para se contemplar.

Compartilhe...