Muitas batalhas do cotidiano são travadas no escuro e vencidas nos detalhes e essas são as especialidades de Laura Finocchiaro, nome crucial no underground musical brasileiro há pelo menos três de duas quatro décadas de carreira.
Guitarrista, compositora, cantora, produtora, especialista e, audiovisual e ativista política, social e cultural, surpreende ao engatar uma inusitada parceria com uma artista contemporânea, a cantora Vânia Bastos, antiga amiga dos tempos de efervescência do Teatro Lira Paulistana, centro maravilhoso de difusão de ideias e saber nos anos 80 em São Paulo.
“Notas Solares”, de Laura, é uma colaboração delicada e suave entre dois mundos que andam se estranhando ultimamente, o pop rock e a MPB mais sofisticada, da qual Vânia é uma das principais expoentes. Com letra positiva, mas com um recado direito, a canção destoa da pasmaceira que predomina em um mercado fossilizado.
“Quando fui de Porto Alegre para São Paulo, em 1082, conheci um mundo novo de artistas de vanguarda e sempre admirei a Vânia Bastos, que considero uma das grandes cantoras desse mundo e dessa vida”, diz Laura em entrevista ao Combate Rock. “Fui a um show recente dela e me convenci de que ela tinha de cantar uma canção minha. Ela topou e o resultado ficou maravilhoso.”
Com 22 álbuns em 44 anos de carreira musical, Laura Finocchiaro pretende voltar aos palcos neste ano, mas aa produção musical dela e de outras artistas. “No underground a gente precisa se manter de uma forma que a produção autoral tem de ser constante. Mas o palco é vital para a vivacidade e o dinamismo de nossas carreiras. E hoje faltam espaços para a produção autoral no Brasil. O domínio de quem toca versões de outras artistas asfixia a produção autoral. Faltam promotores corajosos para mudar esse cenário no rock e na música em geral.”
Só que as batalhas continuam. As vitoriosas vidas e carreira Laura Finocchiaro se encaixam na definição completa de artista multimídia e underground da atualidade. As dificuldades atuais de um mundo musical depredado pela falta de uma indústria cultural e pelo aparente desinteresse da maioria das pessoas pela música e pela arte só a movem ainda mais para frente .
Está sempre em busca de algum reconhecimento – não para ela, mas para artistas que sofrem com a invisibilidade na era pós-pandemia, em que o entretenimento ainda não se recuperou totalmente dos efeitos do vírus no mundo.
Ela sabe o que é lidar com invisibilidade, ainda que tenha um reconhecimento artístico relevante – tanto que empresta seu nome ao festival para caçar novos talentos.
Aos 64 anos, ativista da causa LGBTQIA+ e com 25 álbuns lançados em 42 anos de carreira, detecta uma dificuldade cada vez maior de encontrar locais para tocar e promotores/produtores interessandos em contratá-la para shows solo.
É contra um processo cruel e repetitivo que ela se insurge e tanta jogar luz na invisibilidade que tanto combate. “Artista underground, homossexual, ativista política progressista e mulher vítima de machismo. É muita coisa contra para lutar apesar dos avanços dos últimos anos. Eu tento e sempre vou fazer a minha parte, mas não quero que me digam que foi só isso o que me restou. É apenas uma parte de um projeto de vida.”
“Não há um dia em que eu não pense em minha irmã e dedique algo de bom que faço a ela. Mais do que inspiração, sua memória me encoraja a prosseguir”, relembra Laura.
Nascida em uma família de classe média com uma vida confortável, Laura percebeu cedo que seria artista e que era diferente do que “mundo burguês” imaginava e tentava impor a ela. A rebeldia era a maneira que ela e Lory FF; (1959-1883), sua irmã mais velha e cantora,encontravam para sobreviver e respirar.
À medida que a vida financeira da família deteriorava, mais crescia a busca por liberdade. Ela e Lory voaram e ganharam o mundo.
Laura se encontrou com os artistas da vanguarda de São Paulo e foi presença marcante no teatro Lira Paulistana, na zona oeste de São Paulo, onde ombreou em talento e criatividade com gente muito importante, como Arrigo Barnabé.
Alguns detratores ironizam o fato de Laura Finocchiaro bradar independência e se orgulhar de estar no underground mesmo quando se tornou uma bem-sucedida profissional da área de audiovisual – área em que trabalha até hoje. Foi diretora de programa de TVs em emissoras de São Paulo e responsável criativa por diversos programas populares.
São os mesmo chatos que atacam João Gordo por ter se transformado em apresentador de TV e “celebridade”, mas que não pagam suas contas e nem os custos de seu projeto social de levar comida vegana para pessoas em situação de rua na capital paulista.
“Não costumo ter tempo para me preocupar com esse tipo de ‘crítica’. Minha vida e meu ativismo falam por mim”, desdenha a musicista. “Se não conseguem fazer a distinção entre minha vida artística e a minha vida profissional, não há o que fazer. Não altera em nada os meus projetos e a minha satisfação pessoal de fazer o que gosto, mesmo sem muito dinheiro.”
Inquieta e sonhadora, Laura nunca foge de uma boa briga, mas sempre como último recurso. Aprendeu demais com a vida para saber quais combates vale a pena travar. Eles são muitos, e precisam ser analisados e escolhidos com cuidado;
É o caso de suas participações nas Paradas do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo. Cansou de encarar certas brigas nos bastidores, mas sem abandonar a luta. “Participo e sou ativa, mas meu foco agora era na construção de caminhos e pontes. E, principalmente, na arte e na conscientização.
“De certa forma, a intolerância acabou forjando parte da minha personalidade”, diz a guitarrista. “Nunca foi fácil, nem de longe, mas posso dizer que eu, mulher branca e de classe média, não sofri tanto quanto a galera preta, pobre e homossexual insanamente perseguida neste país; é preciso combater qualquer tipo de intolerância, mas é primordial que invistamos na educação para eliminar o preconceito racial, de gênero, orientação sexual e econômico.”