Blues Etílicos chegam aos 40 anos investindo no ‘multilateralismo’

Blues Etílicos (Foto: divulgação)


Um blues multilateral para comemorar 40 anos de carreira. É dessa forma que a instituição Blues Etílicos faz a sua celebração em 2026 curando as feridas e olhando para a “miscigenação” cultual e artística. O futuro é juntar e integrar para manter a relevância, nas palavras do fundador Flávio Guimarães, gaitista e vocalista.
“Nossa trajetória é gratificante e importante porque fizemos parte de uma geração que conseguiu fazer blues com DNA e sotaque brasileiros”, diz o músico. “Acho que isso é o principal em relação ao pioneirismo que protagonizamos ao lado de outros nomes importantes.”

A banda se orgulha de ter feito música diferente nestes 40 anos, a ponto de ter colaborado com mais de 100 artistas brasileiros e estrangeiros. Guimarães, por exemplo, passa dos 100 álbuns em que colaborou de outros artistas, além de ter aberto shows de gente coo B.B. King e Buddy Guy, para ficar apenas em algumas estrelas internacionais do blues.

Para o gaitista, a sonoridade bem definida dos Blues Etílicos ajudar a explicar, em parte a longevidade do conjunto de blues em terra de samba. “O blues dialoga com tudo, e com facilidade. Essa flexibilidade garante que possamos transitar em vários ambientes. Tocamos na Virada Cultural de São Paulo para 15 mil pessoas em meio a artistas de vários segmentos e a receptividade foi maravilhosa.”

Aposta na diversidade e no multilateralismo é o caminho escolhido pelos Blues Etílicos para seguir em frente depois de 40 anos, principalmente depois da perda do guitarrista e vocalista Greg Wilson, que morreu de câncer aos 60 anos em 2024.

A ideia é incorporar elementos diversos ao blues da banda – ou ao contrário, jogar o blues no samba, no baião e na música regional, como fizeram, no mês passado ao gravar “filosofia”, de Noel Rosa, qu se tornou um blues-samba delicioso e uito bem feito.

Na regravação da canção própria “Não Deixe Atravessar”, a banda optou por manter o espírito original agregando elementos da MB e ac9ertou novamente, mesmo mexendo pouco nos arranjos. Para junho, o conjunto promete uma releitura polêmica para uma canção interessante, “Tiro de Largada”, que ganhará cores de reggae.

Não se trata de reinvenção, mas de reinterpretar deforma mais livre o próprio repertório e de re visitar canções surpreendentes de forma inusitada. “Depois que perdemos Wilson tivemos e entender qual seria a dinâmica d banda como quarteto, além de o fato de que eu não queria cantar as músicas eu ele cantava. Essa readaptação foi um imenso aprendizado.”

O guitarrista e vocalista Greg Wilson era um grande trunfo dos Blues Etílicos. Norte-americano de nascimento, foi criado no Brasil porcont do trabalho missionário dos paispelo Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Exímio instrumentista e tremendo compositor, tiiha a mesma desenvoltura no inglês e no português sem sotaque. Muito da banda se moldou a partir de suas performances.

Com a morte de Wilson, a principal mudança nos palcos foi no balanço do repertório. “Hoje tocamos 80% das canções em português, algo que pretendíamos há muito tempo. O público abraçou a ideia e gostamos do resultado”, explica Guimarães. Completam a formação o guitarrista e vocalista Otávio Rocha, o baixista César Lago e o baterista Beto Werther.

Sem fazer projeções, o gaitista acredita em um blues mais integrado ao cotidiano brasileiro no futuro, em que uma geração de novos apreciadores vai aceitar com mais facilidade a fusão de ritmos, assim como os músicos. “Ainda há bastante coisa a ser desbravada, especialmente com a fusão de ritmos Essa coisa de multilateralismo sonoro, com a inserção de outros elementos, possibilitam uma infinidade de alternativas.”

Pioneirismo e versatilidade

Eles insistiram e derrubaram todos os prognósticos negativos. Viram várias modas passarem, inclusive a agonia e morte do outrora poderoso pop rock nacional, e nem se abalaram..

Os cariocas comemoram 40 anos de carreira de forma discreta, como de costume. Com um trabalho sólido e uma base de fãs igualmente consolidada, o grupo Blues Etílicos corre à margem do mercado e continua se dando bem.

“É uma marca importante, porque provavelmente no Brasil somos o grupo que mantém a mesma formação por mais tempo, desde 1987. Fazer blues no Brasil é um caminho longo e com certas características, e creio que conseguimos ser bem-sucedidos”, diz o gaitista Flávio Guimarães.

O gaitista gosta de lembrar que o blues brasileiro ganhou evidência de uma maneira de certa forma improvável em meados dos anos 80. Era uma época em que o rock nacional começava a despontar.

Neste cenário, um guitarrista corajoso, com nítidas influências roqueiras e uma graduação no Guitar Institute de Los Angeles, tocava em uma banda totalmente pop, mas decidiu lançar um álbum de blues nacional, de muito bom gosto, mesclando letras em inglês e português, 30 anos atrás..

André Christóvam fez parte, entre outras, da banda Kid Vinil & os Heróis do Brasil – Vinil integrou o Magazine, que estourou com os hits “Eu Sou Boy” e “Tic Tic Nervoso”. Mas sua praia era mesmo o blues, e se tornou referência para toda uma geração, principalmente quando gravou “Mandinga”, de 1989.

Na cola do paulistano Christóvam veio o Blues Etílicos, impulsionando ainda mais o gênero no Brasil. Se o guitarrista paulistano inaugurou uma cena interessante por volta de 1985 e 1986, o Blues Etílicos embarcou na onda e gravou primeiro, o ótimo “Blues Etílicos”.

“É difícil falar em marco do gênero, por mais distanciado que estejamos, mas não há dúvida de que nossa estreia foi um trabalho importante. Foi um dos primeiros discos de blues genuíno feito por artistas brasileiros”, afirma Guimarães.

A estreia do grupo em vinil (na época) causou certo estranhamento, mas logo ganhou espaço em emissoras importantes de rádio, como a 97FM, de Santo André (SP), e a rádio Fluminense, no Rio de Janeiro, em seus últimos momentos de linha editorial roqueira e alternativa.

O gaitista evita o saudosismo, fala com carinho dos anos 80 e 90, o pico de popularidade de artistas brasileiros do gênero, mas é bem crítico ao analisar o mercado a partir dos anos 2000. “A cena estava legal, muitos artistas de qualidade tocavam e gravavam no exterior, como André Christóvam e o Nuno Mindelis, o Blues Jeans, do Marcos Ottaviano, lotava as casas onde tocava, assim como o Big Allanbik, entre outros. Só que houve um esgotamento. Muita gente entrou no blues sem grandes ambições, quase como um hobby, e isso contribuiu para uma caída. Muita banda ruim ocupou parte expressiva do espaço em bares e casas noturnas, o que afastou o público.”… –

E Guimarães reconhece a importância de uma entidade na manutenção de uma carreira importante para artistas que têm um trabalho sério e de qualidade: o Serviço Social do Comércio (Sesc), vinculado às Federação do Comércio de cada Estado.

“O Sesc salvou a música brasileira de qualidade por conta de sua programação eclética e democrática, além de uma visão de cultura condizente com a importância que o setor exige. A administração é competente, sobretudo em São Paulo. A política de escolha de artistas é transparente, há critérios bem definidos na hora de definir a agenda. E nós nos beneficiamos disso.”.

Criada no Rio de Janeiro, em 1986, a banda Blues Etílicos lançou seu primeiro LP em 1987. Em 1989, contratados pela Gravadora Eldorado, produzem os álbuns “Água Mineral” (1989), “San Ho Zay” (1990) e “IV” (1991), todos com músicas executadas nas rádios FM de todo o país. O último CD com músicas inéditas é “Puro Malte”, de 2013. … –

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