O guitarrista americano Joe Bonamassa justificou da seguinte forma ter produzido e lançado um extenso tributo ao centenário de nascimento de B.B. King no ano passado: “O nome dele é sinônimo de blues; Ouço B.B; King e a associação é imediata.” Seria o mesmo caso, no jazz, com o nome de Miles Davis?
Nas celebrações do centenário de nascimento do trompetista americano, as indicações vão nesse sentido – – o maior nome do gênero, um, dos maiores artistas da humanidade. Ão genial quanto B.B. King, Jimi Hendrix, Bob Dylan, Beatles, Frédereric Chopin, Ludwig van Beethoven, Wolfgang Amadeus Mozart…
Nas várias fases de sua carreira, Davis foi completo em todos os sentidos, da interpretação única e primorosa à escolha de com quem trabalhar, passado de John Coltrane a John McLaughlin.
N experimentalismo. Não só inovou como criou tendências. Ao mergulhar no jazz fusion, deu outro sentido ao gênero e mostrou ao mundo que a música é universal e aceita a todo tipo de mistura. Não é todo artista que tem o privilégio mde se considerado o “pai” de um estilo artístico.
Morto em 1991, aos 65 anos,, teve vários auges artísticos, e um deles foi na composição e gravação e “A Kind of Blue”, entre 1957 e 1958, obra fundamental do ser humano e do cool jazz, entre outras manifestações.
Música de vanguarda jamais será popular, mas sempre será capaz de mudar o mundo. A máxima está explícita em quase todas as páginas do livro “Kind of Blue: Miles Davis e o Álbum que Reinventou a Música”, do jornalista inglês Richard Williams, editado no Brasil pela Casa da Palavra e agora relançado.
Denso, didát9ico e metódico, o livro é referência na análise das principais obras do jazz contemporâneo e faz um passeio interessante pela música popular do século XX e a vanguarda de vários estilos.
O ponto central da obra é a genialidade do álbum “Kind of Blue”, que Miles Davis gravou com seu quinteto em duas sessões no primeiro semestre de 1959.
No ano em que a obra completa 60 anos de gravação, ainda ecoa por vários segmentos como uma das influências mais importantes para os artistas que vieram depois dele – e é bom lembrar que fazia parte da banda do trompetista que é quase um sinônimo de jazz o visceral saxofonista John Coltrane.
Williams deixa claro que é um apaixonado por jazz e viciado na obra de Miles Davis, mas se mostra conectado com o rock e com a música erudita.
Além de descrever minuciosamente como funcionaram as sessões de gravação e os difíceis relacionamentos dentro da banda, elabora com habilidade uma contextualização de toda uma era de criatividade extrema no jazz, e faz uma reverência ao compositor e maestro Gil Evans, um dos principais colaboradores do trompetista norte-americano.
É interessante a reconstituição da carreira de Davis entre 1949 e 1959, recriando os ambientes que levaram ao surgimento de um dos clássicos da música.
“Kind of Blue” ganhou em 2009 uma reedição em CD triplo com extras e material bônus, e sua força reside na extrema objetividade e na sutileza com que a música foi elaborada. Os extras são tão bons quanto o material original.
A segunda parte do livro tem menos fluência, mas é importante por evidenciar como a obra de Davis influenciou músicos no rock, no jazz e na música erudita ao longo dos últimos 55 anos -e não só na música, mas também na estética das artes plásticas e até na literatura.
Escute as principais peças de John McLaughlin (guitarrista britânico), Keith Jarrett (pianista norte-americano), Phillip Glass (compositor erudito norte-americano), Brian Eno (compositor britânico, ex-Brian Ferry e produtor do U2), Jimi Hendrix, Soft Machine (pioneiros do jazz rock na Inglaterra) e muitos outros para observar a presença de “Kind of Blue”.
Expandindo os horizontes, o autor consegue conectar mundos aparentemente distintos, que vai das inquietantes paletas de pintura de Picasso, Matisse e Yves Klein, que influenciaram o humor de toda uma cultura que valorizava imensamente a cor azul, ao blues e os outros sons que melhor traduziam o que era ser cool.
Mostra também como o legado de Davis está presente nas longas improvisações da banda The Allman Brothers aos concertos do Grateful Dead, passando pelo riff mais copiado de James Brown e da rebeldia atormentada e fascinante de Pete Townshend e seu The Who.
Infelizmente a leitura é um pouco árdua para quem não é iniciado no mundo musical além-rock do século XX. A profusão de nomes e termos técnicos de música pode afetar a fluidez do texto, mas nada que seja intransponível.
O livro de Richard Williams é muito interessante para quem quer entender um pouco da evolução da música popular e da de vanguarda dos últimos 70 anos.