O blues resolve tudo, já dizia o guitarrista Keith Richards lá nos anos 60. Ao justificar a paixão de sua banda, os Rolling Stones, pelo gênero musical. Não foi à toa que o grupo superou uma crise criativa, abandonou um álbum autoral para lançar anos atrás e lançou “Blue and Lonesome” só com versões de 9clássicos do blues.
O duo americano Black Keys decidiu seguir o mesmo aminho em seu mais novo trabalho, “Peaches!”, e mergulhou ainda mais fundo no blues raiz, vasculhando discos e mais discos antigos para compilar uma teia de boas canções em interpretações inusitadas. Ficou interessante, as longe das boas ideias que a banda teceu em seus primeiros trabalhos.
Com quase 20 anos de sucesso ininterrupto e uma grande obra no currículo – “El Camino”, de 2011, além de “Brothers”, de 2012 -, Black Keys conservam o groove original de suas interpretações e oferecem uma atualização inesperadamente simplificada e irresistivelmente cativante de seu modelo de blues-rock, com os singles de sucesso “Lonely Boy”, “Gold On the Ceiling” e “Tighten Up” provando que o R&B moderno e comercial era um jogo que podia ser jogado com guitarras.
O cantor e guitarrista Dan Auerbach e o baterista Pat Carney pareciam desconfortáveis sob os holofotes, e o esforço para manter a popularidade pareceu impactar os discos – como no insosso “Let’s Rock”, de 2019. A faixa-título de No “Rain, No Flowers” resumia o problema: é uma boa música pop, mas carece da garra e da energia que outrora definiam a banda. Com os lucros diminuindo, por que eles ainda insistiam nesse jogo?
Os fãs de longa data sabiam que seus ídolos ainda estavam lá, em algum lugar. Eles podiam ouvi-los na coletânea de covers de música country “Delta Kream” (2021) e os ouvirão neste álbum, outra homenagem, gravado de forma rápida e espontânea no início de 2025 no estúdio Easy Eye Sound de Auerbach, após o diagnóstico de câncer do pai do vocalista, Chuck – que faleceu pouco depois, em 29 de março.
A urgência e a catarse nessas faixas fazem sentido nesse contexto, mas há algo mais aqui: uma profunda conexão com a música, sentida em cada groove e textura.
Entre as músicas ensaiadas, está o sucesso explosivo de George Thorogood de 1977, “You Got To Lose”, executada com um vigor anárquico, com Carney se movimentando com energia contagiante.
“Who’s Been Foolin’ You”, de Arthur “Big Boy” Crudup, reforça essa abordagem; se essas canções já não estivessem fervendo de energia, Auerbach e Carney parecem determinados a fazê-las explodir. Em sua versão de “Tomorrow Night”, de Junior Kimbrough, furtiva e hipnótica em sua forma original, toda a formalidade é abandonada e a guitarra estridente e carregada de reverb de Auerbach espirala quase fora de controle.
A sensação de estar presente na sala, em tempo real, é palpável. “Tell Me You Love Me”, da cantora country Jessie Mae Hemphill, começa timidamente; Carney e Auerbach tropeçam e improvisam enquanto uma segunda guitarra e um bandolim buscam um espaço entre eles.
Finalmente, eles se encaixam e a magia do groove é invocada. Em contraste, “She Does It Right”, do Dr. Feelgood, já começa a todo vapor – e, apropriadamente, é bem suja. Se a falta de ideias predominou no ciclo, o blues salvou a dupla e aponta os caminhos para o futuro dos Black Keys.