A balada de John and Yoko – o caso de amor que mudou o rock faz 60 anos

Foto: reprodução de capa de LP

No meio do recinto havia uma escada de pintor, dessas que vemos todos os dias em condomínios e em obras de sobrados. No alto, uma caixa branca pendurada do teto por um fio preto. Em um dos lados da caixa, um furo.

O astro pop entediado resolveu subir e olhar pelo furo. Viu apenas um pedaço de papel com a palavra “yes” (sim, em inglês) escrita em letras pretas maiúsculas. Seu humor mudou por completo e passou a se interessar pelo restante da exposição daquela artista japonesa desconhecida pequenina e de olhos inteligentes e vivos.

Muita gente garante que foi amor à primeira vista entre John Lennon e Yoko Ono naquele meio de 1966 em uma galeria de arte chique de Londres, na Inglaterra. São os mesmos que afirmam que foi o mais importante caso de amor da história do rock, capaz de alterar o destino dos Beatles e de todo o rock.

Até hoje se discute o quanto a união mudou a trajetória e até que ponto influenciou no final do melhor de todos os grupos de rock. A influência sobre Lennon não se discute – ela palpitava em letras e melodias, esteve onipresente durante as gravações do que seria “Let It Be”, ocorridas em janeiro de 1969 e, no mesmo ano, o músico mandou instalar uma cama no estúdio para que os dois pudessem ficar mais confortáveis e ela, descansar…

Hoje os historiadores entraram em acordo sobre o fato de que Yoko Ono não causou o fim dos Beatles, por mais que tenha acelerado um processo de maturidade de Lennon como músico e pessoa, dando-lhe uma segurança que ele parecia ter pedido em algum ponto entre a beatlemania e a evolução para os álbuns maravilhosos “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.Por outro lado, é consenso também que a presença de Yoko Ono não ajudou nada na manutenção da banda, podendo até mesmo ter acelerado o processo de deterioração do ambiente interno – Paul McCartney, o baixista, e o George Harrison, o guitarrista, não a suportavam.

Avaliar sem maniqueísmo esse processo de deterioração dos Beatles requer um exa,e mais minucioso sobre o o amadurecimento de John Lennon como artista e sua busca por uma excelência musical e artística. E isso vem antes do encontro com Yoko e passa por ua atividade literária.

Com seu humor ácido e desenhos nervosos e incômodos, agressivo e traços rudes, Lennon publicou dois livros que provocaram reações diversas, que foram de crítticas positivas em relação ao texto e despojado e conciso – e também a uma suposta inventividade – às pancadas que apontaram pedantismo e uma certa infantilidade na abordagem das ideias. Venderam razoavelmente bem na Europa.

De alguma forma, não foi o suficiente para credenciá-lo como um intelectual fora do rock, algo que o parceiro Paul McCartney parecia estar sendo bem-sucedido por sua desenvoltura nos meios mais intelectualizados.

Paul, mais expansivo e descontraído, se deu bem entre os artitas mais importantes da época – namorava Jane Asher, uma garota da alta sociedade que era uma respeitada atriz de teatro da então nova geração.

À vontade nesse meio, Paulç lia muito e de tudo e se mostrava erudito e pensador nas entrevistas, o que intimidava John e acentuava a sua insegurança artística,

De alguma forma, o encontro com Yoko mudou essa dinâmica e o fez lidar melhor com essa insegurança. Suas canções ganharam força e contundência, seja com letras mais intimistas e cheias de figuras de linguagem, seja assumindo posturas sociopolíticas surpreendentes e de afronta ao sistema.

Yoko Ono não acabou com os Beatles, mas libertou Lennon de algumas de suas amarras e o incentivou a buscar protagonismos que oura não estava disposto a assumir. Demônios internos foram domados e outros foram libertados – o tratamento que deu à ex-esposa, Cynthia, no processo de separação e divórcio, foi cruel. 9

O mais correto é entender que a influência de Yoko potencializou um estado crítico de lento distanciamento entre John e Paul, consequência da recusa em fazer show a parti de 1966 e, principalmente, da morte do empresário Brian Epstein, em meados de 1967.

McCartney tentou assumir o comando de tudo, para desgosto de John, que decidiu fazer uma oposição velada – decisão sua, com total apoio de Yoko, então já sua companheira, e não o contrário. A criação da Apple, empresa que deveria comandar todos os negócios da banda, foi um erro estrondoso e acelerou o processo de deterioração que culminou com o fim da banda, em abril de 19070.

As campanhas pacifistas de Lennon e Yoko pelo mundo em 1969 já indicavam o que viria, ainda que as gravações do LP “Abbey Road” tenham sido realizadas m bom ambiente.

No final de setembro, com o novo disco na iminência de ser lançado, John, com Yoko agarrada a seu braço, bradou em reunião com os colegas e diretores da empresa, que estava saindo da banda após refutar tidas as propostas de Paul para o futuro da banda – entre elas uma turnê americana, um disco de versões de clássico do rock americano e um show em Londres a ser transmitido para o mundo todo.

Um mês depois, reafirmou a decisão ao receber o amigo de longa data e funcionário da Apple Mal Evans. Esse levou um recado da empresa, que pedia para que segurasse a informação da saída para não prejudicar as vendas dos produtos a serem lançados – “Abbey Road”, que estava nas loja, “Hey Jude”, uma coletânea programada para janeiro de 1970, e o combo LKP/filme “Let It Be”, programado para abril de 1970.

Lennon toou, mas foi traído por Paul, que anunciou que os Beatles não existiam mais em 10 de abril de 1970 no vento de lançamento de seu primeiro álbum solo, “McCartney”.== Yoko Ono não acabou com os Beatles – no máximo, deu alguma contribuição.

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