Esperança ameaçadas e o sequestro de nossa juventude

Imagem: reprodução de Youtube


Houve um tempo em que vivíamos imersos em uma esperança desconfiada, onde o mundo fazia algum sentido, mas era torto, agressivo e totalmente desproporcional. Queríamos a liberdade, como o rock pregava, mas havia o medo do novo, uma insegurança a respeito de um ambiente que transmitia sinais contraditórios, com cheiro de retrocesso e repressão.
Os punks achavam que dava para recuperar o tempo perdido, enquanto a Legião Urbana bradava que não tinha tempo perdido, que nem tudo tinha sido em vão.

Ultraje a Rigor ironizava nossas incompetências, enquanto o Ira! conclamava à luta, enquanto os Titã faziam crônica ácidas do cotidiano – para depois arregaçar com co violento “Cabeça Dinossauro” – e a Plebe Rude quebrava tudo com seu punk rock engajado. E então tínhamos esperanças.

De forma inacreditável, 40 anos depois foi preciso que Tony Bellotto, guitarrista dois Titãs, fosse a um programa de TV em rede nacional dizer que rock de direita nãi faz sentido e que o gênero, libertário e sempre a favor da liberdade, não pode servir a interesses que restrinjam a liberdade de expressão e ideais progressistas.

De uma forma bem parecida m tem artistas e fas combatendo na internet ideais d que “Tempo Perdido”, da Legião Urbana”, não passa de uma canção que fala sobre a progressão do tempo – ou seja, tem gente querendo neggar o caráter político da música, assim como se insurgem contra o conteúdo eminentemente sociopolítico de “Selvagem:”, dos Paralamas do Sucesso.

Não é uma questão apenas de negacioniosmo ou revisionismo: é uma criminosa tentativa de sequestro de nossa juventude. Ao erodir a história, grupos políticos depredam o passado deliberadamente para criar novas narrativas e deturpar o sentido de obras de arte. Foi assim durante os nefastos anos do governo Jair Bolsonaro (2019-2022) e ocorre novamente agora.

A alienação voltou com força diante da irradiação da expressão da expressão “música não é para falar política”, devidamente acompanhada de vaias nos shows de Roger Waters (ex-Pink Floyd), Titãs e Paralamas do Sucesso quando críticas foram lançadas, geralmente aos lixos da direita. De forma surpreendente, sempre estivemos reféns deste discurso minimalista e perigoso. Até quando estaremos correndo atrás para tentar recuperar o tempo perdido?

O conformismom e a acomodação dasduas últimas gerações nos assusta por conta dos avanços das ideias fascistas que encontram respaldo em jovens desinformados e desiludidos.

Aí não e trata de direita ou esquerda. mas de fascismo e liberdade de expressão, d manutenção da democracia ou de descao para a implantação d uma ditadura via golpe de Estado.

E o pacote de retrocessos vem completo: corrupção generalizada, restrição de direitos civis e direitos legais, ataques à liberdade de expressão e opinião, perseguição a artidta e adversários, desmonte de políticas avançadas de saúde e educação, disseminação da misoginia, flexibilização dos padrões de “interpretação do que é racismo”…

O sequestro de nossa “juventude” – a de hoje e a de 40 anos atrás – se dá em um contexto em que o conservadorismo tosco avança entre a geração dos atuais 50 anos de idade, gente que não entendeu nada do que aconteceu entre 1984 e 1986, apenas para ficar neste recorte.

É gente que e contentava em ouvir Loiras Geladas”, do RPM, nas danceterias e no rádio, mas que se recusava e encarar os fatos de que o mundo era complicado mesmo nas letras bem sacadas do Ultraje a Rigr das canções punks.

Ao replicarem os piores discursos conservadores de 1986, esses cinquentões e sessentões se recusam a enxergar o que foi a ânsia de liberdade e uma juventude castrada e asfixiada por uma criminosa ditadura militar.

Mais ainda: estamos à mercê de pensamentos que admitem autocracias e abalroamento da democracia disseminados por uma geração que se beneficiou da própria democracia.

São conservadores retrógrados que admitem até mesmo a volta de militares ao poder por meio d golpe de Estado em nome de um fascismo disfarçado, nos moldes da atual política norte-americana. É essa gente nojenta que está dando o tom da narrativa política nem tão jovem no Brasil.

Como tem acontecido desde os movimentos brasileiro de 2013 – com a consequente derrubada da presidente Dilma Rousseff (PT) -, o campo progressista está atrasado e em desvantagem na guerra midiática e nos debates ideológicos para capturar corações e mentes dos jovens

Quando o sequestro de nossa juventude – a de hoje e a de 40 anos – avança em relação a ícones culturais permanentes, é sinal de que o tempo está sendo perdido em várias frentes.

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