‘Look at Yourself’, do Uriah Heep, ressurge em versão dupla

Em um momento difícil para celebrar, com o fundador afastado por problemas de saúde, o Uriah Heep tenta marcar os 55 anos da banda, lembrados no ano passado, com relançamentos de ualidde e ampliados.

Não é a primeira vez que reedições da banda surgem com material extra e inédito, mas a tecnologia atual possibilita algumas variantes interessantes. A gravadora japonesa da banda, por exemplo, colocou no mercado um CD duplo do segundo melhor do grupo, “Look at Yourself”, de 1971, com novas mixagens e remasterizações.

O trabalho de resgate foi minucioso e o disco extra traz uma mixagem alternativa, que realçam arranjos antes quase imperceptíveis. Foi o disco que colocou o Uriah Heep no mapa da música e conta com as clássicas canções “July Morning” e Look at Yourself”.

No final do ano passado, uma versão ampliado de “Salisbury”, de 1970, tinha sido relançada com muitas músicas adicionais e material inédito, resgatando veia progressiva do conjunto em seu segundo álbum da carreira.

“Look at Yourself” é praticamente o início da formação clássica Uriah Heel – Mick Box (guitarras), David Byron (vocais, 1947-1985), Gary Thain (baixo, 1948-1975), Ken Hensley (teclados e guitarras, 1945-2020) e Lee Kerslake (bateria- 1947-2020). Box, o único vivo, anunciou na semana passada que não participará da próxima turnê por motivos de saúde. Tem 78 anos.

No seu auge, entre 1972 e 1974, rivalizou com Nazareth, Deep Purple, Led Zeppelin, Queen e Black Sabbath como banda top do chamado “rock pauleira setentista. Na sua discografia, apenas Demons and Wizards”, de 1973, supera “Look at Yourself” e também deverá ganhar a sua versão ampliada em 2026.

Mais de cinco décadas de poeso

Uma banda odiada pela crítica, que não se conformava com o som pesado, tosco e os temas absurdos abordados nas letras. Como era possível que houvesse gente disposta a pagar pelos discos e para vê-los ao vivo?

A descrição cabe perfeitamente aos primórdios do Black Sabbath, que lançaria seu primeiro álbum em 1970, mas também se aplicou a um quinteto ainda mais bizarro e, em determinados momentos, tão pesado quanto o quarteto de Birmingham. Coincidentemente, fez sua estreia em vinil também em 1970.

Embora o Uriah Heep seja uma banda inglesa considerada cult dentro do rock pesado setentista, fez muito sucesso entre 1971 e 1975, vendendo horrores e fazendo sombra ao Deep Purple e ao próprio Black Sabbath.

O grupo completou no ano passado 55 anos de carreira ainda na ativa. Das cinzas do Spice, formado em 1967 por Box e Byron, o Uriah Heep começou a tomar forma com a chegada de Hensley, multi-instrumentista que deu forma ao som encorpado e gigante que o grupo adquiriria.

Os três formataram o som que encantaria o empresário e produtor Gerry Bron, nome pesado da indústria musical britânica, e logo mostrariam um tipo de som que os diferenciaria, e muito, da concorrência naquele começo de década.

Fugido da linha mais pop que o nome Spice sugeria, entram em 1970 com sangue nos olhos e trocam a alcunha para Uriah Heep, nome de um personagem literário do mundo fantástico.

A grande arma que o grupo apresentava era o hard rock com bastante peso aliado ao molho acrescentado pelo órgão Hammond de Ken Hensley, adicionando urgência e horror ao som violento que tomava forma no álbum “Very Heavy, Very Humble”, daquele ano de 1970.

FOTO: DIVULGAÇÃO

O auge com a formação clássica

Os teclados que sobressaíam acabaram por colocar a banda em outro patamar, distanciando a sonoridade dos concorrentes mis fortes – groove hard do Deep Purple, o blues energético e eletrizante do Led Zeppelin e o heavy tétrico e absoluto do Black Sabbath.

Magos, magia, muindos paralelos e outros temas “progressivos” chamaram a atenção de roqueiros do mundo todo e fizeram com que a banda transitasse bem pelos dois mundos – hard/heavy e prog -, o que garantiu presença constante em festivais e megaturnês pelos Estdos Unidos.

Apesar de hoje subestimado, o Utriah Heep esteve nio topo por conta de uma trinca de álbuns considerada imbativel até hoje. “Salisbury”, de 1971, já indicava o som que predominaria dali para frente, com o início da sofisticação de arranjos e letras.

“Look at Yourself”, também de 1971, foi a explosão de criatividade e inovação que a banda precisava para inscrever seu nome entre os gigantes da primeira metade dos anos 1970 – a faixa-título e “July Morning” são as grandes canções.

A guitarra de Mick Box se tornava referência, com seus fraseados rápidos e extremamente intrincados, tendo a “cama” de teclados de Hensley como um luxuoso complemento – a coisa ficaria perfeita com a chegada de Gary Thain um pouco depois.

“Demons and Wizards”, de 1972, é o começo do auge, com uma quantidade grande de músicas caprichadas e que transitam com desenvoltura entre o mundo progressivo e o hard setentista. “The Wizard”, a linda balada folk, a soturna e delicada “Circle of Hands” e a paulada “Easy Livin'”, o maior de todos os hits, estão neste disco.

Mudanças e decadência

A fase era tão boa que no mesmo ano decidiram gravar e lançar “The Magician’s Birthday”, que rivaliza com o anterior como o melhor do Heep. Aqui os destaques são a faixa-título, um primor de rock progressivo pesado, as maravilhosas “Sunrise” e “Rain” e a pérola “Echoes in the Dark”, outro grande momento do heavy metal daquele tempo.

Tudo muito rápido, intenso e regado aos excessos do rock típicos dos anos dourados e superlativos… É claro que a conta veio rápido e provocou estragos gigantescos.

Os concorrentes aguentaram mais tempo – o Deep Purple implodiu em 1976, Ozzy Osbourne foi demitido do Black em 1979 e o Led Zeppelin acabou em 1980 com a maorte do baterista John Bonham. O Heep começou a apodrecer em 1975, com a demissão de Gary Thain por abuso desenfreado de drogas. Ele morreria ao final daquele ano.

O venerável baixista e vocalista John Wetton (ex-King Crimson, Roxy Music e Family e futuro Asia) chegou como substituto e tudo parecia voltar aos trilhos, mas essa fase só durou um ano e meio e dois álbuns.

Irascível, imprevisível e megalômano, crente que era um superastro do rock, David Byron exacerbou seu comportamento instável potencializado por drogas e bebida e tornou o clima insustentável, sendo demitido ao final de 1976. Indignado com a demissão, Wetton também saiu. E o encanto do Uriah Heep acabou.

“É possível que tenhamos falhado em ajudar Gary e David em seus problemas, mas isso aconteceu provavelmente porque todos nós também tínhamos esses graves problemas e não conseguimos perceber o quanto eles precisavam de ajuda. Todos nós, na verdade, precisávamos de ajuda”, declarou Hensley em 2010 à revista brasileira Poeira Zine.

A queda foi tão vertiginosa que tornou o Heep uma banda cult nos anos 80, subestimada e até maltratada. Nunca mais conseguiu emplacar um grande hit e nunca mais gravou um grande álbum.

Paradoxalmente, foi a partir dos anos 80, época de vacas magrrimas, que a banda finalmente estabilizou a formação por quase 30 anos a partrir da chegada do vocalista canadense Bernie Shaw em 1985, após tentativas frustradas com os cantores John Lawton (com este nem tanto, já que gravou dois discos), John Sloman e Peter Goalby.

E o grupo ficou inalterado por décadas com Shaw, Box, Lee Kerslake, o baixista Trevor Bolder (que tocou com David Bowie) e o tecladista Phil Lanzon. Só foram pensar em mudanças em 2008, quando Kerslake foi forçado a se aposentar por conta de vários problemas de saúde. Seu substituto é o competente Russel Gilbrook.

Outra mudança forçada foi a saída, e posterior morte, de Bolder em 2013, vítima de câncer, aos 62 anos. Seu substituto é o discreto e competente Davey Rimmer.

Ao contrário de muitas bandas importantes dos anos 70 que vagam ainda na ativa como almas penadas, o Uriah heep segue produtivo e lançando CDs interessantes, embora sem o memso brilho de 45, 50 anos atrás. Dos trabalhos mais recentes, os melhores são “Into the Wild”, de 2011, e “Outsider”, de 2014.

O Uriah Heep escreveu páginas gloriosas do rock e foi uma das bandas que deu grande impulso para que o gênero, em especial sua vertente mais pesada, dominasse a indústria e as mentes da juventude por muitos anos. Aos 55 anos de carreira ininterrupta, é uma banda resistente e, sobretudo, vencedora.

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