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Era para ser um épico, como as suas óperas-rock lendárias. Só que resultado final não passou de um novelão recheados de clichês e sem a inspiração para se tornar uma grande novidade, ou pelo menos para revelar algum estilo diferente.

“A Era da Ansiedade”, o romance de Pete Townshend, guitarrista da anda The Who, é frustrante porque surgiu dos escombros de mais um projeto de ópera-rock, desta vez como um trabalho solo. “Floss” começou a ser composta após a turnê do Who de 2007, mas os textos de um eventual livro começaram a surgir em um blog do músico.

Ele não explicou o porquê de abandonar a ópera-rock, mas anunciou que a história viraria livro. Terminada em 2013, só viu as prateleiras das livrarias e estantes digitais cinco anos depois. Em julho de 2021 ganhou a versão brasileira pela editora Rocco.

É o terceiro livro de Townshend – “Horse’s Neck” (“Treze”, no Brasil) é um livro de contos bem interessante, lançado em 1985; “Who I Am”, de 2015, é a sua autobiografia. Como sabe escrever e os anteriores eram bons, o romance acabou sendo uma cachoeira de água fria. Não é ruim, mas é decepcionante.

Como sempre em sua obra artística, Townshend encheu a “A Era da Ansiedade” de ambição e pretensão. Queria explorar a influência da loucura e da genialidade no processo criativo de uma obra de arte, seja uma música, um quadro ou uma peça de teatro.

Por meio de um narrador que não é o centro da história, um marchand que trabalha com artistas considerados gênios e loucos, o autor teta decifrar como as “vozes” que habitam o cérebro de um músico pode ser transformada em arte.

Walter Watts, cantor de gaitista de uma banda de rock de sucesso, é o afilhado do narrador começa a “receber” mensagens no cérebro que ele identifica serem do público que o assiste.

Ele “sente” as aflições, as ansiedades e os medos de seus fãs, e não consegue lidar om isso. Ele se impõe um desafio: transformar essas emoções e informações em música, mesmo que tenha de ter a ajuda do pai, um musico erudito de quem nunca foi muito próximo.

A premissa é interessante, embora bastante pretensiosa, mas Townshend quis rechear a história com dramas secundários e encharcados dos piores clichês de romances populares ou de novelas globais das mais fracas ao estilo Janete Clair e Glória Perez.

A tentativa de dar protagonismo às mulheres, que se transformam em personagens vitais ao final da história, mostra um autor perdido entre dar um estofo maior à parte artística da história e reforçar um aspecto mais acessível e popularesco, incluindo toda uma sorte de relações amorosas complicadas, traições e segredos típicos dos folhetins.

O desfecho da história é insatisfatório e decepcionante, com a questão central, a criação artística em algumas situações extremas, ficando de lado, derrubando as expectativas em relação a muitos personagens que foram bem construídos no começo da trama. O que era habilidade ficcional no início se desvaneceu, tornando-se uma história das mais comuns e sem muito apelo.

A boa tradução do livro, ao menos, conseguiu evidenciar que Pete Townshend é um escritor com bons atributos e boas ideias, além de ter noção de encadeamento literário. No entanto, “A Era da Ansiedade” deixa transparecer que foi uma obra que, no momento em que chegou a uma encruzilhada criativa, acabou sendo terminada às pressas e optando pelas soluções mais fáceis e menos adequadas.

De certa fora, lembra o que aconteceu 50 anos antes, quando o mesmo Townshend tentou fazer uma obra pretensiosa e ambiciosa para suceder a ópera-rock “Tommy”, grande sucesso de The Who em 1969.

“Lifehouse” seria uma ópera-rock cuja história se passa em futuro distópico autoritário onde o governo persegue artistas e intelectuais e proíbe manifestações artísticas. Um grupo de rebeldes se insurge contra o governo e usa a música como atividade revolucionária, executada por uma banda de rock chamada The Who.

Em algum ponto da composição das músicas e do roteiro Townshend se viu encalacrado em uma crise criativa e chegou a um beco sem saída. Não conseguiu concluir a história e teve uma crise nervosa, indo parar no hospital. As sobras da ópera-rock se tornaram “Who’s Next”, LP de 1971 do Who que frequenta todas as listas de dez melhores de todos os tempos.

É possível dizer que, de certa forma, o guitarrista de 76 anos é um autor em construção e uma usina de ideias, mas que precisa de tempo e alguma ajudinha para ajustá-las em romances.