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Era dezembro de 1979, e fazia muito frio na porta do Riverfront Stadium, em Cincinnati, nos Estados Unidos. A fila era imensa e tinha muita gente se aglomerado no único portão de entrada. E então o povo ouviu os acordes de guitarra e o que parecia ser o início do show.

Desespero, pânico, morte, tumulto geral, portões forçados e um saldo horripilante: 11 jovens mortos, pisoteados, e dezenas de feridos. Muitas ambulâncias e os hospitais das imediações ficaram lotados. O show esteve perto de ser cancelado. mas não foi. E The Who tocou como se nada tivesse acontecido.

“Só ficamos sabendo do que ocorreu após o show, nos camarins. Ficamos anestesiados e em choque”, disse Roger Daltrey, o vocalista da banda, em sua autobiografia. “Organizadores e polícia decidiram não nos avisar e prosseguir com tudo por medo de que novos tumultos, com o cancelamento, provocassem mais mortes.”

Em entrevistas ao longo dos anos, o guitarrista Pete Townshend manifestou variados graus de culpa e outros sentimentos, mas admitiu que passou por sua cabeça acabar com tudo e parar com a música depois da tragédia. Eles estavam no meio da primeira turnê depois da morte do baterista Keith Moon, de overdose de remédios, em setembro de 1978.

No anúncio do retorno da banda aos palcos em 2022, retomando os planos interrompidos em 2020, chamou logo a atenção na lista de cidades a data de 15 de maio, no TQL Stadium, em Cincinatti. 

A banda voltará a tocar na cidade depois de 42 anos, Desde o acidente com as mortes – a banda foi inocentada de responsabilidades -, eles nunca mais tocaram por lá. Daltrey e Townshend, como artistas solo, visitaram Cincinnati, mas por muito poucas vezes.

A prefeitura local e os parentes das vítimas criaram um memorial para lembrar do tumulto e das mortes, e mais de uma vez isentaram os artistas de culpa.

Não será uma coisa simples tocar de novo em Cincinnati. haverá todo um simbolismo em torno do que ocorreu há mais de 40 anos e certamente muitos fantasmas – imaginários e “reais” – ressurgirão até que The Who consiga expiar “culpas e sentimentos contraditórios e ruins”, como disse Townshend recentemente em entrevista. Mas, de certa forma, ele e Daltrey sabiam que um dia esse dia chegaria. 

Daltrey disse em um comunicado divulgado pela assessoria de imprensa da banda: “Pete e eu dissemos que voltaríamos aos palcos, mas não achamos que teríamos que esperar dois anos pelo privilégio. Isso está fazendo com que a chance de se apresentar pareça ainda mais especial desta vez. Tantos meios de subsistência foram afetados devido ao covid, por isso estamos entusiasmados em reunir todos de volta – a banda, a equipe e os fãs. Estamos nos preparando para um grande show que rebate da única maneira que The Who sabe. Dando tudo o que temos.”

Mortes e desorganização

Por que os jovens morreram em frente ao Riverfront Coliseum? Houve uma mistura de desinformação, despreparo, desespero e muita desorganização.

Aparentemente, o público leu e ouviu informações desencontradas a respeito do horário do show e muito cedo se concentrou na frente do único portão de acesso ao gramado do estádio.

]Com a aglomeração, a segurança privada do local se enervou e procurou a polícia, que enviou um esquadrão antitumulto, que também não soube lidar com a questão.

O que precipitou toda a confusão foi a passagem de som horas antes do espetáculo. Foram três ou quatro músicas tocadas na íntegra, mas um grupo histérico de fãs achou que o show estava começando mesmo que os acordes soassem muito antes do horário determinado.

Assim como em vários eventos dos anos 70 em grandes estádio, a entrada era por ordem de chegada mesmo nas arquibancadas. Vendo os portões fechados e a música rolando, muita gente tentou forçar a entrada. Quem sobreviveu ao tumulto se espanta até hoje pelo fato de que apenas 11 garotos tenham morrido.

O show começou e prosseguiu sem que banda soubesse do tumulto. Temia-se que houvesse uma convulsão ainda maior se a organização optasse pelo cancelamento. 

Quando as mortes chegaram aos ouvidos de Townshend, ele se desesperou e cogitou ali mesmo cancelar o restante da turnê e acabar com a banda. Acalmado, teve alguns dias pra repensar a vida e foi convencido a continuar com a turnê.

altrey tocou na cidade em 2018 com sua banda solo e participou de diversas homenagens aos mortos e contribuiu para um fundo de oferece bolsa de estudos a alunos carentes. 

A banda fará o mesmo neste ano e também prepara uma doação para P.E.M., que vai beneficiar estudantes da Finneytown High School, onde estudavam vários dos mortos e dos feridos na ocasião.

A banda de apoio para esta turnê terá o guitarrista/vocalista Simon Townshend (irmão de Pete e que toca com o Who desde 1996), os tecladistas Loren Gold e Emily Marshall, 0 baixista Jon Button, o baterista Zak Starkey (filho de Ringo Starr) e os vocais adicionais do vocalista e produtor Billy Nicholls. De novidade, a presença de uma orquestra em alguns shows, sob a regência do maestro Keith Levenson e o solos da violinista principal Katie Jacoby e da violoncelista Audrey Snyder.