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 Era para ser uma “consultoria”, mas virou uma sessão ao vivo em um estúdio meio que improvisado. O resultado: uma deliciosa trilha sonora para um, documentário e uma grande homenagem ao baixista Dusty Hill, que morreu em julho de 2021 aos 72 anos de idade.

Com o ZZ Top nunca teve tempo ruim. “O que temos de fazer? Subir e tocar, então vamos lá!” E então a sessão “improvisada” em um local mítico se transformou em “Raw”, o mais recente lançamento do trio texano. E então temos os maiores hits da banda em versões maravilhosas, quase cruas, sem processamentos e equipamentos gigantescos de som. 

Essa reunião em estúdio ocorreu em 2019 durante a elaboração do filme “That Little Ol ‘Band From Texas”, da Netflix. O filme foi indicado ao Grammye filrealizado pela Banger Films e pelo diretor Sam Dunn. 

A ideia era que dessem depoimentos apenas, mas quando os três chegaram ao Gruene Hall, “o mais antigo salão de dança continuamente executado no Texas”, tudo estava montado – cortesia da equipe da banda, que fez a surpresa. 

Os três nem piscaram: com as roupas que estavam vestidos, despojadas, foram para  “trabalho” e desfilaram 12 clássicos. Como a perfeição não existe, faltou a maravilhosa “Jesus Just Left Chicago”, talvez o melhor blues sacana de todos os tempos.

Para o material de divulgação do filme, o guitarrista Billy Gibbons explicou que precisava ilustrar a carreira da banda com as passagens clássicas e icônicas, de preferência mostrando a evolução musical em mais de 50 anos de carreira.

“O Gruene Hall foi selecionado como um cenário adequado para replicar o visual dos primórdios da banda. Quando chegamos, ficamos surpresos ao ver que todo o nosso equipamento havia sido transportado para lá, então, enquanto as câmeras rolavam, pegamos os instrumentos e começamos uma jam session não planejada” disse o guitarrista.

As 12 canções, ao vivo, viraram a trilha sonora do filme e agora também é um documento de áudio dos primórdios do ZZ Top. Poderia se tornar uma “moda” entre as grandes bandas, que exauriram todos os formatos possíveis, do acústico ao ao vivo tocando um disco inteiro.

É muito saboroso ver os setentões voltarem a tocar como se estivessem em um bar esfumaçado de Austin u Dallas oh Houston ou Fort Worth. “La Grange” aparece com uma energia e um sarcasmo contagiantes, assim como o hino “Tush”, onde Hill parece estar se divertindo mais do que tudo mundo.

“Thunderbird”, um boogie blues, fica ainda mais blues e mais safada, enquanto “I’m Bad, I’m Nationwide” recebe um groove diferente, mais cadenciado que a torna ainda mais relevante.

Das canções mis modernas, digamos assim, duas se destacam por estarem “despidas” dos excessos de estúdio e de algumas apresentações ao vivo. São superhits dos anos 80 e que levaram o ZZ Top a ser admirado no mundo todo.

O maior de seus clássicos, “Gimme All Your Loving”, vira um rock básico e intenso, que valoriza as linhas de baixo e os riffs perfeitos. A alma bluesy está ali, na guitarra suja e capciosa de Gibbons.

“Legs” perde a sua aura pop e dá vazão a uma versão que também é bem bluesy, que destaca a guitarra única e letal de Gibbons, enquanto o baixo de Hill ganha proeminência e funciona quase como uma guitarra base, como tinha feito em “Tush”.

Enquanto a banda cumpre os vários compromissos ao vivo neste ano, Gibbons e o baterista Frank Beard avaliam a possibilidade de lançar ao menos mais um disco com canções inéditas como um epitáfio da mais que vitoriosa do ZZ Top.

O guitarrista já declarou que será uma tarefa duríssima entrar no estúdio sem o parceiro eterno de composição. “Sem aquele groove na minha cabeça, pulsando, será quase impossível criar algo novo e bom o suficiente.”

O ano de 2022 marca os dez anos de lançamento do último álbum de inéditas do ZZ Top, “La Futura”, não tão inspirado quanto o anterior, “Mescalero”, de 2003. O substituto de Dusty Hill nos shows desde julho de 2021 é Elwood Francis, que era o técnico de baixo e guitarra do próprio Hill.